Onde começa a leucemia

Dados reveladores para conhecer uma doença rara e agressiva

Identificadas as células que conseguem manter o desenvolvimento de células imunitárias no timo e que estão na origem de um tipo particular de leucemia, muito antes da manifestação da doença. O estudo publicado na revista Cell Reports revela que estas células precursoras garantem que o timo consegue continuar a produzir células T, mesmo em condições em que esta função deveria estar comprometida. Mas este processo tem consequências graves: o aparecimento de células anormais, que acumulam erros e marcam o início do desenvolvimento de leucemia.

O timo (órgão situado por cima do coração) é responsável pela produção de células T, um tipo de células do sistema imunitário que nos protege de infeções e do cancro. Em condições normais, as células T desenvolvem-se a partir de células precursoras geradas na medula óssea, que viajam para o timo para maturar. “Ao estudarmos o timo de ratinhos, descobrimos que, se as células precursoras que vêm da medula óssea estiverem comprometidas, algumas células T precursoras conseguem manter-se no timo por autorrenovação durante períodos prolongados de tempo. Isto permite que a diferenciação de células T continue a ocorrer no timo de forma autónoma”, revela Vera Martins, investigadora principal do IGC e líder da equipa que conduziu o estudo.

Estudos anteriores desenvolvidos pela equipa de investigadores mostraram que o desenvolvimento das células T depende da competição celular: células precursoras jovens, que estejam no timo há pouco tempo, competem com células percursoras mais velhas, substituindo-as. Se a competição celular falha, dá-se o aparecimento de leucemia. “Propusemo-nos determinar quais as células que conseguem manter o desenvolvimento das células T numa situação em que a competição falha. E não só conseguimos identificar essas células, que são raras, como demonstrámos que estas condições potenciam o aparecimento de células anormais, que estão na origem da leucemia. Isto é importante para conseguirmos entender a forma como células outrora saudáveis decidem mudar os seus programas e causar leucemia”, explica Vera Martins.

Segundo Rafael Paiva, primeiro autor do estudo, “a leucemia que se desenvolve nos ratinhos é muito semelhante à doença que se manifesta em humanos, o que os torna num modelo essencial para estudar as causas desta doença, algo que não pode fazer-se nem diretamente em humanos, nem em sistemas mais simples de culturas de células.” Este estudo resulta de vários anos de investigação da equipa e engloba metodologia de ponta, que permite aceder à informação de células individuais entre milhares analisadas. “Esta tecnologia foi o que nos permitiu identificar um grupo de células muito reduzido e aberrante que nunca seria visível entre os milhões de células que permanecem normais no timo.”

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