Entrevista com Emily Wardill

O que significa para si Matt Black and Rat?

Várias coisas. Para começar, é a expressão que se usa quando se pinta um veículo de preto mate, por vezes com tinta de pintar casas. Ao fazê-lo, mostramos que não estamos interessados na vertente superficial do carro mas apenas nos seus elementos estruturais: o tamanho do motor, a velocidade, a potência, etc. A minha herança artística vem dos realizadores estruturalistas, daí que esta ênfase na materialidade seja, para mim, muito apelativa. Este preto mate específico também se assemelha a um carro queimado, e um dos filmes que integra esta exposição, No Trace of Accelerator, remete para uma série de incêndios. Mas gosto, sobretudo, do modo como as palavras soam, não só separadamente, mas como um todo. Nesta exposição trabalho com imagens que funcionam como palavras e com palavras que funcionam como imagens. E as palavras que compõem este título assemelham-se também muito a imagens.

 

O que mostra nesta exposição? Qual a ideia-chave?

Mostro algumas obras distintas. No Trace of Accelerator é um filme realizado no verão passado, que se baseia numa série de incêndios ocorrida em França no final dos anos de 1990. O fogo é aqui encarado na perspetiva de um case study baseado na amplificação social do risco. Durante a ocorrência destes incêndios, a população local foi encontrando vários responsáveis: falhas elétricas, micro-ondas, sismos, e, finalmente, o sobrenatural, já que nenhum vestígio do acelerador foi encontrado no local dos incêndios, tendo sido excluída mão criminosa. Mostro também uma série de relevos escultóricos que são camisas brancas que parecem sair das paredes. Estas esculturas sugerem algo entre peças de origami e semifantasmas. Também estarão expostos fotogramas feitos de luz, inspirados no título Matt Black and Rat. Finalmente, na última sala, mostro I gave my love a cherry that had no stone – um filme realizado na Gulbenkian – com o bailarino David Marques. Não sei se posso dizer que existe uma ideia-chave, mas pensei muito na ideia de uma coisa querer ser outra coisa. O case study é a materialidade que aspira à transparência – é suposto esquecê-la quando a compreendemos. Por outro lado, os relevos são como esculturas que querem ser planas e os fotogramas são palavras que querem ser imagens. Por fim, o filme I gave my love… é sobre um homem que não quer ser real.

 

Porque decidiu filmar na Fundação Calouste Gulbenkian?

Neste espaço, temos a sensação de que o tempo aponta em duas direções diferentes. Parece o passado a imaginar o futuro. As texturas, as cores, o modo como a luz paira fazem-nos desconhecer a Era, a altura do dia, se somos bem-vindos ou não. É como um espaço clássico de terror que alimenta o nosso medo do desconhecido. Penso no terror do ponto de vista da nossa relação com os objetos. O filme debruça-se sobre a relação entre uma câmara e uma pessoa que se assemelham – a câmara tem um carácter humano e a pessoa tem a tecnologia da máquina.

 

O que a levou a mudar-se para Portugal?

Vim a Lisboa participar num filme com a Kunsthalle Lissabon há alguns anos, e fiquei seduzida pela música, pela energia, pelas pessoas, tudo tão próximo do oceano selvagem… Parece que, sem essa bela e poderosa força correndo ao longo do país, este seria um lugar completamente diferente.

 

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