Graça Morais. La Violence et la Grâce

Exposição individual da artista portuguesa Graça Morais (1948), com curadoria de Helena de Freitas e Ana Marques Gastão. A mostra, que contou com cerca de 50 obras, maioritariamente de desenho, apresentava a relação entre a obra plástica da artista e a literatura.
Solo exhibition by the Portuguese artist Graça Morais (1948), curated by Helena de Freitas and Ana Marques Gastão. The exhibition, which encompassed almost 50 works, mainly drawings, explored the relationship between visual art and literature.

A exposição «Graça Morais. La Violence et la Grâce», inaugurada na Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France no dia 30 de maio de 2017, e patente ao público até 27 de agosto, teve curadoria de Helena de Freitas, curadora da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), e de Ana Marques Gastão, poetisa, crítica literária e membro da direção da revista Colóquio/Letras, da FCG.

A mostra reuniu um conjunto de meia centena de trabalhos de Graça Morais (1948), na sua maioria desenhos, obras sobre papel, do início dos anos 80 à atualidade (de 1982 a 2016), em que coabitam espaços de memória e imaginação das vivências do quotidiano rural transmontano, recorrentemente reativadas no tempo presente pela sua revisitação, e episódios fraturantes da sociedade atual, em que o medo, a solidão ou a miséria prevalecem sobre a identidade do indivíduo.

Entre estes dois mundos, desenvolvem-se muitos dos seus temas de eleição, tais como a natureza (em recantos rochosos, paisagens molhadas, pedaços de ramos, flores ou frutos, animais ou insetos), a herança cultural (nos contos populares ou na mitologia clássica), a condição da mulher (nos retratos coletivos ou individuais em que prevalece o anonimato) e a defesa da dignidade humana, denunciada, nomeadamente, nas obras das séries A Caminhada do Medo (2011) ou As Sombras do Medo (2012). Como afirma Miguel Magalhães no prefácio do catálogo, «le plus captivant chez Graça Morais: cet état d’émerveillement qui l’habite» (Graça Morais. La violence et la grâce, 2017).

Não pretendendo ser antológica, a mostra explorou a singularidade da obra de Graça Morais, estruturando o percurso expositivo em pequenas secções temáticas, iniciadas, na primeira sala, com trabalhos que mostram a comunicação entre a sua obra plástica e a literatura, em diálogos com autores como Sophia de Mello Breyner, Agustina Bessa-Luís, José Saramago ou Miguel Torga, que partilham com a artista um imaginário singular e poético, na sua multíplice diversidade. De acordo com a curadora Helena de Freitas, este é um movimento bidirecional em que a artista demonstra uma capacidade invulgar para estimular a imaginação poética dos escritores: «Graça Morais a su construire un système d’images propre à éveiller chez les plus brillants écrivains portugais de son temps les élans narratifs qui sont à l’origine d’œuvres de premier plan.» (Graça Morais. La Violence et la Grâce, 2017, p. 18) Neste âmbito, destacam-se as parcerias desenvolvidas com Sophia de Mello Breyner e Agustina Bessa-Luís, consubstanciadas, respetivamente, nas publicações Orfeu e Eurídice, de 1990, e Metamorfoses, de 2007, e cujas primeiras edições em versão francesa seriam lançadas na Fundação Calouste Gulbenkian – Délégation en France por ocasião da exposição.

Na segunda sala, o projeto curatorial perscruta criticamente o conceito de metamorfose identificando a capacidade da artista de percecionar a diversidade na aparente unicidade de cada indivíduo (quer este seja humano, animal, natural ou imaginário) da qual resultam obras como Maria (1982), Metamorfoses (2000-2001) ou um conjunto de retratos (uns, de rosto ocultado, datados de 1996 e 1999, e um outro, O Rosto Mudo, de 2016). Já na terceira sala do edifício, esta secção termina com o trabalho Diário com Perdiz (2006), no qual a presença humana é detetada também de forma velada no relato escrito e por detrás do olhar que analisa a decomposição progressiva do animal.

Nos dois últimos núcleos, surgem predominantemente os trabalhos em que a figura humana está mais presente, com obras da série A Caminhada do Medo e o significativo conjunto de retratos de mulheres – umas, intituladas de Maria, outras, máscaras sem nome.

Numa das salas do piso térreo do edifício, são apresentados, em contínuo, dois filmes dedicados à artista e à sua obra: o primeiro, Graça Morais e os Escritores, realizado em 2017 por Luís Alves de Matos, aborda a relação entre a artista e a literatura portuguesa; o segundo, Na cabeça de uma mulher está a história de uma aldeia, realizado em 2000 por Joana Morais, evoca as memórias e vivências da artista na narrativa de revisitação da sua obra.

O catálogo da exposição inclui a reprodução de todas as obras em exposição, maioritariamente propriedade da artista, e um conjunto de ensaios científicos, assinados por Ana Marques Gastão, Helena de Freitas, Catherine Dumas, Miguel Magalhães, Daniel-Henri Pageaux, Eduardo Lourenço, Guilherme d’Oliveira Martins e Raquel Henriques da Silva.

No âmbito da exposição, foi ainda organizada, com curadoria de Helena de Freitas e de Ana Marques Gastão e apoio da biblioteca da Delegação em França da FCG, uma exposição documental que, além de um conjunto de desenhos inéditos da artista, reuniu um conjunto de livros de autores portugueses cujo percurso de vida ou cuja obra se cruzaram com o de Graça Morais. Esta mostra reforçava a importância da transmeabilidade entre o imaginário literário e o universo criativo da artista.

Nos dias 6 e 7 de junho, a Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France, acolheu um colóquio internacional, realizado em parceria com o Centre de Recherches sur les Pays Lusophones (CREPAL), sob a coordenação de Ana Marques Gastão e Olinda Kleiman. Intitulado «Graça Morais. O Mito e a Metamorfose», o programa do colóquio versava sobre a obra da pintora Graça Morais no cruzamento com diferentes saberes e áreas de conhecimento, como a literatura, a antropologia, a história da arte, a psicanálise, a problemática das migrações, os estudos de género ou a persistência da memória (individual ou coletiva), acompanhando o vigor metamórfico das figuras que povoam o universo imagético da pintora. O evento contou com a participação de um leque diversificado de especialistas, como Baltrusch Burghard, Sarah Carmo, Irène dos Santos, Catherine Dumas, Pedro Eiras, Raquel Henriques da Silva, Nuno Júdice, Agnès Lévecot, Eduardo Lourenço, Edgar Morin, Ana Marques Gastão, Isabel Ponce de Leão, Sylvie Sesé-Léger, Egídia Souto e Jeanette Zwingenberger.

Isabel Falcão, 2022


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Eventos Paralelos

Exposição paralela

Graça Morais. Les livres, les catalogues

31 mai 2017 – 27 ago 2017
Fundação Calouste Gulbenkian / Delegação em França – Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France
Paris, França
Lançamento editorial

Les Métamorphoses [romance]

2017
Fundação Calouste Gulbenkian / Delegação em França – Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France
Paris, França
Colóquio

Graça Morais. Le mythe et la métamorphose

6 jun 2017 – 7 jun 2017
Fundação Calouste Gulbenkian / Delegação em França – Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France
Paris, França
Visita oficial

[Graça Morais. La Violence et la Grâce]

8 jun 2017
Fundação Calouste Gulbenkian / Delegação em França
Paris, França
Visita oficial

[Graça Morais. La Violence et la Grâce]

7 jun 2017
Fundação Calouste Gulbenkian / Delegação em França
Paris, França

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Visita do Ministro da Economia. Helena de Freitas (à esq.); Graça Morais (ao centro) e Manuel Caldeira Cabral (à dir.)
Visita do Ministro da Economia. Helena de Freitas, Pedro Caldeira Cabral, Graça Morais e Manuel Caldeira Cabral (da esq. para a dir.)
Visita do Ministro dos Negócios Estrangeiros. Helena de Freitas (à esq.);  Artur Santos Silva (ao centro) e Graça Morais (à dir.)
Visita do Ministro dos Negócios Estrangeiros. José Moraes Cabral (à esq.), Graça Morais (centro esq.), Ana Marques Gastão (ao centro) e Artur Santos Silva (à dir.)
Helena de Freitas e Guilherme d’Oliveira Martins (ao centro)
Guilherme d’Oliveira Martins, Isabel Mota e Graça Morais (da esq. para a dir.)
Graça Morais (ao centro)
Ana Sousa Dias e João Pinharanda (ao centro)
Pedro Caldeira Cabral (à esq.) e Graça Morais (ao centro)
José Filipe Moraes Cabral (à esq.)
Maria de Medeiros e Graça Morais

Multimédia


Documentação


Imprensa


Páginas Web


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