João Pedro Vale

Nascido em Lisboa, é também nesta cidade que se formou em Escultura, pela Faculdade de Belas-Artes (1999), prosseguindo depois por um Curso Avançado em Artes Plásticas na Escola Maumaus (2002). Em 2004 venceu o prémio de escultura City Desk (Portugal) e, em 2008/2009, recebeu uma bolsa Artist-in-Residence, pelo International Studio and Curatorial Program, em Nova Iorque. 

Por entre a diversidade de propostas estéticas e temáticas desta geração cujos contornos se começaram a definir nos finais do século XX, João Pedro Vale destaca-se na produção de escultura e instalação, abordando, muito genericamente, temáticas como o desejo, a identidade, o corpo e as relações interpessoais.

 

Um das suas primeiras obras, S/título, 1999, mostrava ao público um vídeo do torso do artista, no qual ele havia desenhado 4 pontos e escrito as seguintes ordens: “1-Coloque a folha; 2 – Una os pontos; 3 - Pinte; 4 – Venda”. O visitante devia então servir-se das folhas de papel brancas que lhe eram disponibilizadas, dispostas ao lado da projeção e cumprir o exercício proposto. Embora este trabalho seja uma obra inicial e em muito distante da maioria da produção do artista, o exercício de reflexão sobre o valor artístico, bem como o apelo à intervenção do público, refletem a importância da herança artística das décadas anteriores para o jovem criador. Por outro lado, João Pedro Vale voltará a utilizar como suporte o seu próprio torso nu em 2009, na fotografia Amália.

 

Contudo, e também datadas de 1999, as obras que vão definitivamente afirmar a originalidade da sua produção são Can I wash you? e Please Don’t go!. A primeira, escultura de 120 cm de diâmetro e 10 cm de altura, colocada no chão, é composta por 90 barras de sabão azul e branco, nas quais se inscreve a frase que dá nome à obra. Do mesmo modo, Please Don’t Go! é a frase retirada do refrão de uma música pop, que se inscreve num tapete de pastilhas elásticas calcadas, com aroma a morango. Em ambos os casos destacam-se características que vão marcar a obra do artista nos anos seguintes: a descontextualização de materiais e objetos do quotidiano, alterando-lhes a função e sugerindo, por isso, a atribuição de um simbolismo pervertido que conduzirá a visão do espectador pelo imaginário de João Pedro Vale; a fácil identificação dos materiais, sobretudo a partir dos aromas, fortes, que definem uma experiência sensitiva da obra (exemplos posteriores são as Spice Sculptures, 2009); a aproximação do visitante pelas interjeições que lhe são colocadas pelas obras, colocando sempre em relevo a relação humana, o contacto, a dependência, o desejo, em tonalidades que vão do humorístico ao ameaçador (Help!, 2000 ou Are you safe when you are dreaming?, 2000, obra em que o artista volta a utilizar o sabão como material, desta vez sob forma de bóia).

 

Entre instalações, performances, escultura e, mais recentemente, trabalhos gráficos e intervenções no espaço público, João Pedro Vale tem vindo a estabelecer um diálogo com os objetos da cultura de massas, de funções e modo de utilização sobre as quais não nos tínhamos questionado antes das suas abordagens. O discurso dirigido ao visitante e a crítica subtilmente direta, nos últimos anos, direcionada também a questões de nacionalismo e da História de Portugal (Nascido a 5 de Outubro, 2007), exigem de nós, permanentemente, uma reação. Em muitos casos, essa reação passa simplesmente pela estranheza que se sente ao tentar descodificar as propostas de João Pedro Vale, sempre enraizadas na procura da intimidade, na revisão da identidade e na experiência que fazemos do “outro”.

 

 

MM

Janeiro de 2012