14 Dezembro 2020

Miragens no espaço

As Escolhas das Curadoras: Leonor Nazaré destaca a obra de Waltercio Caldas, «Eureca».

Waltércio Caldas, «Eureca», 2001. Plástico, aço inoxidável e espelho. Coleção Moderna

«Os objectos de Waltercio Caldas são objectos de “reflexão”. Tendem a abrir um abismo entre aquilo que você vê e/ou toca e aquilo que você pensa, o que pode ser vertiginoso», escreve Nina do Vale em 2001.

Na exposição Do Outro Lado do Espelho, que realizei com Rosa Figueiredo em 2015, esta obra integrava o quarto núcleo: Espelhos que revelam e espelhos que mentem. Nela, o artista esculpe em metal pintado o grito de todos os cientistas, «EUREKA!», e instala-o invertido diante do espelho, no qual também vemos o nosso rosto, identificando a linguagem com o ser ou colocando-a no lugar do ser: metáfora de uma inclinação psíquica, em que o observador mergulha no efeito visual e mental do que encontra escrito na sua superfície.

A estrutura que dispõe os espelhos, na sua obra, é sempre ostentação de uma fisicalidade quase imaterial, na qual o espaço do pensamento e as linhas de força dos objetos se fundem em sugestão cinética e abertura. «Da física retiro apenas sugestões poéticas do que possa ser o desconhecido. Leio alguns textos de física como se fossem poesia, como se estivesse experimentando os limites da linguagem escrita», diz-nos.

A 11 de julho de 2008, Jorge Molder, então diretor do CAM e curador da exposição de Waltercio Caldas. Horizontes, pediu-me um jornal da exposição, tipografado, que estivesse pronto no dia da inauguração, a 18 de julho, uma semana depois. Trabalhei para a concretização daquilo que achei impossível, tornando-o real.

 

Jornal que acompanhou a exposição «Waltercio Caldas. Horizontes», CAM, 2008.
Jornal que acompanhou a exposição «Waltercio Caldas. Horizontes», CAM, 2008.

 

Waltercio Caldas (Rio de Janeiro, 1946) mostrou no CAM várias esculturas concebidas para a exposição, que ocupou o espaço da maior nave do museu. «Esses objetos são como miragens no espaço. Estão suspensos (…). Pertencem ao mundo das coisas com a imaterialidade das miragens», escrevia Paulo Venancio Filho já em 1984, referindo-se a esculturas do artista. Na opinião de José Thomaz Brum «o que caracteriza ostensivamente o trabalho de Waltercio Caldas é o estilo preciso com que materializa essa suspensão de formas e coloca o espaço entre parênteses». Nas palavras do artista, em 1994, «se já não existisse o simples objecto, a invenção do espelho poderia exaurir toda uma humanidade».

 

Catálogo da exposição «Waltercio Caldas. Horizontes», CAM, 2008.

No jornal que concretizei no espaço de uma semana, quase tendo que «subornar» uma tipografia, facultei muitas citações do artista a par de excertos de textos críticos. Em relação à expressão da imaterialidade na sua obra vale a pena lembrar esta: «Quando escrevo “escultura” o que quero realmente dizer é “ar”. Quando escrevo o “ar” o que quero dizer é “corpo”. Quando escrevo a “pele” o que quero dizer é “presença”».

 

Leonor Nazaré
Curadora do Museu 


As Escolhas das Curadoras

Ao longo dos próximos meses, as curadoras da Coleção Moderna refletem sobre uma seleção de obras, que inclui trabalhos de artistas nacionais e internacionais.

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