Rui Sanches. Retrospectiva

Exposição individual retrospetiva da obra do artista português Rui Sanches (1954). A partir da relação da escultura com o desenho na obra de Sanches, esta mostra procurou evidenciar as pesquisas formais, volumétricas e espaciais que, ao longo de duas décadas, ocuparam o artista. Contou com a curadoria de Leonor Nazaré.
Solo retrospective exhibition on Portuguese artist Rui Sanches (1954) curated by Leonor Nazaré. The show, which used the relationship between sculpture and painting in Sanches’s work as a starting point, sought to illustrate the the artist’s exploration of form, volume and space over the course of two decades.

Exposição retrospetiva da obra do artista português Rui Sanches (1954), comissariada por Leonor Nazaré.

A mostra iniciava-se com um conjunto de trabalhos recentes, apresentado no Hall do Centro de Arte Moderna (CAM). Neste espaço, uma série de esculturas, com formas orgânicas que lembram elementos rochosos, compunha uma espécie de paisagem ficcional. Estes corpos irregulares, como resultantes de processos de erosão, eram acompanhados por uma seleção de trabalhos sobre papel. A interseção de formas geométricas e orgânicas, presente nos desenhos, é explorada tridimensionalmente através da inserção dos elementos escultóricos no espaço. Deste modo, nesta espécie de antecâmara, o espectador era posto perante uma metodologia de análise e leitura que marcava o discurso expositivo e que assentava na íntima relação entre escultura e desenho, recorrente na obra de Rui Sanches.

Numa entrevista concedida a Jorge Fallorca, em 1989, Sanches explica: «O meu trabalho de escultura foi desde há bastante tempo, pelo menos desde 82 de forma sistemática, acompanhado paralelamente de um trabalho de desenho, que, de 84 para cá, até tenho exposto com certa regularidade. Desenvolvo as duas actividades, quando desenho faço uma pausa na escultura, e vice-versa. Alimentam-se uma da outra e não é a primeira vez que faço séries de desenhos que têm a ver com a escultura que fiz antes.» (Rui Sanches. Retrospectiva, 2001, p. 212)

Através de uma observação em paralelo da produção escultórica e gráfica, esta mostra procurou revelar aspetos menos evidentes e suscitar novas interpretações no trabalho de Sanches. Por outro lado, a autonomia desta prática – uma vez que o artista não põe o desenho ao serviço da escultura – era evidenciada num núcleo exclusivo de desenhos. Este encontrava-se exposto numa das áreas destinadas a exposições rotativas, que haviam sido recentemente criadas no CAM para dinamizar a área de exposição permanente. Este núcleo centrava-se na produção da década de 1990 e era revelador do modo como Sanches desenvolve o seu trabalho. Nestas obras sobressai uma atitude simultaneamente reflexiva e experimental, conjugando os efeitos do acaso das aguadas e drippings com o rigor geométrico de linhas e formas. Os trabalhos mais antigos aqui apresentados, como Barra, segundo David (1991) ou Fontana II (1991), remetem para a combinação de referências aparentemente antagónicas em que assenta a obra de Sanches.

Numa entrevista concedida ao JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias em 1991, o artista relembrava: «Quando estive em Inglaterra ia muitas vezes à National Gallery, passava lá muito tempo, e uma das coisas que ia ver regularmente era os quadros de Poussin […]. Era uma coisa que me perturbava. Porque gostava eu daquelas pinturas? […] Em simultâneo, estava interessado num outro artista, que não tem nada que ver com Poussin, que era o Marcel Duchamp.» (Fragoso, JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, 12 mar. 1991, p. 25)

Nas séries seguintes Corpos (e) Móveis (1993), Dúvida de Sombra (1996) e nos trabalhos de 1999, os elementos figurativos dos trabalhos anteriores, que ainda remetiam para a série A Marat (1989), dão lugar a pesquisas sobre a representação do movimento e da profundidade na pintura, através da linha curva e da mancha, que culminam em formas que nascem do «movimento», de linhas dinâmicas.

Esta seleção de desenhos mostra o processo de trabalho de Rui Sanches, o modo como este combina práticas e elementos anteriormente utilizados com outros que então vão surgindo.

Na Galeria do piso 1, a mostra prosseguia cronologicamente, notando-se, através das relações estabelecidas, uma especial preocupação em evidenciar as pesquisas formais, volumétricas e espaciais que, ao longo de duas décadas, ocuparam o artista.

O primeiro núcleo mostrava a produção da década de 1980, construções em madeira e contraplacado que intervinham no espaço: peças de parede, de canto, de chão, num desequilíbrio em equilíbrio. Em alguns casos, o artista juntava outros elementos, como tubos (Alpheus, 1985), ou citações de formas arquitetónicas (Aqui e Ali, 1985). Sobre este período, Sanches esclarece, numa entrevista por ocasião desta exposição: «Quando comecei a usar este tipo de processos mais construtivos, a usar a madeira com este tipo de aparência, em 1981, correspondeu também a um interesse pelo próprio material, que tinha a ver com o facto de estar nos EUA e haver muita construção de madeira à minha volta. Para além desse aspecto da madeira como um elemento estrutural de desenho na arquitectura, interessou-me muito a própria maleabilidade do material. Percebi que isso tinha a ver com a utilização que outros artistas já tinham feito dela, como os construtivistas, os cubistas ou os minimalistas.» (Martins, Expresso, 28 abr. 2001, p. 36)

Neste primeiro núcleo foi igualmente integrada a peça Retrato de Pintor (1985), uma espécie de autorretrato escultórico do artista, remetendo para a sua formação em pintura e posterior desvio para a escultura, ou seja, a passagem da bidimensionalidade (aqui representada por três painéis retangulares pintados de branco, lembrando três telas) para a tridimensionalidade (a estrutura que as precede e que lhes permite «habitar» o centro da sala), que o próprio resume da seguinte forma: «A minha pintura vai-se aproximando da factualidade, tornando-se cada vez mais um objecto. Seguiu-se um período de experimentação com diferentes materiais, técnicas e maneiras de fazer e progressivamente fui-me encaminhando para a escultura.» (Ibid.)

Vinham depois as peças com fortes referências à história da arte, em particular à pintura dos séculos XVIII e XIX, nas quais o artista aprofunda a passagem à tridimensionalidade de algo construído numa perspetiva bidimensional, multiplicando os pontos de vista possíveis. Ao percorrer a galeria, o espectador era confrontado com o modo como os volumes geométricos iam progressivamente dando lugar a outro tipo de formas, com aparências orgânicas, ocorrendo, em termos temáticos, uma transição da representação para a realidade, da composição idealizada para as criações da natureza. Consequentemente, a rigidez, o controlo dão lugar ao movimento, ao dinamismo. O processo de trabalho altera-se, passando a assentar na sobreposição de placas de contraplacado com ligeiras variações formais, organizadas «de forma a sugerirem um processo de metamorfose geológica, topográfica, física...» (Rui Sanches. Retrospectiva, 2001, p. 222).

A combinação de processos e práticas distintas, que o núcleo de desenhos, no piso 0, demonstrara, é evidente em algumas das peças escultóricas expostas, até se chegar a um momento em que se reconhece que o artista se desprende do passado e muda decididamente de direção.

Inicialmente com encerramento previsto para 29 de julho, o Centro de Arte Moderna decidiu prolongar por mais um mês esta exposição «devido ao [seu] grande êxito» (Carta de Leonor Nazaré dirigida a todos os emprestadores de obras, 2001, Arquivos Gulbenkian, CAM 00509; CAM 00510).

Bastante significativo foi igualmente o seu destaque na imprensa. As opções curatoriais foram vistas com grande agrado pela crítica, tanto no que diz respeito às obras selecionadas como ao discurso expositivo criado. Para Luísa Soares de Oliveira, «a exposição, além de apresentar uma selecção cuidada e rigorosa do trabalho deste escultor, coloca a tónica nas modificações do espaço criadas pela própria escultura. E, numa apreciação global onde se destacam as diferentes linhas de trabalho exploradas pelo artista, acentua a continuidade de um modo de trabalho, as formas que permanecem, os materiais preferidos – afinal, pontos que constroem a realidade de que a escultura é feita» (Soares, Público, 5 mai. 2001, p. 26).

Também Celso Martins salienta que, com esta primeira retrospetiva da obra escultórica e gráfica de Rui Sanches, «é possível distinguir algumas das orientações que o guiaram e, sobretudo, a curva evolutiva que o conduziu de uma abordagem inicial de tipo mnemónico à produção mais actual ancorada na dimensão tangível do real» (Martins, Expresso, 28 abr. 2001, p.38). Importa ainda referir que a obra de Rui Sanches foi objeto de análise e reflexão ao longo do período da exposição, quer através de entrevistas – como a conduzida por Celso Martins –, quer em artigos publicados no Jornal de Letras – como os de Rocha de Sousa e de Susana Martins –, os quais aprofundam o percurso e a obra de Sanches, o primeiro de forma ensaística, e o segundo numa perspetiva biográfica.

Esta exposição é acompanhada por um catálogo, no qual são de assinalar não só os textos de ensaio da curadora, de Nuno Faria e de Aurora Garcia, mas também a reprodução de todas as obras expostas e uma antologia de vinte anos de entrevistas concedidas por Rui Sanches a jornais e revistas de arte.

Mariana Roquette Teixeira, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Rui Sanches (1954-)

A Marat, 1990 / Inv. 91DP1538

Natureza Morta II

Rui Sanches (1954-)

Natureza Morta II, 1984 / Inv. 86E450

Rui Sanches (1954-)

S/ Título, 2000 / Inv. 00E1036


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

[Rui Sanches. Retrospectiva]

28 abr 2001 – 9 jun 2001
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna – Galeria Piso 1
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Rui Sanches (ao centro, à esq.)
Rui Sanches (à esq.), Emílio Rui Vilar (ao centro, à dir.) e Jorge Molder (à dir.)

Multimédia


Documentação


Imprensa


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00508

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém dossiê de imprensa, folhetos das exposições «Rui Sanches. A Marat» (Museu Henrique e Francisco Franco, Funchal, 1999) e «Rui Sanches. Desenhos» (Museu de Arte Contemporânea, Fortaleza de São Tiago, Funchal, 1999), orçamentos, recortes de imprensa, lista de convidados para a inauguração, pedidos de empréstimo, apólices de seguro. 1998 – 2005

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00509

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém pedidos de empréstimo, apólices de seguro. 1998 – 2005

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00510

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém pedidos de empréstimo, apólices de seguro, correspondência interna, lista de obras para efeitos de seguro, recortes de imprensa, processo relativo ao restauro de uma obra de Rui Sanches danificada na exposição. 1998 – 2005

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00511

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém lista de pedidos de empréstimo, lista de obras para efeitos de seguro, material para o catálogo. 1998 – 2005

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00512

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém guias de transporte das obras de arte. 1998 – 2005

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 132902

Coleção fotográfica, cor: inauguração (FCG-CAMJAP, Lisboa) 2001

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 109155

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG-CAMJAP, Lisboa) 2001


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