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26 out – 28 jan 2019 Exposição

Arte e Arquitetura entre Lisboa e Bagdade

A Fundação Calouste Gulbenkian no Iraque, 1957-1973

Apresentando um vasto espólio, inédito e surpreendente, esta exposição revela a história quase desconhecida da intervenção da Fundação Calouste Gulbenkian no Iraque. Fotografias, vídeos e documentos originais dos Arquivos Gulbenkian e obras do raro núcleo de arte iraquiana do Museu Gulbenkian são expostos pela primeira vez.   

Entre 1957 e 1973, a Fundação Calouste Gulbenkian participou ativamente no estabelecimento da infraestrutura cultural, educativa, científica e assistencial do Iraque contemporâneo, promovendo e apoiando a construção e equipamento de edifícios, a formação superior e a produção artística iraquiana.

A exposição apresenta documentos inéditos relativos a três realizações-chave em Bagdade – o Modern Arts Centre, o Estádio do Povo e a Semana Cultural Gulbenkian de 1966 – e obras do raro núcleo iraquiano da Coleção Moderna, pela primeira vez mostrado em conjunto. Esta é uma conversa entre desenvolvimento cultural e diplomacia económica, entre a arte e arquitetura iraquianas e portuguesas.

Projeto promovido pelo Museu Calouste Gulbenkian e pela Biblioteca de Arte e Arquivos Gulbenkian, com o apoio do Serviço de Bolsas.


NÚCLEOS

O complexo desportivo inaugurado em Bagdade em 1966 e conhecido como Estádio Al-Sha’ab («do Povo») foi a pièce de résistance na estratégia montada pela Fundação Calouste Gulbenkian para alimentar o desenvolvimento cultural, educativo, assistencial e científico do Iraque. Este projeto beneficiou de experiências anteriores – o apoio crescente a iniciativas locais desde 1957 e, em especial, a concretização do Modern Arts Centre em 1962. Com um programa de escala e complexidade significativas, esta foi também a obra mais importante realizada pela Fundação, fora de Portugal, na década de 1960 – comparável, apenas, à construção da Sede e Museu em Lisboa.

Pela sua visibilidade e novidade, o complexo foi o elemento-chave da componente de relações públicas que acompanhou a «operação Gulbenkian» no país. A estrutura, intervenção direta da Fundação, que sobreviveu a mudanças de regime e governo, foi consistentemente apresentada como instrumental na construção de uma nova identidade nacional: a atividade física e o desporto desempenhariam um papel fundamental no quotidiano do novo cidadão iraquiano (republicano).

 

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Vista da bancada descoberta do Estádio do Povo, Bagdade, c. 1965. Arquivos Gulbenkian.
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Estádio do Povo, Bagdade. Estrutura das bancadas, pórtico P1 (projeto de execução), 1962. Tinta da China sobre papel vegetal. Arquivos Gulbenkian.
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Vista da face posterior e acessos da bancada coberta do Estádio do Povo, Bagdade, c. 1966. Arquivos Gulbenkian

Entre 6 e 13 de novembro de 1966 decorreu em Bagdade a Semana Cultural Gulbenkian, organizada pela Fundação para assinalar a inauguração do complexo desportivo do Estádio do Povo na capital iraquiana. A Semana Cultural incluiu concertos da Orquestra de Câmara e Coro Gulbenkian e outras ações, como a apresentação no Modern Arts Centre, criado pela Fundação em 1962, de uma grande exposição de obras de arte portuguesas e internacionais. Estas peças dariam origem à Coleção Moderna e foram então reunidas pela primeira vez. A Semana Cultural foi, também, oportunidade para a Fundação adquirir um conjunto raro de obras de arte iraquiana, e para o aprofundamento de uma política de apoio à formação e produção de artistas locais. Ao estabelecimento da infraestrutura material juntava-se o fomento da criação artística.

 

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Marcelino Vespeira (1925-2002). Cartaz original para a Semana Cultural promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian em Bagdade, 1966. Coleção Pedro Vespeira

Exhibition of Works of Contemporary Art belonging to the Calouste Gulbenkian Foundation foi a exposição que a Fundação organizou para apresentar no Modern Arts Centre (MAC) durante a Semana Cultural Gulbenkian, em 1966. Reuniu 70 obras: 51 pinturas, 6 desenhos e 13 gravuras de 48 artistas portugueses e de 22 artistas estrangeiros. As obras expostas em Bagdade tinham sido recentemente adquiridas pela Fundação. A exposição apresentada no primeiro piso do MAC esteve patente durante duas semanas e contou com o alto patrocínio do Ministério da Cultura e da Orientação do Iraque.

Uma seleção destas obras é apresentada na presente exposição, assim como na galeria dedicada à pintura da década de 1960, no edifício da Coleção Moderna.

 

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Waldemar da Costa (1904-1982). «Composição em Azul», [1960]. Tinta acrílica sobre tela. Coleção Moderna, inv. PE36
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Mary Martin (1907-1969). «Nove Grupos», 1964. Aço inoxidável, madeira pintada e fórmica . Coleção Moderna, inv. RE9
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Ângelo de Sousa (1938-2011). «Ponte», 1964. Óleo e gesso sobre platex. Coleção Moderna, inv. 65P265

A ideia de apoiar a realização de um centro de arte moderna – equipamento inexistente em Bagdade –, como incentivo à produção artística contemporânea, ajustava-se à intenção da Fundação de financiar projetos de cariz educativo, cultural, assistencial e científico no Iraque. O Modern Arts Centre de Bagdade, inaugurado em 1962, foi o cartão-de-visita da «operação Gulbenkian» no Iraque: um projeto pragmático e realista. Foi também a resposta a uma necessidade objetiva de cariz cultural evidente, de realização tecnicamente simplificada. Uma intervenção direta – e não um subsídio, como seria regra a partir de então – demostraria a capacidade de concretização e a seriedade de propósitos da instituição. Serviria ainda como balão-de-ensaio para a última obra diretamente promovida pela Fundação, o complexo desportivo conhecido como Estádio do Povo.

Entre o ajuste do programa funcional, o projeto de execução e a obra, este foi um processo partilhado entre técnicos portugueses e iraquianos, que o objeto arquitetónico resultante, assumidamente despretensioso, evoca.

 

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Interior da sala de exposições temporárias do Modern Arts Centre, Bagdade, novembro de 1966. Arquivos Gulbenkian
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Planta de lajes e vigas da cobertura do projeto de execução (estabilidade) do Modern Arts Centre, Bagdade, 1960. Arquivos Gulbenkian
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Maqueta do centro de arte moderna, chamado Modern Arts Centre, 1960. Arquivos Gulbenkian

Em dezembro de 1962, por ocasião da visita a Bagdade do presidente da Fundação, Dr. José de Azeredo Perdigão, e do diretor do Serviço do Médio Oriente, Robert Gulbenkian, foi adquirido o primeiro conjunto de 12 pinturas de artistas iraquianos que integraram o património da Fundação. Grande parte destas obras é aqui apresentada: pinturas de Faik Hassan, Lorna Selim, Hafidh Al-Droubi, Ismael Al-Shaikhli, Saadi al-Kaabi, Khalid Al-Jadir ou Nezar Selim. Alguns destes artistas estudaram em centros de arte em Londres, Paris e Roma, desenvolvendo um trabalho claramente em diálogo e interpretando o Modernismo europeu, fundindo a tradição árabe com estilos de vanguarda.

 

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Hafidh Al-Droubi (1914-1991). «Família 2», 1962. Óleo sobre tela. Coleção Moderna, inv. 16PE331
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Faik Hassan (1914-1992). «Abstrato», c. 1962. Guache sobre papel. Coleção Moderna, inv. 16DE175
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Lorna Selim (1928). «Viúva Oriental», 1961. Óleo sobre tela. Coleção Moderna, inv. PE305

A Fundação Calouste Gulbenkian intensificou o seu papel na dinamização da cena artística em Bagdade com a criação do Gulbenkian Art Prize (Prémio de Arte), atribuído por um comité secretariado pelo conhecido crítico e historiador de arte iraquiana Jabra I. Jabra. Anualmente seria distinguido, durante um período de cinco anos, um pintor e um escultor iraquianos que receberiam uma medalha de ouro, com 3,5 cm de diâmetro e 35 gramas de peso, aproximadamente. A conceção da medalha foi encomendada pela Fundação diretamente ao escultor Joaquim Correia, que, num modelo em gesso, reproduziu na face o selo da instituição. A medalha era entregue num estojo em pele, juntamente com 200 dinares iraquianos e um certificado.

A primeira edição, em 1964, premiou o pintor Faik Hassan e o escultor Mohammed Ali, e, na segunda edição, em 1966, foram escolhidos dois pintores para o receber: Lorna Selim e Kadhim Haider. Não foi opção do comité a nomeação de um escultor por este considerar que a pintura se desenvolvia a uma maior velocidade do que a escultura, o que causou celeuma entre os artistas e complicações no futuro do prémio, que acabou por não ter mais edições.

 

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Medalha do Prémio de Arte Gulbenkian, 1966. Ouro. Coleção Mrs Lorna Selim

Na sequência da Semana Cultural Gulbenkian, em 1966, três jovens artistas iraquianos, Rafa Nasiri, Salim al-Dabbagh e Hashim Samarchi, solicitaram apoio para estudarem na Europa e chegaram a Lisboa como bolseiros da Fundação para frequentarem um curso na GRAVURA – Cooperativa de Gravadores Portugueses, entre setembro de 1967 e novembro de 1968. Pela primeira vez, a Cooperativa recebia artistas estrangeiros com a finalidade de desenvolverem trabalho nas suas oficinas. Subsidiado pela Fundação, o curso foi orientado por Alice Jorge e João Navarro Hogan. No relatório final de avaliação, Alice Jorge destacou o excelente profissionalismo dos artistas, que durante o período que permaneceram em Lisboa tiveram conhecimento de todos os processos de gravar, evoluindo esteticamente. Estabeleceram boas relações com os artistas portugueses e concretizaram três exposições coletivas em Portugal. O regresso de Rafa, Salim e Hashim a Bagdade, após a estadia em Lisboa, marcou o início do desenvolvimento da gravura no Iraque.

 

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Hashim Samarchi (1937). Sem Título, 1968. Água-tinta sobre papel. Edição: 5/10. Coleção Moderna, inv. GE685
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Salim Dabbagh (1941). Sem Título, 1968. Água-tinta sobre papel. Edição: XVI/XX. Coleção Moderna, inv. GE746
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Rafa Nasiri (1940-2013). Sem Título, 1968. Ténica mista sobre papel Fabriano. Edição: XIII/XV. Coleção Moderna, inv. GE788

PROGRAMAÇÃO COMPLEMENTAR

À conversa com os curadores Patrícia Rosas e Ricardo Agarez
Sexta, 26 outubro, 15:00 
Sábado, 10 novembro e 19 janeiro, 16:00
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Sobre os aspetos do Iraque contemporâneo
Com Paulo Moura
Terça, 11 dezembro, 18:00 – Biblioteca de Arte
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Visitas orientadas
Sábado, 27 outubro, 16:00
Sábado, 1 dezembro e 26 janeiro, 15:00
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An Alternative Future
Quinta e sexta, 25 e 26 outubro, 17:00 – Auditório 3 
Em inglês
Iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian enquanto membro da Future Architecture Platform, projeto cofinanciado pela União Europeia no Programa Europa Criativa.
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Repensar o Passado
Conferência internacional Memória / Arquivo / Documento – Artes e Arquitetura
Com Andreas Huyssen, Ernst Van Alphen e Catherine David
Quinta e sexta, 8 e 9 novembro, 09:30 – 19:00 – Auditório 3 e Sala 2
Em português e inglês
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The 1960s in Iraq: Art and Culture
Com Nada Shabout
Quarta, 9 janeiro, 18:00 – Auditório 3
Em inglês 

Conferência sobre arquitetura iraquiana
Com Ihsan Fethi
Quarta, 16 janeiro, 18:00 – Auditório 3
Em inglês

Visitas para escolas e grupos organizados
Mediante marcação prévia
217 823 800 (dias úteis das 10:00 às 13:00)
descobrirmarcacoes@gulbenkian.pt

Mais informações
museu@gulbenkian.pt

 

 

 


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