A Perspectiva das Coisas. A Natureza-Morta na Europa. Primeira Parte: Séculos XVII-XVIII

Exposição coletiva dividida em dois momentos. A primeira parte da mostra, comissariada por Peter Cherry e dedicada aos séculos XVII e XVIII, integrou 71 pinturas focadas na representação de naturezas-mortas na Europa, tendo como principal objetivo legitimar este tema como modelo artístico autónomo.
Collective exhibition held in two parts. The first, curated by Peter Cherry and dedicated to the 17th and 18th centuries, included 71 paintings of still lifes in Europe, with the aim of legitimising this theme as an artistic model in its own right.

Exposição coletiva organizada pelo Museu Calouste Gulbenkian (MCG), com coordenação executiva de Maria Rosa Figueiredo, conservadora desta instituição. Inserida no arco cronológico entre os séculos XVII e XVIII, a mostra integrou um conjunto de 71 pinturas ocidentais focadas na representação de naturezas-mortas na Europa, tendo por objetivo confirmar e legitimar este tema enquanto modelo artístico autónomo, afastando-o da ideia preconcebida de ser um género de pintura apenas elementar.

Comissariada por Peter Cherry, especialista em natureza-morta espanhola e italiana e responsável pelo Departamento de História da Arte e Arquitetura da Trinity College, em Dublin, a exposição foi possível graças aos empréstimos de várias instituições e coleções públicas e privadas, nacionais e internacionais, com destaque para o Museo Nacional del Prado (Madrid) ou The National Gallery (Londres).

O conteúdo do projeto expositivo inicial foi considerado bastante extenso pelo próprio comissário e pelo diretor do MCG, João Castel-Branco Pereira, tanto pelo número de trabalhos necessários, como pela amplitude e diversidade de questões teóricas que se colocavam em cada núcleo. Por essa razão, decidiu-se que a mostra seria apresentada em duas partes: a primeira, correspondente aos séculos XVII e XVIII, período identificado com as estéticas da Idade Moderna; a segunda, apresentada em Lisboa entre 21 de outubro de 2011 e 8 de janeiro de 2012, dedicada aos séculos XIX e XX, correspondentes a duzentos anos de transformações radicais e de novas experimentações artísticas, principalmente após o início do uso da fotografia.

As pinturas que integraram o primeiro momento do projeto propuseram, de acordo com Peter Cherry, «a exploração e o confronto dos temas recorrentes da natureza-morta ao longo destes dois séculos de história: frutos, caça, cozinhas, mesas de banquete, flores, instrumentos musicais, gabinetes de curiosidades, vanitas e trompe l'œil» (Montesinos, L+Arte, mar. 2010, p. 28).

Na entrevista que deu a Fernando Montesinos, membro da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), Cherry, que também pintou diversas naturezas-mortas nos seus tempos de universitário, chamou a atenção para o desafio que foi «distanciarmo-nos da ideia da natureza-morta […] como veículo de simbolismos religiosos, filosóficos ou moralizantes», evocando também o propósito de «mostrar a variedade de espaços, momentos, encontros e posturas que contribuíram para a evolução da natureza-morta» (Montesinos, L+Arte, mar. 2010, p. 32). «Foi uma selecção criteriosa […] com escolhas muito pessoais», afirmou o comissário, confessando que o aspeto que lhe deu mais satisfação foi o de ter conseguido confrontar, no mesmo momento, obras de contemporâneos como Chardin, Goya e Meléndez (Ibid.).

A mostra foi organizada em dez áreas temáticas interconectadas e organizadas para lá de distinções cronológicas demasiado rígidas. O designer responsável pelo projeto museográfico, Mariano Piçarra, criou um «ambiente de aquário», para que todos os trabalhos pudessem falar por si próprios, privilegiando «os fundos quentes e sombrios para destacar as obras» (Oliveira, Público, 19 fev. 2010, p. 42).

O primeiro núcleo, intitulado «O Encanto das Coisas Pintadas», foi o ponto de partida da mostra e abordou o período da descoberta deste tema. O percurso expositivo foi assim iniciado, depois do espelho que se encontrava na entrada, com uma obra do Mestre da Natureza-Morta de Hartford, representando uma série de objetos sobre o tampo de uma mesa e com uma obra anónima de c. 1600, Natureza-Morta com Flores e Frutos.

Daí em diante, o percurso foi espelhando as várias evoluções do tema: o segundo núcleo, «Momentos Preciosos», incluiu pinturas de objetos preciosos, destacando artistas como Frans Francken; o terceiro, «Um Festim para o Olhar», debruçava-se sobre representações abundantes de comida, como se pode observar na pintura de Jacopo Chimenti ou nas obras de Josefa de Óbidos, que marcavam a passagem para o núcleo seguinte, «Doçarias»; o quinto segmento, «Jogos de Luz», enaltecia os efeitos de luz nas diferentes superfícies representadas e era dominado pelo modelo nórdico, com pinturas de Sébastien Stoskopff ou Jan Jansz, levando ao sexto núcleo, «Natureza e Artifício», onde se destacavam os trabalhos com a técnica ilusionista trompe l'œil».

Os restantes núcleos apresentavam pinturas de animais de caça mortos, pinturas de flores, as vanitas (objetos, como caveiras, que simbolizam reflexões sobre o estado da alma perante a vida e a morte) e, por último, o segmento «Revivalismo e Pintura», que integrou diferentes correntes de tradição e modernidade do século XVIII.

No final da exposição encontravam-se obras como Pavoas Mortas (c. 1639), de Rembrandt, uma das poucas naturezas-mortas pintadas pelo artista e cedida pelo Rijksmuseum de Amesterdão, Pipes et vase à boire, dit aussi La Tabagie (c. 1737), do artista francês Jean-Siméon Chardin, ou ainda Natureza-Morta com Lebres (c. 1808-1812), de Francisco de Goya.

Na crítica que escreveu para o jornal Expresso, José Manuel dos Santos, diretor cultural da Fundação EDP, comparou a entrada na exposição com o momento em que a Alice de Tim Burton atravessou o espelho, explicando que todos os seus cinco sentidos ficaram alerta pela diversidade de frutos, bebidas, loiças, vidros, metais, taças, mesas, carnes, pássaros que se encontravam em todas as obras (Santos, Expresso, 2 abr. 2010).

Por sua vez, Vasco Graça Moura escreveu: «Alguns dos mais belos exercícios de cor, desenho e representação estão nesta volúpia reiterada de uma extrema fidelidade ao real», acrescentando ainda que esta mostra foi um verdadeiro «festival de texturas e tactilidades» (Moura, Diário de Notícias, 17 fev. 2010, p. 54).

A exposição foi acompanhada pela publicação de um catálogo, editado em português e inglês, que conta com apresentações do presidente da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), Emílio Rui Vilar, do diretor do MCG, João Castel-Branco, e com ensaios de Peter Cherry, John Loughman e Lesley Stevenson.

Em iniciativa paralela, Jorge Estrela, então diretor da Casa-Museu Centro Cultural João Soares, dissertou, no dia 20 de abril de 2010, sobre o tema «A Grande Ilusão. A Natureza-Morta na Europa, séculos XVII-XVIII», contando com uma vasta audiência no Auditório 2 da Sede da FCG.

Ainda no âmbito da exposição, foram recebidos, no dia 22 de março desse ano, os vários embaixadores dos países emprestadores, que beneficiaram de uma visita orientada pelos diretor e diretor-adjunto do MCG, respetivamente João Castel-Branco Pereira e Nuno Vassallo e Silva, pelo presidente Emílio Rui Vilar e pela conservadora e coordenadora executiva da mostra, Maria Rosa Figueiredo.

A primeira parte de «A Perspectiva das Coisas. A Natureza-Morta na Europa» foi alvo de grande divulgação a nível nacional, tendo recebido, no seu total, 36 054 visitantes. Tratou-se, segundo João Castel-Branco Pereira, do «mais ambicioso [projecto] no Museu, desde a sua abertura» (Montesinos, L+Arte, março 2010, p. 34).

Joana Atalaia, 2019

Group exhibition organised by the Calouste Gulbenkian Museum (MCG), with the executive coordination of the institution’s curator, Maria Rosa Figueiredo. Covering the 17th and 18th centuries, the exhibition consisted of a collection of 71 western paintings and focused on perceptions of still life in Europe, aiming to assert the value of still life as an artform in its own right, countering the received notion that it is a lesser genre of painting.

Curated by Peter Cherry, an expert in Spanish and Italian still life and head of the Art History and Architecture Department of Trinity College in Dublin, the exhibition was made possible by loans from several Portuguese and international institutions and public and private collections, notably the Museo Nacional del Prado (Madrid) and The National Gallery (London).

The director of the MCG, João Castel-Branco Pereira, deemed the initial plans for the exhibition to be fairly extensive, both in terms of the amount of work required and the extent and variety of the theoretical questions tackled by each area. He therefore decided that the exhibition should be split into two parts. The first would focus on the 17th and 18th centuries, a period associated with the aesthetics of the Modern Era. The second, held in Lisbon from 21 October 2011 to 8 January 2012, would be devoted to the 19th and 20th centuries, two-hundred years of radical transformation and renewed artistic experimentation, particularly following the advent of photography.

According to Peter Cherry, the paintings that made up the first part of this project offered an “exploration and discussion of the recurring themes in still life throughout these two centuries of history: fruit, game animals, kitchens, banqueting tables, flowers, musical instruments, cabinets of curiosities, vanitas and trompe l'œil” (Montesinos, L+Arte, Mar 2010, p. 28).

In an interview with Fernando Montesinos, a member of the Associação Internacional de Críticos de Arte [International Association of Art Critics] (AICA), Cherry, who himself painted several still lifes in his student days, highlighted the challenge of “distancing ourselves from the idea of still life […] as a vehicle for religious, philosophical or moralising symbolism”, also citing an aim to “show the variety of places, moments, encounters and attitudes that led to the development of still life” (Montesinos, L+Arte, Mar 2010, p. 32). “It was a careful selection […] with very personal choices”, asserted the curator, confessing that the most satisfying aspect for him was the opportunity to see works by contemporaries such as Chardin, Goya and Meléndez side by side (Ibid.).

The exhibition was structured around ten interconnected themed areas, which did not follow a strict chronological order. The designer responsible for the exhibition layout, Mariano Piçarra, created an “aquarium environment”, allowing each piece to speak for itself, opting for a “warm, dark-coloured backdrop so the works themselves would stand out” (Oliveira, Público, 19 Feb 2010, p. 42).

The exhibition opened with an area entitled “The Allure of Painted Things”, which looked at the period in which still life emerged as a subject. After the mirror located at the entrance, the exhibition proper began with a piece by master still life painter Hartford, depicting a series of objects on a tabletop and an anonymous work from c. 1600, entitled Natureza-Morta com Flores e Frutos.

The exhibition went on to trace the development of still life painting. The second area, “Precious Moments”, contained paintings of valuable items and featured artists such as Frans Francken; the third “Feasts for the Eyes”, looked at bountiful depictions of food, as seen in the painting by Chimenti and works by Josefa de Óbidos, which marked the transition to the following area “Sweet Desserts”. The fifth section, “Light Entertainment”, celebrated the play of light on the various surfaces depicted and was dominated by Scandinavian artists such as Sébastien Stoskopff and Jan Jansz. This led to the sixth area, “Nature and Artifice”, which focused on pieces employing trompe l'œil illusions.

The remaining areas contained paintings of dead game animals, flowers and vanitas (objects such as skulls, that symbolise a meditation on life and death) and, finally, “Revivalism in Rupture”, which brought together several traditional and modern art movements of the 18th century.

The exhibition closed with pieces including Pavoas Mortas (c. 1639), by Rembrandt, one of the few still lifes painted by the artist, on loan from the Rijksmuseum in Amsterdam, Pipes et vase à boire, dit aussi La Tabagie (c. 1737) by French artist Jean-Siméon Chardin and Natureza-Morta com Lebres (c. 1808-1812), by Francisco de Goya.

In his review for the newspaper Expresso, José Manuel dos Santos, cultural director of the EDP Foundation, compared entering the exhibition to the moment Tim Burton’s Alice steps through the looking glass, explaining that all of his five senses were awakened by the abundance of fruits, drinks, fabrics, glasses, metals, cups, tables, meats and birds that filled the paintings (Santos, Expresso, 2 Apr 2010).

Meanwhile, Vasco Graça Moura wrote: “Among this stunningly lifelike opulence, we find some of the most beautiful exercises in colour, line and form”, also adding that this exhibition is a genuine “festival of texture and tactility” (Moura, Diário de Notícias, 17 Feb 2010, p. 54).

A catalogue was published in Portuguese and English to coincide with the exhibition. It contained introductions by the president of the Calouste Gulbenkian Foundation (FCG), Emílio Rui Vilar, and the director of the MCG, João Castel-Branco, as well as essays by Peter Cherry, John Loughman and Lesley Stevenson.

A lecture entitled “A Grande Ilusão. A Natureza-Morta na Europa, séculos XVII-VIII”, was also given by Jorge Estrela, then-director of the Casa-Museu Centro Cultural João Soares, to mark the exhibition. This drew a sizeable crowd to Auditorium 2 of the FCG Main Building on 20 April 2010.

A reception for the ambassadors of the various loaning countries took place on 22 March that year. Guests received a guided tour by the director and deputy-director of the MCG, João Castel-Branco Pereira and Nuno Vassallo e Silva respectively, its president Emílio Rui Vilar and curator and executive coordinator of the exhibition, Maria Rosa Figueiredo.

The first instalment of “A Perspectiva das Coisas. A Natureza-Morta na Europa” (In the Presence of things. Four Centuries of Still Life Painting in Europe) received extensive media coverage in Portugal and welcomed a total of 36 054 visitors. According to João Castel-Branco Pereira, it was the “most ambitious [project] in the Museum, since it first opened” (Montesinos, L+Arte, March 2010, p. 34).


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Pavão e Troféus de Caça

Jan Weenix (1642-1719)

Pavão e Troféus de Caça, 1708 / Inv. 454


Eventos Paralelos

Conferência / Palestra

A Grande Ilusão. A Natureza-Morta na Europa. Séculos XVII – XVIII

20 abr 2010
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede – Auditório 2
Lisboa, Portugal
Visita oficial

[A Perspectiva das Coisas. A Natureza-Morta na Europa. Primeira Parte: Séculos XVII – XVIII]

22 mar 2010
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede – Galeria de Exposições Temporárias (piso 0)
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Conferência de imprensa. João Castel-Branco Pereira (à dir.)
Conferência de imprensa. João Castel-Branco Pereira (ao centro)
Conferência de imprensa. Maria Rosa Figueiredo (à esq.), Peter Cherry (ao centro) e João Castel-Branco Pereira (à dir.)
Conferência de imprensa. Peter Cherry (ao centro)
Conferência de imprensa. Peter Cherry (ao centro)
Conferência de imprensa. Peter Cherry e Maria Rosa Figueiredo
Conferência de imprensa. Peter Cherry (ao centro)
Conferência de imprensa. Peter Cherry (ao centro)
Conferência de imprensa. Peter Cherry
Conferência «A Grande Ilusão. A Natureza-Morta na Europa. Séculos XVII-XVIII», proferida por Jorge Flores
Conferência «A Grande Ilusão. A Natureza-Morta na Europa. Séculos XVII-XVIII», proferida por Jorge Flores
Conferência «A Grande Ilusão. A Natureza-Morta na Europa. Séculos XVII-XVIII», proferida por Jorge Flores
Conferência «A Grande Ilusão. A Natureza-Morta na Europa. Séculos XVII-XVIII», proferida por Jorge Flores
Conferência «A Grande Ilusão. A Natureza-Morta na Europa. Séculos XVII-XVIII», proferida por Jorge Flores
Visita oficial
Visita oficial
Visita oficial
Visita oficial
Visita oficial
Visita oficial
Visita oficial
João Castel-Branco Pereira (à esq.), Maria Rosa Figueiredo (ao centro)
Jorge Molder (à esq.) e Gaëtan (à dir.)
Isabel Carlos, Mariano Piçarra, António Repolho Correia, Jorge Molder (da esq. para a dir.)

Multimédia


Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Museu Calouste Gulbenkian), Lisboa / MCG 03355

Pasta com dossiê de imprensa relativo à primeira parte da exposição. 2010 – 2010

Arquivos Gulbenkian (Museu Calouste Gulbenkian), Lisboa / MCG 03339

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência entre MCG e Peter Cherry, projeto inicial da exposição, comunicado de imprensa, relatórios de instalação, convites, correspondência com transportadoras e emprestadores, entre outros. 2007 – 2010

Arquivos Gulbenkian (Museu Calouste Gulbenkian), Lisboa / MCG 03354

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém material de divulgação, projeto esboço do folheto em português e inglês, correspondência sobre aspetos organizativos, entrevista ao comissário, provas do catálogo, orçamentos dos convites e catálogo, entre outros. 2008 – 2010

Arquivos Gulbenkian (Museu Calouste Gulbenkian), Lisboa / MCG 03356

Pasta com recortes de imprensa, material de divulgação e contagem de visitantes. 2010 – 2010

Arquivos Gulbenkian (Museu Calouste Gulbenkian), Lisboa / MCG 03354

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém material de divulgação, projeto esboço do folheto em português e inglês, correspondência sobre aspetos organizativos, entrevista ao comissário, provas do catálogo, orçamentos dos convites e catálogo, entre outros. 2008 – 2010


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