7 Fevereiro 2020

Artistas em Viagem na Coleção Moderna

Novo percurso expositivo e recentes aquisições e doações marcam as mudanças na Coleção Moderna.

Armando Ferraz. Sem título (Plane Room), da série Azul e Rotineiro (pormenor), 2000. Fotografia Cromogénea sobre papel. Coleção Moderna

A partir do próximo dia 30 de janeiro, a Coleção Moderna do Museu Calouste Gulbenkian apresenta as suas mudanças anuais, que envolvem a montagem de 80 obras, entre instalação, escultura, pintura, desenho e fotografia. Esta renovação da coleção propõe um novo percurso expositivo que inclui peças de artistas portugueses incorporadas em 2019, nomeadamente importantes doações, de Jorge Pinheiro, Maria Gabriel e David de Almeida, e novas aquisições de obras de Rosa Carvalho, Ana Léon, Ana Jotta, Mónica de Miranda ou Eugénia Mussa.

Com destaque para a figura tutelar de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), cuja obra gráfica será exposta pela primeira vez na Coleção Moderna numa sala dedicada à artista, salientamos um conjunto de 17 gravuras, desde o buril e a água-tinta até às séries de litografias e serigrafias, desenvolvidas sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, quando a artista já se encontrava instalada definitivamente em Paris e naturalizada francesa, depois de um exílio forçado no Rio de Janeiro, no Brasil (onde viveu de 1940 a 1947).

O tema Artistas em Viagem percorre as galerias da Coleção Moderna, onde se podem encontrar histórias de viagens e de viajantes, além de relações fictícias entre olhar e paisagem – com destaque para as impressionantes fotografias de Augusto Alves da Silva e António Júlio Duarte.

A condição de estar fisicamente e/ou metaforicamente «fora do lugar» e o confronto entre mobilidade e imobilidade são os pontos de partida para este percurso expositivo, que se inicia no átrio da Coleção Moderna com a instalação da obra Hidden Pages, Stolen Bodies de António Ole, enunciando o tema da escravatura, associado à violência colonial e ao encontro entre as culturas europeias e africanas.

O percurso desenrola-se entre partidas baudelairianas, ou seja, de viajantes flâneurs, passando por uma «fuga possível» de uma realidade política e social, que incutiu uma claustrofobia extenuante aos artistas durante o período do Estado Novo, mas permitindo o regresso de alguns deles, como João Cutileiro, Menez ou Lourdes Castro que, enquanto bolseiros da Fundação Gulbenkian, produziram as obras aqui apresentadas, quer em Londres, quer em Paris. 

De facto, as cidades que foram e continuam a ser fundamentais centros para a comunidade artística portuguesa (mas não só) – falamos de Paris, Londres, Macau, Berlim, Luanda, Nova Iorque, entre outras – destacam-se no desenvolvimento das vanguardas, oferecendo uma abertura cultural significativa para grande parte dos artistas representados neste percurso. 

Como movimento dinâmico que provoca o encontro com outras realidades, quer sejam geográficas, culturais ou sociais, a viagem é igualmente impulsionadora de autoconhecimento, sendo que o sujeito que regressa é diferente daquele que partiu, representando, contudo, a procura de um desígnio existencial mais cabal e autêntico. Neste caso, artistas como António Dacosta ou Fernando Lemos, sem esquecer Vieira da Silva, pertencem a um grupo de exilados permanentes, embora tenham mantido uma ligação constante a Portugal.

Na grande vitrina do piso inferior destacam-se alguns catálogos de Vieira da Silva, bem como catálogos de exposições individuais do grupo «KWY», que decorreram na década de 1960, e de mostras de Manuel Cargaleiro e Fernando Lemos, num conjunto substancial de publicações pertencentes à Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.

Entre fevereiro e julho deste ano, a Coleção do Fundador irá receber, uma vez por semana, uma obra da Coleção Moderna (recentes aquisições e doações). Estas peças irão permanecer nos espaços da Coleção do Fundador enquanto o edifício da Coleção Moderna estiver encerrado.