«Um adeus português»

Os pintores estrangeirados, Paolo e Francis Smith

Paolo (nome artístico de Paulo Ferreira, 1911-1999) dá-nos duas pinturas com linguagens pictóricas internacionais e um contexto bem português, ao passo que o seu amigo e compatriota, companheiro de tantos anos em Paris, Francis (ou Francisco) Smith (1881-1961) representa uma «pequena porteira» francesa, do mesmo modo que poderia ter pintado uma menina portuguesa.

Na pintura O Tejo visto de Santa Catarina, a mulher (uma varina?) espera no recato, na sombra, em primeiro plano, enquanto uma luminosa paisagem lisboeta se abre no exterior, em perspetiva, no segundo plano da tela. O modelo segue a pintura religiosa do Renascimento, na qual inúmeras «Virgens com o Menino», representadas em interiores palacianos, têm o ponto de fuga na vista de paisagens a que acedemos através de janelas, que demarcam o interior/exterior da representação e do nosso olhar sobre o objeto que é a própria pintura.

O mesmo ambiente popular surge numa linguagem de mais acentuado cunho neorrealista na tela O encontro, que representa a chegada de um pescador que talvez tivesse andado perdido no mar e sido dado como desaparecido. Este «encontro» era sempre temporário, precedido e sucedido por nova partida, tornando cada chegada numa despedida.

Vinte anos antes, Smith, que vivia em Paris desde 1907, retratava esta menina sentada, uma figura popular, como será sempre a matriz do seu registo, suspensa no tempo, na candura da sua própria vida.