14 Janeiro 2020

Algarve, entre Minho e Ribatejo

Emília Nadal. «Allgarve», 1979. Desenho a lápis sobre papel. Coleção da artista

A primeira lata de Emília Nadal toma forma num desenho de 1976, intitulado Algarve. Esta obra, apresentada na exposição individual da artista no Centro de Arte Contemporânea do Museu Soares dos Reis no Porto em 1977, faz parte da série Landscapes [Paisagens] que inclui igualmente os desenhos Ribatejo e Minho, ambos de 1976.

Embora Algarve deixe transparecer toda a carga irónica que irá caracterizar as obras do ciclo «Embalagens para Conteúdos Naturais e Imaginários Liofilizados» (1976-1979), este trabalho materializa também uma certa «atitude de revolta», que se traduz na urgência de problematizar questões ligadas à preservação do ambiente no contexto das transformações sociais e económicas dos anos pós-revolução. «Atitude de revolta […]», escreve a artista em 1978, «uma vez que o primeiro projeto de embalagem constituiu um protesto contra a degradação da nossa paisagem pelo turismo de massas, ao imaginar uma lata contendo a costa algarvia liofilizada e pronta a usar.»1

Ao parodiar a interação de texto e imagem típica das mensagens publicitárias, o rótulo da lata Algarve transforma a paisagem algarvia em produto comercial «genuíno», feito de ingredientes como água marinha, figos, sol, pinheiros, areia e outros ainda. Trata-se de uma mercadoria portuguesa de exportação, já que as palavras destinadas ao consumidor são todas em inglês. A ironia da artista não se limita, contudo, a este détournement, ou à denúncia de um desejo de consumo desmedido cujas consequências chegam a ameaçar o próprio ambiente natural.

Com efeito, a água espalhada na base da lata deixa imaginar uma falha, sugerindo assim que a embalagem possa não ser perfeitamente estanque, e que as tentativas de separar o espaço interior do espaço exterior, a paisagem de pacote turístico do seu contexto mais alargado – e a arte da realidade –, encontrem sempre alguma resistência, algumas gotas salgadas e rebeldes que tentam voltar ao oceano.

Entre o final dos anos sessenta e a primeira parte da década de setenta, são traduzidos para português alguns livros-chave do debate acerca da sociedade de consumo no ocidente. Em 1969, a editora Ulisseia publica A Vida Quotidiana no Mundo Moderno de Henri Lefebvre. Mitologias de Roland Barthes e A Sociedade de Consumo de Jean Baudrillard são publicados em 1973 e 1975, respetivamente, pelas Edições 70.

Em ressonância com estas reflexões críticas, são os mecanismos de comunicação visual ao serviço do consumo e os processos de reprodução de imagens e objetos no contexto das economias capitalistas que parecem interessar particularmente a Emília Nadal. Com efeito, em 1977, a artista ganha uma bolsa de investigação de um ano da Fundação Calouste Gulbenkian com um projeto artístico intitulado «O múltiplo e a comunicação visual».

É no âmbito desta pesquisa que a lata-objeto Slogan’s (1979) é realizada por Nadal na Fábrica Viúva Ferrão através de uma impressão offset sobre alumínio. Para alcançar o efeito plástico desejado, a artista recorre a uma comparação entre rótulos antigos e contemporâneos2, uma abordagem arqueológica que torna relevantes as transformações técnicas e estéticas da linguagem visual utilizada nestes suportes.

Se a relação entre contentor e conteúdo imaginário das embalagens – slogans ideológicos, paisagens turísticas, esposas ideais, arte, belezas exóticas, palavras, discursos políticos e outros – joga astuciosamente com a indução, no espectador, de uma curiosidade ou desejo que não poderá encontrar satisfação3, o efeito de estranhamento intensifica-se quando a lata se transforma em objeto e se multiplica como um produto de supermercado, por exemplo em Slogan’s.

Por vezes, as latas assumem dimensões que a artista qualifica de ameaçadoras4. Num esboço de 1978, Nadal imagina construir uma lata Algarve de grande tamanho, representando-a como uma espécie de monumento ao consumo turístico que domina as personagens que a contemplam5. Ironicamente, a artista insere a lata na própria paisagem natural que o seu conteúdo contribui para canibalizar. Embora este projeto específico nunca tenha sido realizado, outras embalagens monumentais, como Skop (1977), deixam-nos adivinhar o impacto físico e espacial que esta peça teria tido.

Em 1979, Nadal realiza um segundo desenho de uma embalagem que alude à costa algarvia. Inicialmente intitulada Algarve deu-lhe mais tarde o título Allgarve, referindo-se à marca criada em 2007 para a promoção turística da região. Esta obra diferencia-se em vários aspetos do desenho de 1976: em particular, enquanto a mensagem publicitária se torna mais subtil, a paisagem reconquista mais espaço tanto no rótulo da lata como fora dele. É a cor, contudo, ou a ausência dela, que assinala a distância entre um produto em tons de cinza e um ambiente natural a cores, resistente à domesticação comercial.

No contexto pós-revolucionário de abertura e transformação política, social e económica, as preocupações ecológicas tornam-se mais presentes no cenário português, em particular através da luta contra o nuclear6. Neste sentido, é importante lembrar que as obras Algarve (1976) e Allgarve (1979) são contemporâneas, entre outros, da fundação do Movimento Ecológico Português em 1974, das lutas da população de Ferrel contra a implantação de uma central nuclear a partir de 1976, e do Festival pela Vida contra o Nuclear nas Caldas da Rainha e Ferrel em 19787.

Embora a prática de Emília Nadal não esteja diretamente ligada a essas manifestações, a preocupação da artista com a degradação ambiental no contexto da sociedade de consumo cruza os percursos do ambientalismo emergente dos anos setenta. Entre as numerosas ressonâncias que a obra da artista instiga, algumas delas amplamente comentadas por críticos e historiadores da arte ao longo do tempo, a crítica que faz às consequências do turismo de massa em Portugal testemunha a desconcertante atualidade do seu trabalho.

 

Texto de Giulia Lamoni
Investigadora, Instituto de História da Arte, Universidade Nova de Lisboa


[1] Emília Nadal, Sem título, in Emília Nadal, Proyectos para envases de productos naturales imaginarios liofilizados, catálogo de exposição. Madrid: Galeria Ynguanzo, 1978, n.p.

[2] Emília Nadal, Relatório de bolsa, 3.º trimestre de 1978, 2. Arquivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

[3] A literatura crítica acerca destas obras é vasta. Indicamos aqui apenas alguns textos que informaram a nossa leitura: José Austo França, Sem título, in Emília Nadal, «Algumas propostas para a embalagem de conteúdos naturais e imaginários liofilizados», catálogo de exposição. Porto: Centro de Arte Contemporânea do Museu Soares dos Reis, 1977, n.p.; José Augusto França, «Warhol, Nadal e Cª», Diário de Lisboa. Lisboa: Folhetim Artístico, 27 de julho 1977; Manuel Rio Carvalho, Emília Nadal. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1986; João Pinharanda, «Algumas faces de um cristal», in Emília Nadal, Tudo o Que Acontece 1976-2011, catálogo de exposição. Cascais: Centro Cultural de Cascais, 2011, n.p.

[4] Emília Nadal, Sem título, in Emília Nadal, Proyectos para envases de productos naturales imaginarios liofilizados, catálogo de exposição. Madrid: Galeria Ynguanzo, 1978, n.p.

[5] O esboço encontra-se no Dossiê da Bolsa atribuída à artista pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1977. Arquivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

[6] Ver Viriato Soromenho-Marques, Metamorfoses. Entre o Colapso e o Desenvolvimento Sustentável. Mem Martins: Publicações Europa-América, 2005.

[7] Ver Nuno Manuel dos Santos Carvalho, A Construção do Ambiente como Problema Social em Portugal: Anos 70-Anos 90, dissertação de Doutoramento em Sociologia. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2003.