Ikizukuri + Susana Santos Silva

Suicide Underground Orchid

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Ikizukuri é uma técnica da gastronomia japonesa aplicada na preparação do sashimi, com recurso a “ingredientes” ainda vivos. Designa também o trio que junta o saxofonista alemão Julius Gabriel ao baixista Gonçalo Almeida e ao baterista Gustavo Costa, num caldo de referências que alia a improvisação mais desabrida a elementos decompostos do free jazz, do rock e do metal. Ao cruzarem-se na Sonoscopia com a trompetista Susana Santos Silva, em 2020, cavaram ainda mais funda a ideia de uma prática esticada sempre até ao limite e colocada diante do abismo. Ao encontro chamaram Suicide Underground Orchid (título do álbum) e, tal como com o ikizukuri, servem-nos géneros musicais num lugar entre a sublimação e a queda.


Programme

Julius Gabriel Saxofones soprano e tenor
Gonçalo Almeida Baixo elétrico
Gustavo Costa Bateria, Eletrónica
Susana Santos Silva Trompete

A imagética do metal está bem presente nesta banda sediada no Porto e no novo álbum que colocou em circulação: Ikizukuri é o nome que os japoneses dão aos alimentos marinhos que são para deglutir quando ainda se encontram vivos e “Suicide Underground Orchid” refere-se a uma orquídea rara que nunca chega a despontar da terra, a rhizanthella gardneri. Pois são o doom e o black metal que dão cor ao jazz livre de Julius Gabriel, Gonçalo Almeida e Gustavo Costa, com Susana Santos Silva como convidada. Através de uma sucessão de «cenas de caos e harmonia», o que está em causa é transpor para o campo musical a noção matematicamente comprovada de que até o caos tem a sua própria ordem. A dita harmonia pode é não ser a convencional. O baixo e a bateria repetem “riffs” obsessivo-compulsivamente e de forma lenta, pastosa e sinistra, enquanto o saxofone e o trompete furam a espessura das nuvens como se fossem estiletes, tentando fugir à força da gravidade.

Entre essa tentativa de subida e as forças terrestres que puxam para baixo a harmonia acontece nos momentos em que se estabelecem equilíbrios, acima do chão, mas ainda longe do céu. Gabriel e Santos Silva desconstroem as peças, ou tentam fazê-lo, e a secção rítmica mantém o todo uno e indivisível. Só não há conflito porque o acordo tácito entre todos é mesmo verificar o que é ou não é possível neste enquadramento. A caracterização da liberdade nesta música está no reconhecimento das limitações existentes para o seu exercício e no, afinal, muito que se pode fazer dentro das coordenadas estabelecidas. É como se fosse o retrato das nossas vidas quotidianas e do modo como relacionamos os nossos corpos orgânicos com a nossa espiritualidade, até percebermos que a imanência é a condição da transcendência e vice-versa, na distância permitida pela materialidade. Pois, Platão já não mora aqui.

Rui Eduardo Paes

 


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