Traje: Um Objecto de Arte?

Exposição coletiva organizada pelo Museu Calouste Gulbenkian e pelo Centro de Arte Moderna a partir da ampliação de uma mostra apresentada anteriormente em São Paulo. Expuseram-se peças históricas de vestuário e pesquisas de «wearable art», desenvolvidas por artistas contemporâneos brasileiros, norte-americanos, italianos, alemães e portugueses.
Collective exhibition organised by the Calouste Gulbenkian Museum and the Modern Art Centre, stemming from an expansion of a show previously staged in São Paulo. The show featured historical garments and “wearable art” by contemporary Brazilian, North American, Italian, German and Portuguese artists.

Exposição coletiva organizada conjuntamente pelo Museu Calouste Gulbenkian e pelo Centro de Arte Moderna, com a colaboração do Museu Nacional do Traje, que procurava refletir sobre as fronteiras que separam a moda e a arte.

Como explicam José Sommer Ribeiro e Maria Teresa Gomes Ferreira, esta mostra, proposta por Sylvia Athayde e Fernando Penteado, surgiu «no âmbito de uma política cultural que visa a abertura de espaços à representatividade de outras culturas» (Traje: Um Objecto de Arte?, 1990).

Apresentada pela primeira vez em 1987, no Museu de Arte de São Paulo, a exposição foi ampliada ao viajar para Portugal. No Brasil, a exposição punha em confronto peças históricas de vestuário, pertencentes ao Museu Histórico do Rio de Janeiro e ao Museu Histórico da Bahia, e pesquisas levadas a cabo por artistas contemporâneos brasileiros e norte-americanos, representantes da wearable art, que preconiza o vestuário enquanto expressão artística, fruto da criação de artistas e não de estilistas de moda.

Com origem nos Estados Unidos da América na década de 1970, este movimento expandiu-se para o Canadá, França, Alemanha, Brasil e Portugal. As primeiras manifestações no Brasil datam de 1984 e devem-se a Liana Bloisi, que, depois de integrar o movimento nos Estados Unidos, se muda para São Paulo, onde criou a galeria Paradoxarte, um espaço para a apresentação desta forma de arte.

O crescimento desta tendência resultou em inúmeras exposições e suscitou a questão: «Será o traje um objeto de arte?» Como apontava Sylvia Athayde, coordenadora-geral da exposição, «a expressão de um artista plástico não é a mesma de um estilista que cria pensando no fator mercadológico e segue as tendências da moda, porém muitas peças da moda podem ser consideradas verdadeiras obras de arte» (Traje: Um Objecto de Arte?, 1990). A proposta apresentada à Fundação Calouste Gulbenkian alargava o projeto inicial a países europeus, como Portugal, Itália e Alemanha, confrontando a produção contemporânea – com recurso a têxteis, tramas, bordados, tingimentos – com trajes de valor histórico, pertencentes a coleções privadas e instituições museológicas nacionais.

A secção histórica era composta por algumas das mais significativas peças de vestuário do início do século XX até à década de 70, de forma a revelar a evolução da moda e as alterações nos costumes ao longo de 170 anos. A peça que abria a exposição era um vestido de baile datado de 1900 e que pertencera à condessa de Mafra, seguindo-se vestidos de noite, de tarde, com tecidos ricamente trabalhados, caminhando-se progressivamente para vestidos de linhas cada vez mais direitas, sem mangas, de cintura descida, com decotes redondos ou em «V», até exemplares com a assinatura das casas Valentino e Givenchy.

Complementarmente, foram incluídos alguns trajes tradicionais de Viana do Castelo e de Miranda do Douro, pertencentes ao Museu Nacional de Etnologia. Assim, foram postas em evidência as dimensões utilitária, comemorativa, ornamental e de código social assumidas pelo traje ao longo dos tempos. Enquanto nestes casos havia normas e tendências a respeitar, estas limitações desaparecem quando se fala de «arte vestível».

Expostas com recurso a plintos e manequins, ou suspensas a partir do teto, as peças contemporâneas de vestuário e acessórios foram agrupadas em pequenos núcleos. Os trabalhos selecionados, dos quais fizeram parte casacos de seda natural com pintura em cera, quimonos tricotados e calças com colagens de seda pintada, salientavam a diversidade de propostas e o forte experimentalismo. As cores azul-escuro e preto das paredes, aliadas à iluminação direcionada, contribuíam para a criação de um espetáculo visual marcado por uma profusão de cores, formas, texturas e materiais.

Neste campo, Portugal tinha uma artista que se destacava: São (Maria da Conceição), residente em Nova Iorque. No entanto, esta declinara o convite para integrar a exposição, argumentando que não participava em mostras coletivas. Assim, Portugal esteve representado por peças de criadores de moda como Ana Salazar, Eduarda Abbondanza e Mário Matos Ribeiro, Gabriela Tomé, José António Tenente, Manuela Gonçalves, Manuela Tojal, e de artistas plásticas como Ana Vieira, Pureza Oliveira e Maria José Oliveira. Esta última apresentou duas peças invulgares: uma capa feita com tripa de porco e fio de barbante e uma espécie de vestido em tela endurecida com argila, relativamente ao qual a artista afirma: «Vestir o próprio esqueleto, isto traduz uma reflexão sobre o corpo habitável. Daí que a peça necessite de um suporte escultórico para se afirmar.» (Féria, Diário de Lisboa, 5 jun. 1990)

Foi realizado um documentário, assinado por Diamantino Ferreira e Eugénio Valente, com uma reportagem sobre a exposição e filmagem da performance de Rolando Rasmussen, encenada no Hall da Sede da Fundação Calouste Gulbenkian.

Segundo Sylvia Athayde, esta mostra foi considerada por José de Azeredo Perdigão «das mais bonitas exposições que já se fez nesta casa» (Carta de Sylvia Athayde para José Sommer Ribeiro, 1990, Arquivos Gulbenkian, CAM 00214).

Mariana Roquette Teixeira, 2018


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Eventos Paralelos

Performance

Traje: Um Objecto de Arte?

30 mai 1990
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede – Hall
Lisboa, Portugal
Mesa-redonda / Debate

Traje: Um Objecto de Arte?

31 mai 1990
Fundação Calouste Gulbenkian / Museu Calouste Gulbenkian – Sala de Conferências
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Mesa-redonda «Traje. Um Objecto de Arte?»
José de Azeredo Perdigão (à esq.)
José de Azeredo Perdigão
José de Azeredo Perdigão (ao centro)

Multimédia


Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Biblioteca de Arte Gulbenkian, Lisboa / Dossiê BA/FCG

Coleção de dossiês com recortes de imprensa de eventos realizados nas décadas de 80 e 90 do século XX, organizados de forma temática e cronológica. 1984 – 1997

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00214

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém lista de artistas, folheto da exposição, proposta de exposição itinerante, custos de produção associados e receção crítica da exposição no Brasil, correspondência, pedidos de empréstimo, textos para o catálogo, convite. 1989 – 1990

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM 00438

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência, orçamentos para catálogo, cartaz, convites, notas de pagamento, pedidos de empréstimo, processo referente a obras danificadas durante a exposição, ficha com suportes e materiais museográficos, iluminação, atividades associadas e produção, lista de peças emprestadas pelo Museu Nacional do Traje (MNT) para efeitos de seguro, descrição e fotografias das peças emprestadas pelo MNT, lista de obras e suportes museográficos, listas de convidados, textos para o catálogo, currículos dos artistas, convite, nota de imprensa, recortes de imprensa. 1989 – 1991

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Comunicação), Lisboa / COM-S001/019-D02266

Coleção fotográfica, cor: montagem (FCG, Lisboa) 1990

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0262-D00836

Coleção fotográfica, cor: montagem (FCG, Lisboa) 1990

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Comunicação), Lisboa / COM-S001/019-D02257

Coleção fotográfica, cor: inauguração (FCG, Lisboa) 1990

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0262-D00831

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 1990

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0262-D00832

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 1990

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0262-D01369

Coleção fotográfica, p.b.: aspetos (FCG, Lisboa) 1990

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Comunicação), Lisboa / COM-S001/019-D02265

Coleção fotográfica, cor: evento associado (FCG, Lisboa) 1990

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0262-D00837

Coleção fotográfica, cor: evento (FCG, Lisboa) 1990


Exposições Relacionadas

Definição de Cookies

Definição de Cookies

A Fundação Calouste Gulbenkian usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. A Fundação pode também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.