26 Agosto 2020

A Escolha do Crítico

As Escolhas das Curadoras: Leonor Nazaré destaca a obra «Arrepio ou a Escolha do Crítico» de Joaquim Bravo.

Joaquim Bravo, «Arrepio ou a Escolha do Crítico», 1989. Tinta acrílica sobre tela. Coleção Moderna

Bravo diz desta pintura, numa entrevista dada a Jorge Fallorca, que é um quadro horrível, insuportável, que não tem qualidade nenhuma. A ironia do trabalho e da atitude proporcionou uma reflexão acerca dos dispositivos críticos existentes em tudo o que foi escrito sobre a sua obra e acerca de como construíram uma imagem dela. O texto que assino no catálogo da exposição retrospetiva do artista (2000), no contexto da minha curadoria partilhada com Helena de Freitas, intitula-se «A escolha do crítico não tem qualidade» e desenvolve essa reflexão.

Em 1988, José Luís Porfírio escrevera no Expresso, numa nota crítica acerca dos 35 desenhos de Joaquim Bravo mostrados no CAM, que aguardava oportunidade de ampliar o seu conhecimento sobre a obra com uma exposição antológica que se tornava indispensável fazer.

Vista da exposição «Joaquim Bravo», 2000, Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão
Vista da exposição «Joaquim Bravo», 2000, Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão

Tratando-se da minha primeira grande curadoria no CAM e, em todo o caso, da primeira retrospetiva de um artista que realizei, ela constitui um momento charneira entre a atividade anterior de crítica de arte no jornal Expresso e a de curadoria, que passaria então a sobrepor-se à primeira. Manteve-se sempre a consciência de que um olhar tornado escrita é uma autoria acrescentada à da obra (reflexão que desenvolvi em detalhe num artigo publicado na revista Marte, n.º 2, de 2006: «O olhar tornado escrita. A crítica de arte de Outubro de 2003 a Junho de 2004 em dois jornais portugueses»).

A 19 de outubro de 1991, escrevi numa pequena nota crítica, publicada também no Expresso, sobre uma exposição de desenhos de Bravo na Diferença: «a abstracção associa-se, no trabalho de Joaquim Bravo, a uma cuidadosa estima pela selecção e redução do gesto ao mínimo essencial da expressividade». Essa qualidade elementar do trabalho, tão forte nesta pintura, é explicada pelo artista a António Rodrigues, numa entrevista: «O geometrismo é ordenado mas o gesto desacata a sua aparente passividade. (…) Nada é passivo nestes quadros». E mais adiante esclarece: «eu chamo-lhe displicência estética. Os meus quadros saem da minha displicência, porque não quero ter lugar nenhum coordenado. Os meus quadros saem da facilidade. Aquilo que mais me desagrada é uma pintura onde se nota o esforço de agradar (…). Eu jurei que havia de fazer quadros sem pintar».

«Poder-se-ia dizer desta pintura que nada tem para “dizer”», lemos num texto de Cabrita Reis. Para Bravo, os quadros são resultado da fuga a qualquer representação do real. Esse virá depois, se vier, com os títulos, afirmava.

 

Leonor Nazaré
Curadora do Museu 


As Escolhas das Curadoras

Ao longo dos próximos meses, as curadoras da Coleção Moderna refletem sobre uma seleção de obras, que inclui trabalhos de artistas nacionais e internacionais.

Mais escolhas