25 Junho 2020

José Barrias (1944-2020)

José Barrias, Sem título (do ciclo «Vestígios»), (pormenor), 1987. Carvão sobre papel Fabriano. Coleção Moderna

José Barrias (1944-2020) vivia desde 1968 em Milão, cidade onde faleceu no passado sábado, 6 de junho.

Nasceu em Lisboa a 14 de junho de 1944. Depois dos estudos de Pintura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, partiu para Paris em 1967, fixando residência em Milão a partir de 1968, mas mantendo sempre uma ligação com Portugal, circulando em permanência entre culturas. Em 1978, como referiu a certa altura, conheceu Ernesto de Sousa, que mudou radicalmente a sua vida de artista.

José Barrias sempre foi considerado pelos seus pares um artista culto, viajando entre o clássico e o contemporâneo. Como destacou numa entrevista em 2013, «a arte da memória e a memória da arte se constituem como duas vertentes importantes da minha obra». Uma obra que passa pelo uso de diferentes media – desde a prática do desenho e da pintura ao uso da fotografia, do filme e do texto escrito – e que muitas vezes transformou em instalação.

Em 1996, na primeira grande exposição de Barrias em Portugal, foi possível ver um conjunto significativo das suas obras no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, na exposição intitulada José Barrias Etc…

A Coleção Moderna do Museu Calouste Gulbenkian inclui, no seu acervo, dois desenhos a carvão do ciclo «Vestígios», de 1987, expostos em conjunto com mais outros 17 carvões, de grandes dimensões, na Galeria Emi-Valentim de Carvalho, em 1989, e que representam sobretudo objetos do quotidiano. A Coleção detém também uma importante instalação, composta por 14 fotografias a preto e branco e um vídeo, intitulada Barragem. Esta obra histórica, realizada em 1980, dá a ver através das fotografias e do vídeo a aldeia perdida de Vilarinho das Furnas. Em outubro de 1979, quando a aldeia emergiu, José Barrias registou essa nova realidade, articulando a imagem fixa e a imagem em movimento e permitindo, simultaneamente, uma reflexão sobre o esquecimento, o desaparecimento e o destino. A reflexão estende-se à ideia de ruína e ao «predomínio do tempo sobre o espaço». Sobre esta obra, Barrias registou, no catálogo da exposição da Fundação, em 1996: «Neste lugar onde o limite não se resolve em metáfora a ruína equivale a si mesma porque em si mesmo vacila. É a sua força. A ruína tornou-se poética (…)».