Materiais de Construção

Exposição dos artistas Markus Raetz (1941-2020), Michelangelo Pistoletto (1933) e Pieter Laurens Mol (1946), organizada pelo Centro de Arte Moderna. A exposição contou com a curadoria de Jorge Molder e foram apresentadas obras em pintura, desenho, fotografia e instalação.
Exhibition of work by artists Markus Raetz (1941), Michelangelo Pistoletto (1933) and Pieter Laurens Mol (1946) organised by the Modern Art Centre. Jorge Molder (1947) curated the show, which featured paintings, drawings, photography and installation works.

Em 1998, por iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), realizou-se a exposição coletiva dos artistas Markus Raetz (1941-2020), Michelangelo Pistoletto (1933) e Pieter Laurens Mol (1946), exibida na Galeria de Exposições Temporárias (piso 1) e no Hall do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAMJAP). Jorge Molder, então diretor do CAMJAP, assegurou a curadoria da exposição.

Desde os anos de 1960 que o holandês e artista conceptual Pieter Laurens Mol trabalha com fotografia, filme, pintura, desenho, escultura e instalação. Como refere Jorge Molder, o artista «desenvolve uma obra que assume a forma de uma procura de sentido para a sua condição e para o universo em que habita (em sentido estrito e em sentido amplo)» (Materiais de Construção, 1998, p. 10).

Michelangelo Pistoletto nasceu em Itália, expondo regularmente desde 1955. Em 1961-62 realizou uma das suas séries mais conhecidas, Mirror Paintings, obra fundamental na sua produção artística e teórica subsequente. O seu trabalho foca-se essencialmente na reflexão e unificação dos conceitos de «arte» e «vida», aliados à pesquisa da noção de «arte total». Segundo Molder, Pistoletto «é um artista que procura e encontra o mundo como vontade de reflexão […], nele, sempre se desencadeia um movimento de confrontação: uma espécie de lugar-limite onde os afins e os opostos traçam o inventário de qualidades ou valores complementares» (Materiais de Construção, 1998, pp. 9-10).

A partir de 1970, o artista suíço Markus Raetz começa a trabalhar em escultura, produzindo obras que exploram a natureza e os limites da perceção humana e situações de ilusão. Nas palavras do curador, «a obra de Raetz desenvolve-se numa linha peculiar que articula a observação e a atenção num resultado sempre complexo e refinado e que nos impressiona por nele encontrarmos alguma coisa que não acharíamos sem o auxílio do artista» (Ibid., p. 9).

As peças apresentadas na exposição foram cedidas por diversas coleções internacionais, tendo sido algumas delas feitas propositadamente para a mostra. Foram reunidos trabalhos em pintura, desenho, fotografia e instalação, datados entre 1961 e 1997.

O projeto expositivo apresentou obras dos três artistas «dificilmente aproximáveis numa primeira abordagem», uma vez que «quer a sua prática, quer os seus resultados, configuram universos, certamente não opostos, mas seguramente independentes» (Ibid.).

Todavia, como esclarecem os diretores do CAMJAP, no prefácio que assinam no catálogo da exposição: «Para lá das diversidades, encontramos três autores cuja obra assenta num material comum: uma poderosamente expressiva capacidade de materializar algo que a mente, com segurança, anteviu.» (Ibid., p. 10)

Assim, embora com origens diferentes, os três artistas possuem em comum a preocupação de tornar visíveis os processos mentais: as ilusões de Markus Raetz são uma revelação do funcionamento da perceção, com as suas limitações, enganos e convenções; o trabalho de Michelangelo Pistoletto utiliza como elemento central o espelho (real ou metafórico), jogando com o duplo sentido do termo «reflexão»; os objetos e fotografias de Pieter Laurens Mol, na sua relação simbolista, constituem um conceptualismo meditativo e metafísico.

O crítico de arte João Pinharanda considerou que a exposição, além de reunir artistas com percursos independentes, abria sobretudo possibilidades de leitura até então não consideradas. «Neste sentido esta exposição […] [corresponde] a uma mesma linha de intervenção: capaz de problematizar a arte contemporânea a partir do interior dos processos criativos e na aceitação da irredutibilidade das obras a um carácter ilustrativo.» Pinharanda acrescenta que «num eixo (ascendente ou descendente) que vai de Itália à Holanda passando pela Suíça, seguimos percursos que não são eles também redutíveis a considerações historicistas» (Pinharanda, Público, 25 set. 1998).

Sobre o mesmo aspeto, Molder refere que, por mais importante que seja qualquer questão passível de reunir as obras destes três artistas, as peças selecionadas são, como todas as obras, «radicalmente irredutíveis a qualquer formulação teórica, porque se trata de obras de arte e não de objetos susceptíveis de satisfazer a demonstração de qualquer argumento» (Materiais de Construção, 1998, p. 11).

Nesse sentido, a escolha dos artistas, «não sendo ditada por um saber ou para a verificação de um ponto de vista, tem de ser sujeita irremediavelmente ao juízo da arbitrariedade» (Ibid., p. 17). Apesar de apoiado no critério da arbitrariedade, Jorge Molder fundamenta a sua escolha tendo em conta um traço comum aos artistas e trabalhos: «[…] a sua associação a uma ideia de artista que não se caracteriza por uma prática específica, mas por uma pluralidade de práticas que adequam a ideia ao resultado» (Ibid.). A arbitrariedade seria talvez o «critério menos arbitrário de selecção», porque «removidas as legitimações e os diferentes justificativos, as obras ficam, certamente, mais incólumes e as relações entre elas, menos constrangidas, podem ocasionar encontros, porventura, felizes» (Ibid., p. 18.).

De acordo com Leonor Nazaré, na crítica que dedicou à exposição, «se, para além da ideia que fundou o seu encontro nesta exposição, fosse necessário encontrar um ponto comum aos trabalhos dos três artistas, ele seria o das modalidades de aparecimento/desaparecimento potenciais das coisas e seres em função do momento que lhes define a materialidade e a manifestação. As obras dão a ver o seu percurso na procura e, às vezes, no abandono progressivo da emergência» (Nazaré, Arte Ibérica, n.º 20, dez.-jan. 1998-1999, p. 75).

Leonor Nazaré diz ainda: «Estaríamos assim a colocar-nos do lado da decisão da forma, da justeza do seu peso e da sua medida. Essa decisão é particularmente subtil nas propostas de Markus Raetz, adquire contornos de imposição quase incontornável no caso de Pistoletto e manifesta, com assunção da dificuldade, o confronto com leis matéricas de peso e gravidade em Peter L. Mol.» (Ibid.) A autora conclui a análise referindo: «Independentemente dos vários materiais em que, concretamente, as obras dos três artistas se resolvem, Mol poderia ser colocado mais próximo da essência da pintura, pela sua espessura material; Raetz, do desenho de escultor, pela leveza e singularidade elementar dos meios; Pistoletto, da arquitectura, pela sua retórica espacial. Mas, deixando a área da decisão da forma […] perceba-se então que a da decisão da ideia e a dos materiais de construção mental lhe são congéneres, e que esse ponto em que se encontram as duas decisões é aquele em que a arte se torna um campo único de actuação e expressão.» (Ibid., p. 76)

Foram organizadas visitas guiadas à exposição, orientadas por Rodrigo Carvalho Silva. A título de curiosidade, recolhemos a carta de uma participante destas visitas, Delfina Coelho, que felicitou a iniciativa: «Seria de grande injustiça não deixar o meu sincero apreço pelo extremamente interessante e elucidativo trabalho do monitor da visita guiada à exposição “Materiais de Construção”, Rodrigo Carvalho Silva. […] (Vou recomendar – a exposição e guia).» (Carta de Delfina Coelho, 1998, Arquivos Gulbenkian, CAM 00411)

O catálogo da exposição, de edição bilingue (português/inglês), foi editado pela FCG e inclui reproduções de algumas das obras expostas, o prefácio dos diretores do CAMJAP, o texto do comissário da exposição e a biografia dos artistas.

A exposição alcançou um número bastante elevado de visitas, como foi assinalado por Ana Gomes da Silva, produtora do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão da FCG, numa carta que endereçou ao artista Pieter Laurens Mol: «Concerning the exhibition I have to tell you that it has been a great success with a lot of visitors.» (Carta de Ana Gomes da Silva para Pieter Laurens Mol, 5 nov. 1998, Arquivos Gulbenkian, ID: 145822)

Joana Brito, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

[Materiais de Construção]

1998
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna – Sala de Exposições Temporárias
Lisboa, Portugal
1998
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna – Hall
Lisboa, Portugal
1998
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna – Galeria Piso 1
Lisboa, Portugal

Publicações


Fotografias


Multimédia


Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00411

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém pedidos de cedências e seguros das obras e correspondência interna. 1998 – 1999

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00412

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém documentos relativos à montagem das obras para a exposição e orçamentos. 1997 – 1999

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00413

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém formulários de empréstimo de obras, correspondência interna, textos para o catálogo e recortes de imprensa. 1998 – 2000

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 109471

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG-CAMJAP, Lisboa) 1998


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