19 Agosto 2020

Manuel Botelho (1950)

As Escolhas das Curadoras: Ana Vasconcelos destaca as obras «Pietà» e «Visitação» de Manuel Botelho.

Manuel Botelho, «Visitação» (pormenor), 1999-2000. Óleo sobre tela. Coleção Moderna

Estas duas pinturas integraram a Coleção Moderna em 2001, pouco tempo depois de serem expostas no Museu Nacional de Arte Antiga. Pertencem a um conjunto mais vasto de pinturas e de desenhos, realizado entre 1997 e 2000, em que Manuel Botelho se autorrepresenta em imagens que remetem para temas religiosos – a Paixão de Cristo e a iconografia mariana, isto é, relacionada com a representação da Virgem Maria –, associados a elementos contemporâneos.

Todas as figuras nestas pinturas são autorretratos do pintor. A mais estranha é, sem dúvida, a Virgem na Pietà ser um homem, e esse homem ter a mesma fisionomia do outro homem deitado sobre os seus joelhos.

Manuel Botelho, «Pietà» (pormenor), 1999. Óleo sobre tela. Coleção Moderna

Piedade ou compaixão é o sentido da representação canónica da Pietà, que representa a Virgem chorando, ou lamentando, o seu filho morto, e que nesta pintura se encontra desviada da sua representação tradicional.

A mais famosa Pietà é uma escultura de Michelangelo, realizada em 1498/1499, na qual Jesus, descido da cruz, está ao colo de sua Mãe, numa posição idêntica à desta pintura. Na escultura, Mãe e Filho são ambos jovens, ambos traídos na sua juventude pela dor que os atingiu e que os une num abraço eterno.

Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, «Pietà» (pormenor), 1498-1499. Basílica de São Pedro – Vaticano. Fotografia de Stanislav Traykov

Na pintura de Manuel Botelho as duas figuras desoladas, de idade indefinida, têm como fundo um edifício modernista de Le Corbusier, o convento dominicano de La Tourette (perto de Lyon, construído entre 1953 e 1961). Segundo o pintor, com formação e prática profissional como arquiteto, «Na altura em que fiz estas pinturas e o universo religioso atravessou a minha mente de uma forma renovada, assumindo os aspetos mais positivos das nossas raízes culturais (nos anos 80 as obras mencionavam a religião sobretudo associada a opressão e ao Estado totalitário), achei que os edifícios do Le Corbusier me ajudavam.

Ao contrário das arquiteturas fraturadas e opressivas que evocara no passado […], estes edifícios luminosos respiravam saúde e otimismo. Remetiam as pinturas de imediato para o presente… e/ou para o tempo mítico das utopias do modernismo na arquitetura… criando associações visuais inesperadas para a narrativa.»

Manuel Botelho, «Visitação» (pormenor), 1999-2000. Óleo sobre tela. Coleção Moderna

Talvez relacionável com esta nota de otimismo que introduziu mesmo na representação trágica por excelência de uma auto-Pietà, o que mais me atrai nestas duas pinturas é a relação entre a ironia, num formato quase caricatural, e a situação a-histórica que representam. Presente na Pietà, ela é, sobretudo, visível na Visitação, onde as duas figuras se cumprimentam, não se tratando, segundo Manuel Botelho de «um cumprimento formal, mas [de] uma aproximação afetiva (o toque das mãos evoca subtilmente a cena da Criação no teto da Capela Sistina)».

Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, «A Criação de Adão» (pormenor), c. 1512. Capela Sistina – Vaticano.

Vindas de ou pertencendo a épocas diferentes, como indicado pela indumentária, as duas figuras parecem concentrar-se na tentativa de se (re)conhecerem. Há no seu gesto e na posição dos corpos um pacto de não-agressão e um esforço de coexistência, imediatamente comunicados ao observador.

Recomendo a consulta do catálogo Manuel Botelho. Pintura e Desenho 1997/2000 (Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga, 2000).

 

Ana Vasconcelos
Curadora do Museu 


As Escolhas das Curadoras

Ao longo dos próximos meses, as curadoras da Coleção Moderna refletem sobre uma seleção de obras, que inclui trabalhos de artistas nacionais e internacionais.

Mais escolhas