O Colecionador

Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955)

A paixão de Calouste Gulbenkian pela arte revela-se cedo. Como poderia ser de outro modo nesta família oriunda da Capadócia cuja cidade de origem, Cesareia, evoca naturalmente o nascimento das grandes religiões e consequentemente a paixão pelas artes? Quanto a Constantinopla, que faz também parte do cerne da educação de Calouste Gulbenkian, esta cidade era por excelência uma encruzilhada de civilizações (capital dos Romanos, depois dos Gregos e mais tarde dos Turcos Otomanos). Daí resultou uma paixão intrínseca pelas artes que se traduziu pela aquisição de uma coleção de obras de arte prodigiosa. É acima de tudo a beleza dos objetos que lhe interessa. Junta, ao longo da vida, ao sabor das viagens e conduzido pelo seu gosto pessoal, por vezes após longas e laboriosas negociações com os melhores peritos e comerciantes especializados, uma coleção muito eclética, única no mundo. São hoje mais de 6000 peças, desde a Antiguidade até ao princípio do século XX. O seu apego às obras que vai adquirindo é tal que as considera suas “filhas”.

A coleção de pintura de Calouste Gulbenkian inclui obras de Bouts, Van der Weyden, Lochner, Cima da Conegliano, Carpaccio, Rubens, Van Dyck, Frans Hals, Rembrandt, Guardi, Gainsborough, Rommney, Lawrence, Fragonard, Corot, Renoir, Nattier, Boucher, Manet, Degas e Monet. De entre os trabalhos de escultura, figura o original em mármore da célebre Diana, de Houdon, que pertenceu a Catarina da Rússia, e que Gulbenkian adquiriu ao Museu Hermitage em 1930.

Ao longo dos anos, a coleção foi aumentando. Como medida de segurança, a coleção de Paris foi dividida e parte enviada para Londres. Em 1936, a coleção de arte egípcia foi confiada ao British Museum e os melhores quadros à National Gallery. Mais tarde, em 1948 e em 1950, essas mesmas peças serão transferidas para a National Gallery of Art de Washington.

As delicadas deslocações das obras foram realizadas à custa de diligências fastidiosas e arriscadas. Era grande a preocupação de Gulbenkian no que respeitava à preservação do seu património e a forma de evitar o pagamento de impostos sobre o seu legado à medida que a sua coleção se ampliava. Em 1937, Calouste encetou discussões nesse sentido com Kenneth Clark, diretor da National Gallery em Londres, para que a sua coleção ficasse num “Instituto Gulbenkian” naquela galeria. Esta iniciativa não tendo sido bem sucedida, Calouste considerou mais tarde a National Gallery em Washington, para onde tinha sido já transferida parte da sua coleção. Lord Radcliffe, o seu advogado britânico, torna-se o seu principal conselheiro e confidente no que respeita aos assuntos do seu património a partir de 1943. Não tendo sido tomada qualquer decisão até à morte de Calouste, acaba Radcliffe por assumir a solução desta questão. Sabe-se, no entanto, que Gulbenkian tinha muito empenho que a sua coleção ficasse sob um mesmo teto para que as pessoas pudessem testemunhar o grande empreendimento criado por um só homem durante a vida.

Depois da sua morte, e após árduas negociações com o Governo Francês e às condições em que o empréstimo à National Gallery of Art de Washington havia sido realizado, foi possível tornar este desejo realidade. A coleção completa veio para Portugal em 1960, tendo estado exposta no Palácio dos Marqueses de Pombal (Oeiras) entre 1965 e 1969.

Só 14 anos após a morte do ilustre Colecionador o seu último desejo foi concretizado: o Museu Calouste Gulbenkian abriu as portas em Lisboa.