21 Novembro 2019

Os medalhões de Abuquir

Encontrados no início do século XX em Abuquir, no Egito, os onze medalhões adquiridos por Calouste Gulbenkian são objetos raros, fabricados no século III. Os medalhões apresentam imagens relacionadas sobretudo com Alexandre Magno, cujo retrato aparece em sete exemplares, e podem ser vistos na Coleção do Fundador.

A coleção de numismática de Calouste Gulbenkian abrange exclusivamente moedas gregas dos períodos arcaico, clássico e helenístico (c. 650-30 a.C.). Os onze medalhões de Abuquir são, por isso, exceções: apesar de terem sido concebidos no norte da Grécia e de apresentarem inscrições em grego antigo, remontam ao século III d.C., altura em que a região se encontrava sob o domínio do Império Romano.

Embora Gulbenkian soubesse que os medalhões não se enquadravam na sua coleção, estava determinado a adquiri-los. Como se pode verificar pela sua correspondência com Stanley Robinson, seu consultor e membro do Departamento de Moedas e Medalhas do British Museum, Gulbenkian pensava que os medalhões datavam do século I a.C.; quando a sua datação foi corrigida, sugeriu que talvez combinassem com a sua coleção de medalhas do Renascimento. Ainda que Robinson o tenha informado de que os medalhões eram tão diferentes das suas medalhas quanto das suas moedas, Gulbenkian afirmou que eram muito bonitos e que os compraria na mesma.

As peças foram encontradas por acaso em Abuquir, no Egito, em 1902, e faziam parte de um conjunto de vinte medalhões, seiscentas moedas de ouro e cerca de vinte lingotes gravados. Eram muito raros entre os objetos do mundo antigo, podendo ser comparados com apenas três outros medalhões, conservados atualmente em Paris e encontrados no Tarso, onde hoje se situa a Turquia.

No entanto, enquanto os medalhões do Tarso só têm imagens numa das faces, os exemplares de Abuquir são gravados dos dois lados. Pouco depois de a descoberta de Abuquir se tornar pública, os medalhões foram apresentados à Bibliothèque nationale de France, em Paris, e ao British Museum, em Londres, mas nenhuma das instituições os adquiriu por não terem a certeza de que fossem verdadeiros.

Assim, cinco medalhões foram sugeridos à Casa da Moeda de Berlim, que os comprou após o conhecido académico Heinrich Dressel os ter declarado genuínos. A partir desse momento, a autenticidade dos medalhões de Abuquir tem sido globalmente aceite.

Os medalhões que não foram comprados pela Casa da Moeda de Berlim foram vendidos a colecionadores privados de várias partes do mundo. Gulbenkian adquiriu três exemplares a James Loeb em 1949 e os restantes oito à Pierpoint Morgan Library no mesmo ano.

As imagens reproduzidas nos medalhões estão sobretudo relacionadas com Alexandre Magno (356-323 a.C.); o seu retrato aparece em sete deles e o da sua mãe, Olímpia, em dois. Alexandre Magno também está representado em várias cenas, montando o seu cavalo Bucéfalo ou recebendo armas de Nike, rainha da vitória. O nome de Alexandre, em grego, também surge algumas vezes nas inscrições num dos lados dos medalhões. Um deles representa o imperador romano Caracala (198-217 d.C.), que tentou imitar Alexandre nas suas ações e na sua aparência.

Inicialmente, pensou-se que os medalhões fossem prémios atribuídos aos vencedores de competições desportivas; contudo, hoje acredita-se que terão funcionado como oferendas destinadas a oficiais superiores do mundo romando, possivelmente na Macedónia, onde foram feitos.

George Watson
Goethe-Universität Frankfurt am Main,Institut für Archäologische Wissenschaften

Atualização em 21 Novembro 2019