Poder e Aparato. Festas e outras cerimónias em livros franceses do século XVIII

A monarquia absolutista em França, instaurada por Luís XIV, foi marcada pelo luxo e pelo poder. Os livros de festas descreviam e ilustravam as pomposas cerimónias da época, mas nas suas páginas escondiam-se também várias formas de propaganda real. Descubra mais sobre estes fascinantes objetos no texto da conservadora Ana Maria Campino.
«Fête publique donnée par la Ville de Paris à l'occasion du Mariage de Monseigneur le Dauphin, le 13 Fevrier 1747» (pormenor). Composições segundo desenhos atribuídos maioritariamente a Jean-François Blondel, gravadas a água-forte e coloridas à mão por Pierre-François Tardieu, Noël, le Mire e Jean-Jacques Flipart. Paris: Chez François Blondel et la veuve Chéreau, 1751. Museu Calouste Gulbenkian

Apaixonado pela arte francesa do século XVIII, Calouste Gulbenkian interessou-se pelos livros editados em França durante esse período, entre os quais podemos destacar um conjunto notável de livros de festas, ou livres de fête. Na seleção que está em exposição, todos os exemplares revelam, seja nas ilustrações gravadas ou nas encadernações, a qualidade artística que Gulbenkian procurou nas suas aquisições.

Destinados a registar, por escrito e em imagens, as cerimónias organizadas por reis, cortes, cidades ou comunidades, os chamados livros de festas conhecem um grande desenvolvimento durante o Antigo Regime, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, até à Revolução Francesa em 1789. Ao descreverem e ilustrarem, em grandes formatos, o fausto das celebrações associadas a nascimentos, coroações, casamentos, viagens ou pompas fúnebres da família real ou de membros da alta nobreza, estes livros assumem-se como veículos de propaganda e de encenação do poder real, contribuindo para a consolidação do Absolutismo em França, de Luís XIV a Luís XVI.

 

«Le Sacre de Louis XV, Roy de France et de Navarre dans l'Église de Reims, Le Dimanche XXV Octobre MDCCXXII» (pormenor). Composições de Pierre Dulin; margens decorativas de Pierre-Josse Perrot, interpretadas por diversos gravadores. Paris, 1731. Museu Calouste Gulbenkian

 

«Œuvres de Cochin. Recueil factice des œuvres de Cochin» (pormenor). Coletânea de estampas gravadas por Charles-Nicolas Cochin, le Jeune, que concebeu igualmente algumas composições. Paris, século XVIII. Museu Calouste Gulbenkian

 

Os exemplares apresentados documentam vários momentos dessa afirmação do poder, em França, na primeira metade do século XVIII. Dois mostram o aparato ligado à coroação e a uma estadia de Luís XV em Estrasburgo. Uma exuberante encadernação assinala o casamento, em 1745, do Delfim Luís Fernando, primeiro filho varão de Luís XV, com Maria Teresa de Bourbon, Infanta de Espanha. O fausto das pompas fúnebres desta princesa, em 1746, transparece na gravura integrada num álbum de Cochin, le Jeune. O livro do segundo casamento do mesmo Delfim, com Maria-Josefa da Saxónia, em 1747, ilustra os luxuosos carros que compunham o cortejo desta celebração.

 

«Représentation des fêtes données par la Ville de Strasbourg pour la convalescence du Roi, à l'arrivée et pendant le séjour de Sa Majesté en cette Ville. Inventé, dessiné et dirigé par J. M. Weiss, Graveur de la Ville de Strasbourg». Composições maioritariamente de Johann Martin Weiss, gravadas a água-forte sobretudo por Jacques-Philippe, le Bas, entre outros artistas. Paris: Imprimé par Laurent Aubert, 1745. Museu Calouste Gulbenkian

 

A rica decoração da encadernação, atribuída a Padeloup, le Jeune, o reputado encadernador de Luís XV, inclui brasões desse monarca e da sua filha Madame Victoire. Estes aspetos reforçam o papel destes livros como símbolos do poder e do aparato da monarquia francesa absolutista.

 

Ana Maria Campino
Conservadora do Museu Calouste Gulbenkian

Atualização em 15 julho 2022

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