25 Setembro 2020

Luz mediterrânica

As Escolhas das Curadoras: Leonor Nazaré destaca uma fotografia de Sophia de Mello Breyner de Fernando Lemos.

Fernando Lemos, «Sophia de Mello Breyner» (pormenor), 1949-1952. Fotografia a p/b impressa em papel Agfa. Coleção Moderna

Em 1952, a Casa Jalco, na Rua Ivens em Lisboa, expôs Vespeira, Fernando Lemos e Fernando de Azevedo, numa mostra surrealista que se tornou histórica. Fernando Lemos expôs 20 óleos, 22 guaches, 29 desenhos e 75 fotografias, entre as quais trinta retratos de personagens da vida intelectual e artística portuguesa dos anos 1940, que integram o acervo de 184 fotografias de Lemos da Coleção Moderna do Museu Gulbenkian. […]

A perspetiva em contrapicado a partir da qual Sofia de Mello Breyner é fixada nesta fotografia é provavelmente a única adequada a uma referência metafórica à sua grandiosidade de poetisa. A firmeza da mão direita agarrada ao poste indicia a do seu caráter, a correção do tronco e da postura uma certa forma de orgulhosa integridade. O olhar, vagamente absorto, parece simultaneamente concentrado num ponto, que não é exatamente o da câmara fotográfica, mas que também não o ignora.

Sob a latada pouco frondosa, não poderá dizer-se que a poetisa se abriga da luz, uma vez que esta invade o espaço quase por inteiro, num cenário que é sobretudo céu aberto e infinito. A estrutura de madeira surge como um ponto de apoio nesse infinito, que interrompe para sinalizar uma presença, como um desenho na atmosfera ou como hipótese de uma sombra ténue moderadamente definida nas metades do rosto e dos braços. Por trás do seu cotovelo direito, a sombra dos postes adquire tanta realidade quanto eles, ou, se quisermos ver o reverso desta contaminação, toda a madeira poderia ser sombra em vez de matéria.

Esse efeito de consonância na (des)materialização é auxiliado pela construção de uma imagem que se alicerça na inscrição do negro da figura sobre um fundo de luz, como se de um recorte ou baixo relevo se tratasse – uma estátua ou uma deusa é elevada sobre um pedestal invisível, e dessa forma transformada em representação ou ícone artístico.

Fernando Lemos, «Sophia de Mello Breyner», 1949-1952. Fotografia a p/b impressa em papel Agfa. Coleção Moderna

Uma outra forma de correspondência formal se estabelece entre as folhas da vinha e as aplicações com motivos vegetais que decoram o vestido. A quantidade sumária de elementos de que é feita a imagem globalmente considerada, fá-las sobressair com muita relevância. O mundo de Sofia é mediterrânico na luz, na vinha e no seu semblante resoluto e sonhador.

Texto revisto e adaptado pela autora, publicado originalmente na Newsletter da FCG, n.º 104, de junho de 2009.

Após a publicação deste texto na newsletter da FCG, recebi de Fernando Lemos uma carta em que manifestava muita gratidão pelo meu texto: foi entusiasta, afetivo e empático. Tendo provavelmente esquecido que já ma enviara, fez uma segunda carta com o mesmo teor e propósito, parecida mas diferente… Não podendo deixar de ser hilariante, esta repetição deu-me a medida da sua alegria generosa e do turbilhão que a sua vida deveria ser!

 

Leonor Nazaré
Curadora do Museu 


As Escolhas das Curadoras

Ao longo dos próximos meses, as curadoras da Coleção Moderna refletem sobre uma seleção de obras, que inclui trabalhos de artistas nacionais e internacionais.

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