Rui Sanches. Desenhos

Exposição individual antológica de trabalhos sobre papel de Rui Sanches (1954), organizada pelo Centro de Arte Moderna. Os trabalhos selecionados pelo artista abrangiam um período de oito anos (de 1982 a 1990), marcando o seu retorno à prática do desenho, enquanto atividade autónoma, paralela à sua produção escultórica.
Solo retrospective exhibition of works on paper by Rui Sanches (1954) organised by the Modern Art Centre. The works selected by the artist spanned a period of eight years, 1982 to 1990, marking Sanches’s return to drawing as a medium separate from his work as a sculptor.

Exposição individual de Rui Sanches (1954), que teve lugar na Sala de Exposições Temporárias do Centro de Arte Moderna.

Esta mostra reunia uma seleção de trabalhos sobre papel realizados por Sanches ao longo de oito anos (entre 1982 e 1990), paralelamente à sua produção escultórica. Sobressai neles uma atitude reflexiva e ao mesmo tempo experimental, aventureira, tirando muitas vezes partido do acaso e conjugando diferentes materiais (grafite, pastel de óleo, tinta-da-china). O gesto livre, as aguadas, as colagens e as intervenções sobre imagens preexistentes são características predominantes destes trabalhos. No texto para o catálogo, o artista refere que esta seleção assentou em critérios afetivos – nas suas palavras, «trabalhos e grupos com que neste momento tenho uma relação particularmente forte», constituindo simultaneamente um conjunto «clarificador da imagem global» das séries e das diferentes fases.

Em termos temáticos, o artista esclarece que este período se caracterizava por uma crescente atração e fascínio «por certos períodos da história europeia classificados de clássicos: a Antiguidade Clássica, o Renascimento e o Século XVII», elegendo como principais aspetos de interesse «a perspectiva», «a recuperação e utilização de modelos preexistentes em certos momentos históricos, e a maneira como esses vários momentos são vistos a partir de um ou outro ponto de vista» (Rui Sanches. Desenhos, 1991). Tais temáticas e as problemáticas delas decorrentes foram sendo exploradas na sua obra gráfica e escultórica de forma autónoma, com resultados bem distintos, apesar de, por vezes, relacionáveis.

Numa entrevista ao JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, Sanches conta como a sua estada em Londres foi determinante para a sua aproximação à arte daqueles períodos históricos: «Quando estive em Inglaterra ia muitas vezes à National Gallery, passava lá muito tempo, e uma das coisas que ia ver regularmente era os quadros de Poussin – antes só o conhecia através das reproduções em livros. Era uma coisa que me perturbava. Porque gostava eu daquelas pinturas? Porque é que eu, com 20 anos, passava tanto tempo a olhar para uma coisa feita no século XVII sobre deuses gregos e ninfas a dançarem? Coisas completamente caducas e mortas. Isso preocupava-me. Em simultâneo, estava interessado num outro artista, que não tem nada que ver com Poussin, que era o Marcel Duchamp. Depois acabou por haver uma certa convergência, sobretudo através das coisas que Duchamp fez sobre a perspectiva, a ideia das dimensões…» (Fragoso, JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, 12 mar. 1991, p. 25)

Nos desenhos de 1982 a 1987 selecionados, encontramos um particular interesse pelo estudo do espaço e suas formas de representação, com referências a mapas, plantas, sistemas de coordenadas e vários tipos de perspetiva, cujo rigor é destruído pela combinação com padrões, manchas texturadas, sombras, aguadas, drippings, colagens. Ao preto-e-branco dominantes junta-se pontualmente a cor introduzida na série de dípticos Natal (Preto e Branco) (1987), na qual surgem igualmente algumas representações de objetos.

A mostra culminava na série A Marat (1989) e naquela que dedicou a santos e mártires (1990). Na primeira, alusiva à obra A Morte de Marat, de Jacques-Louis David, a imagem fotográfica de um homem numa banheira na mesma posição de Marat na pintura de David, mas com a mão pendida sobre um telefone, ao invés de segurar uma pena, surge repetidamente (com recurso à serigrafia) em cada um dos trabalhos da série, sendo objeto de intervenções diversas, que a transformam. Por outro lado, na série dos santos e mártires, o artista conjuga formas e símbolos que remetem para anteriores representações de tais personagens (parte da memória coletiva) e para episódios das suas vidas, num desenho de traço livre e sem referência específica, a par de representações de objetos da atualidade.

Usando as palavras do artista, «é possível ver nestes desenhos o que pode ser considerado o princípio de uma arqueologia das imagens, em que surgem perguntas relativas à origem dessas imagens, em que a sua potência é auscultada, onde por vezes há a tentativa de as actualizar dando-lhes novamente ressonância» (Rui Sanches. Desenhos, 1991).

Após a exposição, foi incorporado na coleção do Centro de Arte Moderna um trabalho da série A Marat (1989).

Mariana Roquette Teixeira, 2018


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Rui Sanches (1954-)

A Marat, 1990 / Inv. 91DP1538

Rui Sanches (1954-)

A Marat, 1990 / Inv. 91DP1538


Publicações


Material Gráfico


Imprensa


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00231

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência, processos de empréstimo, lista de obras a serem expostas, lista de convidados de Rui Sanches, material para o catálogo, convite, recortes de imprensa. 1990 – 1991

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM-S005/01/01-P0108-D02594

Coleção fotográfica: inauguração (FCG-CAM, Lisboa) 1991

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM-S005/01/01-P0108-D02594

Coleção fotográfica: aspetos (FCG-CAM, Lisboa) 1991


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