Senhor Cinco por cento

Durante décadas, as potências europeias ocidentais, especialmente a França, tinham explorado a sua posição como credores da dívida otomana para impor a sua vontade ao chamado “homem doente da Europa”.

Todas as potências europeias tinham os olhos postos em partes do Império Otomano, e muitas já se tinham apropriado de grandes pedaços de território. Quando Gulbenkian funda o Banco Nacional da Turquia, no seguimento da Revolução dos Jovens Turcos (1908), o seu objetivo era criar uma fonte de financiamento verdadeiramente internacional para a modernização do Império Otomano, incluindo o desenvolvimento das suas reservas petrolíferas e de outros recursos naturais.

Com o objetivo de explorar as reservas dos riquíssimos campos petrolíferos iraquianos, em 1912 o Banco Nacional da Turquia cria a Turkish Petroleum Company, detida pela Royal Dutch-Shell (25%), pelo Banco Nacional da Turquia (35%), pelo Deutsche Bank (25%) e por Calouste Gulbenkian (15%).

No início de 1914, a Turkish Petroleum Company (TPC) sofre uma reestruturação. A Anglo-Persian Oil Company (atual BP), grande concorrente da Royal Dutch-Shell, reivindicava a concessão petrolífera iraquiana, e tinha um forte apoio do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha. Para apaziguar a Anglo-Persian, Gulbenkian acedeu na redução da sua quota de 15 para 5%. Uns meses mais tarde, rebentava a Primeira Guerra Mundial e a TPC ficou em estado de suspensão.

Calouste Gulbenkian - Egito, Templo Edfu, 1930

Calouste Gulbenkian – Egito, Templo Edfu, 1930

O final da Primeira Guerra Mundial arrasta consigo a dissolução definitiva do Império Otomano, e levou à transferência da quota detida pelo Deutsche Bank (25%) para uma empresa francesa criada especialmente para este fim, a Compagnie Française des Pétroles (CFP, hoje Total). Os franceses tinham demorado a reconhecer a importância estratégica do petróleo, e Gulbenkian continuou a ser consultor das autoridades francesas e da CFP sobre a forma de lidar com os seus rivais. Entretanto, os riquíssimos campos de petróleo iraquianos acabariam dentro do novo mandato britânico do Iraque, onde a Turkish Petroleum Company conseguiu assegurar uma concessão em 1925.

Calouste Gulbenkian voltaria a desempenhar um papel fundamental nas negociações para o estabelecimento de um consórcio americano, que se juntou à Turkish Petroleum Company à luz do chamado “Acordo da Linha Vermelha” de 1928 e que acabava com o sistema quase imperial pré-1914 em que a Grã-Bretanha, a França, a Rússia e outras potências dividiam o Médio Oriente em “esferas de interesse”. A célebre linha traçava as fronteiras do antigo Império Otomano e os signatários acordaram que não levariam a cabo intervenções dentro desta linha sem ser através da sua “joint venture” – a Turkish Petroleum Company. Calouste Gulbenkian assegurava assim que as grandes potências agiriam em conjunto de forma organizada, e conseguia preservar a sua participação de 5%. Embora tenha continuado a procurar estabelecer outras parcerias internacionais, nomeadamente entre a França, Pérsia e a União Soviética, a “Linha Vermelha” foi o seu maior êxito.

Graças à sua persistência, capacidade negocial e flexibilidade para acomodar novos interesses e adaptar-se a novas situações, foi ganhando um respeito considerável nos meios ligados à indústria petrolífera. No resto do mundo, era conhecido simplesmente como “Senhor Cinco por cento”, um dos homens mais ricos do mundo.