Encontro de cientistas dá origem a uma nova era no combate às infeções

Investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência e outros especialistas internacionais unidos no estudo da tolerância a doenças infeciosas - e tudo começou num retiro na Serra da Arrábida organizado por Miguel Soares e Thiago Carvalho.
Equipa reunida no Convento da Arrábida em 2010, para discutir a tolerância à doença © Miguel Soares, 2021

Quando somos expostos a microrganismos infecciosos (patogénicos), o nosso sistema imunitário atua com o intuito de os eliminar. Para além desta vertente reativa, possuímos também um conjunto de estratégias que limitam os danos provocados por estes agentes invasores, sem os afetarem diretamente. Esta estratégia de defesa chama-se “tolerância à doença” e é um tópico de investigação relativamente recente.

Apesar de ser um fenómeno bem caraterizado em plantas, o conceito de tolerância à doença em animais foi formalmente introduzido apenas em 2007, quando Lars Råberg e Andrew Read demonstraram que alguns ratinhos eram mais tolerantes ao parasita que causa a malária que outros, apesar de serem igualmente capazes de o eliminar. Quando se deparou com estes resultados, Miguel Soares, imunologista e investigador principal do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), apercebeu-se de que os estudos que tinha vindo a conduzir em malária e sépsis apontavam também nessa direção.

Anteriormente à publicação de Råberg e Read, Miguel tinha reunido evidência de que a reprogramação do metabolismo é determinante na forma como reagimos a situações de ameaça, sejam elas transplantes de órgãos ou infeções. Inclusive, a equipa liderada pelo investigador demonstrou que a expressão de um “gene protetor” por parte do hospedeiro controlava a patogénese da malária assim como da sépsis causada por infecções bacterianas. Estes resultados estavam em perfeita conformidade com a existência de mecanismos de tolerância à doença em animais.

Com o intuito de explorar este tema promissor, Miguel Soares e Thiago Carvalho organizaram, em 2010, um encontro que reuniu mais de 25 imunologistas, biólogos e ecologistas. Neste retiro, no Convento da Arrábida, vários investigadores do IGC e outros especialistas internacionais deram, em conjunto, os primeiros passos em direção ao que pode ser uma nova era no combate às infeções.

O investigador principal do IGC e vários outros cientistas, como Janelle Ayres, do Instituto Salk, David Schneider, da Universidade de Stanford, e Ruslan Medzhitov, da Escola de Medicina de Yale, relembram agora, num artigo publicado na Science Notes, os detalhes deste encontro pioneiro e as questões discutidas que, ainda hoje, moldam as suas investigações.

Segundo os investigadores que estiveram presentes, neste encontro tornou-se evidente que a tolerância do organismo aos agentes patogénicos pode ser tão ou mais importante que a ação do sistema imunitário para determinar a susceptibilidade à doença e o resultado das infeções. Como tal, explorar a interação entre estas duas frentes de defesa poderá vir a transformar a forma como tratamos as doenças infeciosas.

Unidos por um propósito comum, os investigadores comprometeram-se a trazer esta discussão para fora do convento e a trabalhar em conjunto para expandir e complementar o conhecimento nesta nova área de investigação. E, de facto, as suas ideias estão já a trazer frutos. Para Miguel Soares, em particular, o estudo destes processos já lhe permitiu fazer avanços importantes na compreensão da malária e da sépsis.

 

Artigo Science Notes
Atualização em 30 novembro 2021

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