Imagens em tempos de isolamento voluntário

François-André Vincent, «Retrato de Mademoiselle Duplant», 1793. Óleo sobre tela. Museu Calouste Gulbenkian

Gosto deste par de retratos por diversas razões e acredito que estabelecem um contraste interessante. Em certos aspetos são muito parecidos, apesar de os separarem quase dois séculos. São retratos simples, desprovidos de acessórios, à exceção de algumas peças de mobiliário. Em ambos vemos uma mulher sentada numa cadeira. A sua qualidade de perfil, de quase silhueta, suscita de imediato a comparação. As duas obras apresentam ainda uma simplicidade neoclássica semelhante ao nível do vestuário das figuras, sem adornos e representado em cores puras e lisas. Os espaços interiores onde estas figuras se encontram são também essencialmente abstratos.

São retratos de mulheres artistas em repouso. Sentadas. Desocupadas. Uma cantora no quadro de Vincent, duas escritoras e uma pianista no de Skapinakis. Há nestas imagens um profundo sentido de quietude – de tranquilidade, talvez, ou de inércia. Revela-se mais interessante refletir sobre este aspeto quando tomamos em consideração o facto de estas pinturas terem sido realizadas em períodos conturbados: pouco antes da Revolução dos Cravos em Portugal e durante o auge do Terror na França revolucionária. Poderíamos perguntar-nos: onde estão e por que esperam estas mulheres?

Nikias Skapinakis, «Encontro de Natália Correia com Fernanda Botelho e Maria João Pires», 1974. Óleo sobre tela. Coleção Moderna

Na pintura de Nikias Skapinakis, de 1974, Maria João Pires e Fernanda Botelho são representadas aos pés de Natália Correia. As mãos de pianista de Maria João Pires repousam sobre os seus joelhos, de forma proeminente. No retrato de Rosalie Duplant, a cantora fita o observador e não o piano, mas apoia uma das mãos no teclado. Podemos distinguir a partitura aberta sobre o piano e perceber que se trata do último papel da cantora, que à época em que o retrato foi pintado se encontrava já retirada da vida artística. É uma peça que nos remete para o passado. Em relação ao quadro de Skapinakis, pelo contrário, podemos defender que o futuro ainda está para vir, sobretudo para Maria João Pires.

Como é sabido, Skapinakis tinha – e continua a ter – um profundo interesse pela Revolução Francesa e pelas imagens que lhe estão associadas. Mas agrada-me sobretudo o sentido de reticência que resulta do emparelhamento destas obras, e o modo como ambas as imagens se recusam a desvendar imediatamente o seu significado. Sinto que têm em comum o tema da espera, o que as torna particularmente relevantes para os tempos que vivemos.

François-André Vincent, «Retrato de Mademoiselle Duplant», 1793. Óleo sobre tela. Museu Calouste Gulbenkian

Rosalie Duplant era o nome artístico de Françoise-Claude-Marie-Rosalie Campagne. À data em que o retrato foi pintado, a cantora tinha 48 anos e encontrava-se afastada dos palcos há cerca de dez. Duplant tinha a idade das duas escritoras retratadas no quadro de Skapinakis, enquanto a pianista tinha apenas 30 anos. Esta pintura de Vincent, adquirida por Gulbenkian em 1921, tinha muito provavelmente um par masculino – o retrato de M. Baillon, atualmente conservado no Rijksmuseum. Sabemo-lo porque existia um par de réplicas de menores dimensões dos retratos de Rosalie Duplant e M. Baillon no Musée des Beaux Arts de Montreal, mas estas obras foram roubadas há quase cinquenta anos. Há indícios de que este grupo de pinturas se encontrava anteriormente no Château de Meslay, nas proximidades de Caen.

Estas duas obras e as suas figuras de fortes contornos e poses simples e naturais, imprimem-se no nosso espírito. São fáceis de lembrar. Persistem na nossa memória mesmo quando não podemos contemplá-las, recordando-nos da necessidade de sermos pacientes.

 

Texto de Penelope Curtis
Diretora do Museu Calouste Gulbenkian

Atualização em 21 julho 2021

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