O Perfume das Maçãs. Obras de Arshile Gorky

Exposição dedicada ao artista arménio Arshile Gorky (1904-1948), que pretendeu assinalar o centenário do nascimento do artista. Comissariada por Ana Vasconcelos, esta mostra exibiu um conjunto de 41 desenhos, quatro gravuras, sete pinturas e três pequenas esculturas, pertencentes ao sobrinho do artista.
Exhibition dedicated to Armenian artist Arshile Gorky (1904-1948) marking the centenary of the artist’s birth. Curated by Ana Vasconcelos, the show included a selection of 41 drawings, four prints, seven paintings and three small sculptures, all of which belonged to the artist’s nephew.

A exposição realizada pelo Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAMJAP) pretendeu assinalar o centenário do nascimento do artista arménio Arshile Gorky (1904-1948). Intitulada «O Perfume das Maçãs», foi comissariada por Ana Vasconcelos e Melo, curadora do CAMJAP.

A exposição visou uma nova apresentação do conjunto de obras à data em depósito na Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) e propriedade da Eastern Diocese of the Armenian Church of America. Anteriormente, este conjunto de obras havia pertencido a Karlen Mooradian, sobrinho do artista, sendo constituído por 41 desenhos, quatro gravuras, sete pinturas e três pequenas esculturas de modelos de charruas arménias.

Arshile Gorky é um dos mais reconhecidos artistas do século XX, considerado uma figura seminal no desenvolvimento do Expressionismo Abstrato. Nasceu na Arménia, mas mudou-se em 1920 para os Estados Unidos da América, onde, a partir de 1924, viveu e trabalhou em Nova Iorque. Nesses anos, teve aulas e frequentou galerias de arte, interessado em conhecer os mestres modernos europeus. Durante a década de 1940, Gorky entra em contacto com vários artistas surrealistas (então exilados da Europa durante a guerra). Estimulado pelos processos criativos do Surrealismo (em especial, a pintura automática e impulsiva), Gorky desenvolveu rapidamente um estilo bastante pessoal, pelo qual viria a ser conhecido. O seu trabalho da década de 40 aponta claras referências a Joan Miró e Wassily Kandinsky.

Dessa forma, as pinturas e desenhos de Gorky ilustram formas biomórficas e mutantes, coloridas com cores vibrantes e elementos abstratos, delineados por uma linha dinâmica e energética. Nas palavras da curadora Ana Vasconcelos: «Gorky desenha os contornos de várias formas. O traço a negro, fino, rápido, irregular, é muito característico dos seus desenhos desta época, revelando como Gorky aprendeu a libertar a mão com a prática surrealista do desenho automático.» (Vasconcelos, «Arshile Gorky», 2010)

A coleção de Karlen Mooradian havia já sido pretexto para se realizar, com organização do CAMJAP, três outras exposições dedicadas a Arshile Gorky (em 1984, 1991 e 1996). Por ocasião da mostra patente na Fundação em 1984, são adquiridas três obras do artista à Coleção Mooradian, que integraram assim o acervo do Museu Gulbenkian: a pintura Garden of Wish Fulfilment (1944) e dois desenhos, Vale of the Armenians (1944) e Untitled (1947).

Com um elevado número de desenhos, a Coleção Mooradian testemunha uma grande variedade de estilos de desenho de Gorky, permitindo percorrer o seu património artístico. Ana Vasconcelos enunciou esse legado e influências: «[…] desde a esfera mais privada, que incluía desenhos de cartões de boas-festas e esboços de memorabilia arménia destinados a Karlen […], a desenhos preparatórios de pintura ainda figurativa […] e a inúmeros desenhos da sua fase de aprendizagem, onde podemos ver, sobretudo, a presença de Picasso […]. Um conjunto, igualmente diversificado, de desenhos abstractos leva-nos dos coloridos Companheiros de Juventude, com evidente influência de Miró, à evocação de mitos, paisagens e citações arménias […] que, nalguns casos, constituem estudos para pinturas de maiores dimensões […]. Nestes desenhos, com a supressão dos campos de cor da pintura, surgem destacadas diversas formas – as “formas híbridas” de Breton – traçadas a negro, em linhas nervosas e quebradiças, pontuadas por raras manchas monocromáticas que surgem como “plumas” […] muito características de Gorky neste período.» (O Perfume das Maçãs, 2003)

De acordo com curadora, o objetivo da exposição seria «chamar de novo a atenção do público português para este notável artista, cujo trabalho impulsionou de forma decisiva o Expressionismo Abstracto Americano do pós-Guerra e a chamada Escola de Nova York» (Ibid.).  A par desse objetivo, a curadora sublinha ainda o papel de Arshile Gorky como «um artista muito carismático, sendo o seu trabalho uma referência incontornável para vários artistas americanos de grande talento, como por exemplo Willem de Kooning, que se considerava seu discípulo» (Ibid.).

Assim, o projeto expositivo foi constituído pela Coleção Mooradian, pelas três obras pertencentes à coleção da FCG, e incluiu também quatro guaches dos modelos das pinturas murais executadas em 1936 para o aeroporto de Newark. Estes guaches foram realizados por Arshile Gorky ao abrigo do Emergency Relief Bureau, destinado aos artistas particularmente afetados pelos anos da depressão económica nos EUA.

A par das obras de Gorky, foram apresentados alguns dos mais recentes estudos publicados sobre o artista. Nesse sentido, estiveram disponíveis ao público os catálogos de duas das anteriores exposições de Arshile Gorky, editados pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Susana Neves foi a autora das atividades complementares da exposição, que incluíram visitas guiadas e o ateliê para crianças «A Árvore dos Desejos».

Editado pelo CAMJAP, o folheto da exposição inclui o texto da curadora Ana Vasconcelos e uma análise da vida e obra de Arshile Gorky. A publicação contém também a reprodução da obra Garden of Wish Fulfilment e a programação detalhada das atividades associadas.

Num texto que preparou para o catálogo da exposição – que todavia não viria a ser publicado –, o então diretor do CAMJAP, Jorge Molder, sublinha a necessidade de se voltar a apresentar a coleção de obras de Gorky na Fundação: «Se se pode afirmar que três destas quatro exposições partem do mesmo corpo de trabalhos e são sob este ponto de vista uma repetição, tal em nada diminui a sua importância e o seu propósito. Visa-se com esta repetição acrescentar a presença indubitavelmente desejável deste grande artista a um público que tem vindo sempre a aumentar. Por outro lado, a capacidade de aprofundar essa presença é também agora maior. E, sobretudo, são sempre boas as razões para visitarmos um amigo.» (Molder, Texto avulso, 2003, Arquivos Gulbenkian, ID: 175572)

Sobre a exposição, referiu José Luís Porfírio: «Esta pequena mostra sem catálogo (remete para os anteriores), mas com uma bem informada e bem pensada folha de sala […], não tem nem intenção nem possibilidade de ser completa […]. Esta exposição, útil e despretensiosa, funciona enquanto complemento temporário ao discurso da exposição permanente do CAM, mostrando alguns dos complexos fios que tecem uma obra singular.» (Porfírio, Expresso, 21 jun. 2003, p. 39)

Joana Brito, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Garden of Wish Fulfillment

Arshile Gorky (1904-1948)

Garden of Wish Fulfillment, Inv. 85PE69

Sem título (Paisagem da Virgínia)

Arshile Gorky (1904-1948)

Sem título (Paisagem da Virgínia), Inv. 85DE139

Vale dos Arménios

Arshile Gorky (1904-1948)

Vale dos Arménios, Inv. 85DE138


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

[O Perfume das Maçãs. Obras de Arshile Gorky]

abr 2003 – jun 2003
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede
Lisboa, Portugal

Publicações


Documentação


Imprensa


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