Mais que a Vida. Vasco Araújo, Javier Téllez

Fórum Gulbenkian Saúde

Exposição coletiva dos artistas Vasco Araújo (1975) e Javier Téllez (1969). Com curadoria de Isabel Carlos, a mostra apresentou o encontro entre as duas obras antológicas destes artistas que, durante vários anos, se dedicaram à representação da doença mental e do preconceito que lhe está associado.
Collective exhibition on the artists Vasco Araújo (1975) and Javier Téllez (1969). Curated by Isabel Carlos, the show brought together works by these artists who, for several years, depicted mental illness and the stigma attached to it.

Exposição dos artistas Vasco Araújo (1975) e Javier Téllez (1969), organizada pelo Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), tendo contado com o apoio do Serviço de Saúde e Desenvolvimento Humano da FCG. Com curadoria de Isabel Carlos, diretora do CAM, a mostra integrou um conjunto de trabalhos que iam desde a fotografia ao vídeo, passando pela escultura e pela performance. Integrada nas comemorações do Ano da Saúde Mental, a exposição refletiu sobre questões relacionadas com doença mental, e ainda sobre preconceito, tema que lhe está habitualmente associado.

Os artistas selecionados partilhavam, além da geração, a representação de temas com uma dimensão psicológico-psiquiátrica, como a solidão, a depressão ou a velhice, o que veio a justificar a escolha da diretora Isabel Carlos, conforme adiantou ao Jornal de Notícias (Vitória, Jornal de Notícias, 31 mai. 2010).

Na crítica que redigiu para o jornal Público, José Marmeleira destacou a «componente narrativa: melodramáticas, como as vidas sentimentais de várias mulheres […] em Mulheres de Apolo (2010), de Vasco Araújo; ou inusitadas como a viagem de um rinoceronte embalsamado pelo Pavilhão de Segurança do Hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, em O Rinoceronte de Dürer, de Javier Téllez. É nessa componente narrativa […] que se concretiza o confronto, inevitável, entre as propostas dos dois artistas» (Marmeleira, Público, 2 jun. 2010).

A mostra incluiu trabalhos provenientes de coleções públicas e privadas e deu também a conhecer uma seleção de obras inéditas especificamente concebidas para este projeto, tais como o vídeo Mulheres d'Apolo (2010) e a performance O Morto (2010), de Vasco Araújo, ou a videoinstalação O Rinoceronte de Dürer (2010), filmada por Javier Téllez no panótico do Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. Esta última obra, reforça Isabel Carlos, relaciona-se com factos históricos portugueses (episódios esses que inspirariam a célebre gravura de Dürer): o rei D. Manuel I envia ao papa, em 1513, um rinoceronte vivo, um animal então desconhecido no mundo ocidental, «como acto de demonstração de poder e força da corte portuguesa» (Mais Que a Vida. Vasco Araújo, Javier Téllez [caderno de exposição], 2010, p. 2).

Em Mulheres d'Apolo, Vasco Araújo questiona a identidade de género e de classe social, construindo uma história sobre «o estereótipo da mulher de meia-idade solteira ou divorciada de classe média que deseja acima de tudo voltar a casar» (Valentina, Arte Capital, 2010).

Por sua vez, Javier Téllez aborda o mesmo tema, preferindo fazê-lo através de um «processo de confrontação». Exemplo disso foi a projeção do filme de Carl T. Dreyer La Passion de Jeanne d'Arc (1928), com legendas reescritas por mulheres internadas no Hospital Psiquiátrico de Rozelle, na Austrália. Deste modo, Téllez pôs em confronto o mito de Joana d'Arc e os testemunhos destas mulheres, «criando um paralelismo com a histeria feminina e a esquizofrenia» (Ibid.).

Com a videoinstalação O Rinoceronte de Dürer, encomendada pela FCG, Téllez, um artista filho de dois psiquiatras, teria o propósito de questionar «a noção de normalidade». O artista acrescentou ainda que também pretendeu «dar visibilidade àqueles que estão condenados pela sociedade à invisibilidade» (Vitória, Jornal de Notícias, 31 mai. 2010).

Esta não foi, de todo, a primeira vez que o artista venezuelano manifestou a vontade de proporcionar ao mundo um outro olhar sobre o tema da doença. Essa preocupação já era central, por exemplo, em 2007, no filme Letter on the Blind for the Use of Those Who See, patente no Blanton Museum, no Texas, entre fevereiro e maio desse ano. A preto-e-branco, surgiam imagens de seis indivíduos cegos a tocarem num elefante e, posteriormente, a relatar as suas experiências acerca do que tinham sentido. Sobre esta obra, pode ler-se no website oficial do Blanton Museum: «The blind may not see the world as the sighted do, while the sighted only have a limited experience of living with blindness.» (Blanton Museum of Arte [website])

Entre o conjunto de obras apresentadas em Lisboa, destacou-se igualmente o conjunto fotográfico Todos os Que Caem (2009), no qual Vasco Araújo se retrata a si próprio como um «louco internado» no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, dando vida às interrogações levantadas por Téllez (Mais Que a Vida. Vasco Araújo, Javier Téllez [caderno de exposição], 2010, p. 3).

A exposição foi acompanhada pela publicação de um catálogo, editado pela FCG, que conta com uma apresentação assinada por Teresa Gouveia, administradora da Fundação, e com um breve ensaio da autoria de Isabel Carlos, curadora da exposição.

Na programação paralela à mostra, às habituais visitas temáticas à exposição, organizadas pela equipa do Serviço de Educação do CAM e pela curadora, somou-se um ciclo de cinema na Sala Polivalente do CAM. Comissariado por João Mário Grilo, ensaísta e cineasta português, o evento apresentou 13 filmes sobre a temática expositiva, destacando-se nomes como o do realizador americano Alfred Hitchcock, ou a inclusão de um realizador português, António Reis (Programa, 2010, Arquivos Gulbenkian, ID: 251602).

Depois de ter sido apresentada em Lisboa, a exposição viajou para Espanha, onde esteve patente no Museo de Arte Contemporánea de Vigo, entre setembro de 2010 e janeiro do ano seguinte.

Joana Atalaia, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

O Rinoceronte de Dürer

Javier Téllez (1969-)

O Rinoceronte de Dürer, 2010 / Inv. IM32

Hereditas

Vasco Araújo (1975-)

Hereditas, Inv. IM28

O Rinoceronte de Dürer

Javier Téllez (1969-)

O Rinoceronte de Dürer, 2010 / Inv. IM32


Eventos Paralelos

Ciclo de cinema

Cinema e Mentes (13x) Mais que a Vida

26 mai 2010 – 25 ago 2010
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna – Sala Polivalente
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

Encontros ao Fim da Tarde

mai 2010 – jul 2010
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

Domingos com Arte

mai 2010 – set 2010
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

Uma Obra de Arte à Hora do Almoço

mai 2010 – jul 2010
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

[Mais que a Vida. Vasco Araújo, Javier Téllez]

7 jul 2010
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Vasco Araújo (à esq.) e Teresa Gouveia (à dir.)
Isabel Carlos

Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00625

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém lista de obras, projeto expositivo, correspondência de caráter organizativo, entre outros. 2008 – 2010

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00626

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência e documentação referente às filmagens do filme de Javier Téllez, «O Rinoceronte de Dürer». 2009 – 2010

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 8463

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 2010

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 8462

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 2010


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