Os têxteis setecentistas da coleção Gulbenkian

O século XVIII foi palco de desenvolvimentos extraordinários na arte têxtil. Como a conservadora Clara Serra explica neste texto, estes deveram-se à evolução técnica, à importância crescente dada aos espaços interiores e à influência do Oriente na arte europeia.
Segundo cartões de François Boucher, Tapeçaria «La Pipée aux Oiseaux» (pormenor) da armação «Noble Pastorale». Beauvais, 1755. Lã e seda. Museu Calouste Gulbenkian

A par do mobiliário, os têxteis têm também um papel primordial nos ambientes setecentistas.

O conjunto de tecidos apresentado na Galeria do Século XVIII é proveniente da chamada Manufatura de Lyon. No século XVIII a produção de sedas nesta cidade atinge o seu auge no seguimento de um impulso que na realidade já vinha do século anterior, por iniciativa de Colbert, ministro de Luís XIV.

Esta vitalidade que se fez sentir, aliada a uma melhor organização industrial, avanços na técnica e influência de tecelões italianos que se haviam estabelecido no país, foram alguns dos fatores que permitiram que esta produção atingisse um grau de qualidade e de originalidade sem precedentes.

Exemplo disso é o fragmento de seda atribuído a Philippe de Lassale, de gosto marcadamente Luís XV, que pertenceu aos aposentos privados de Stanislas Leckzinsky, sogro do monarca francês, no Palácio de Lunéville. Outra peça relevante é o tecido encomendado para os aposentos de Maria Antonieta em Versailles, que demonstra o que de mais requintado se produziu em Lyon nesta época.

A decoração floral, muito do agrado da rainha, é uma característica dominante, mas a partir de 1760 o gosto pelo arabesco, de influência clássica, começa também a ser muito utilizado. Jacques Gondoin, arquiteto do rei, é o autor desta composição de enrolamentos de acanto em arabesco pautada por medalhões aplicados. A sua execução deve-se a Jean Charton, mestre pertencente a uma importante família de tecelões de Lyon.

 

Segundo cartões de François Boucher, Tapeçaria «Jupiter en Raisin» (pormenor) da armação «Les Amours des dieux». Beauvais, 1755. Lã e seda. Museu Calouste Gulbenkian

 

Também neste período as tapeçarias desempenharam um papel importante na decoração dos espaços interiores. Com a tomada de consciência da ideia de conforto, estas peças são um contributo relevante para tornar os ambientes mais acolhedores.

Os temas mitológicos foram muito utilizados e serviam de mote para cenas galantes e narrativas amorosas. Estas representações, de pendor bucólico e amoroso, tinham uma forte componente decorativa produzindo um efeito cénico muito ao gosto da época.  François Boucher foi um dos pintores que mais explorou esta temática e é autor dos cartões das tapeçarias Jupiter en raisin e La Pipée aux Oiseaux expostas na galeria.

 

Segundo Jean Pillement, Tapeçaria «O Pescador Infeliz». França, Aubusson, século XVIII. Lã e seda. Museu Calouste Gulbenkian

 

O gosto pelo exótico foi também muito cultivado na época e serviu de inspiração a muitos artistas. Com o desenvolvimento do comércio com o Oriente, chegaram à Europa muitas peças oriundas da China e do Japão que levaram ao surgimento de diversos motivos decorativos de inspiração oriental, de grande leveza, movimento e assimetria que se conjugaram de forma harmoniosa com o gosto Rococó. Jean Pillement, pintor e gravador francês, desenvolveu de forma admirável esta temática, como se pode observar na série de tapeçarias de Aubusson, da armação Chinoiserie, em exibição na galeria.

 

Clara Serra
Conservadora do Museu Calouste Gulbenkian

Atualização em 05 maio 2022

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