Olhar para África de novo

Cláudia Lopes, historiadora e investigadora de arte contemporânea, reflete sobre o processo de descolonização do pensamento, destacando alguns artistas e obras que se debruçam sobre o passado colonial e as suas consequências.
Grada Kilomba, Fragmento do vídeo «Illusions Vol. I, Narcissus and Echo», 2017. Inv. 18IM90

Existe ainda, sobre o continente africano, uma perceção romantizada e associada ao exotismo, uma visão perpetuada pela memória colonial, que demonstra a manutenção de um discurso estereotipado. A persistência deste tipo de narrativas evidencia a continuidade de discursos baseados numa visão centrada em realidades vivenciadas na Europa ou América do Norte e a conservação de estruturas coloniais, comprovando-se a necessidade de um processo de descolonização do pensamento.  

Este processo passa por desconstruir a suposição de que o Ocidente moderno é a raiz central da consciência e da herança cultural africana: África não é uma extensão do Ocidente[1]. Trata-se de olhar para aquilo que, do passado, continua a afetar o presente – as histórias e as memórias reprimidas do colonialismo – e de o incluir no debate público.

No âmbito da arte tem-se vindo a verificar, ao nível da produção artística e também da programação de instituições culturais e de plataformas de investigação, uma busca por reflexões críticas sobre a herança colonial e sobre o seu legado no presente, no sentido de se promover uma prática artística mais inclusiva.

 

Maria Lusitana, Fragmento do vídeo «Nostalgia», 2002. Inv. 16IM75

Na produção contemporânea, artistas como Maria Lusitano têm procurado pensar sobre a memória colonial, como acontece na obra Nostalgia. Uma «história audiovisual seletiva» que reúne vários media (filmes super 8, fotografias, postais, telegramas, músicas pop e orientações textuais), narrada por um jovem que se junta à sua família em Lourenço Marques (atual Maputo). Perpassa o seu fascínio por uma metrópole colorida e «paradisíaca»[2], que contrasta com a dureza da guerra nas zonas rurais, como se esta fosse uma realidade distante.

Em Nostalgia, a artista portuguesa procura repensar o excesso de memória, como indica o título da obra, evidenciando simultaneamente uma amnésia seletiva expressada pelo silenciamento de histórias e de lembranças do passado colonial consideradas inconvenientes, como a violência da guerra. Ao relembrar o passado, Maria Lusitano permite o revisitar das memórias reprimidas, enfrentando e ameaçando as narrativas hegemónicas.

 

Ângela Ferreira, «For Mozambique [Model n.º 3 for propaganda stand, screen and loudspeaker platform celebrating a post-independence Utopia]», 2008. Inv. 09E1607
Ângela Ferreira, «For Mozambique [Model n.º 3 for propaganda stand, screen and loudspeaker platform celebrating a post-independence Utopia]», 2008. Inv. 09E1607

 

De forma algo semelhante, em For Mozambique [model n.º 3 for propaganda stand, screen and loudspeaker platform celebrating a post-independence Utopia], a artista portuguesa Ângela Ferreira, ao confrontar o que havia sido esquecido, procura recuperar e reenquadrar discursos culturais do passado, orientando-os para a sua reconstrução no presente. Com uma estrutura em madeira, inspirada nos antigos modelos da agitprop soviética, Ângela Ferreira apresenta vídeos e documentos relativos aos primeiros anos da independência moçambicana[3], construindo um espaço marcado pelo cruzamento de linguagens, estilos e histórias que evoca uma ligação entre a história da arte ocidental e a história política e social africana. Neste sentido, cria momentos espaciais e temporais, associando o presente e a recuperação de imagens e processos criativos e revolucionários do passado.

A ideia de repensar as questões do passado colonial está também presente na instalação Illusions Vol. I, Narcissus and Echo de Grada Kilomba. A artista reconta o mito grego de Narciso e Eco, desconstruindo-o gradualmente e transformando-o numa analogia a uma sociedade que não resolveu o seu passado colonial e que é incapaz de ver além do seu próprio reflexo. Ao recorrer ao vídeo, à performance, ao som e à narração, Grada Kilomba retoma a tradição da oralidade da África Ocidental, fundamental para a preservação do conhecimento durante séculos, explorando também o poder de elementos culturais e tradições da diáspora africana (a oralidade, a produção musical e performativa).

 

 

Já na instalação Hidden Pages, Stolen Bodies, de António Ole, o artista angolano aborda um passado mais sombrio, recontando a história de vidas negligenciadas, marcada pelo trabalho forçado sob o domínio colonial no final do século XX. As imagens e os objetos desta obra não são associados a indivíduos específicos: são corpos sem rosto, sem identidade que, para António Ole, demonstram a falta de memória da sociedade sobre um passado ignorado e anónimo, mas simultaneamente procuram reescrever as páginas desconhecidas da história angolana. O revisitar das páginas ocultas da memória cultural da época colonial é motivado pelo desejo de esboçar novas histórias, como meio de repensar o presente e o futuro, procurando lançar um outro olhar sobre a arte contemporânea africana e expressando realidades e discursos que muitas vezes são invisíveis ou subrepresentados no cenário artístico internacional.

O trabalho destes artistas foca-se no passado, mas procura pensar o presente, orientando-se para o futuro e demonstrando como a arte pode ser um mecanismo para a criação de novas linguagens, para contar novas histórias e para subverter narrativas dominantes.

 

Cláudia Lopes
Historiadora e investigadora de arte contemporânea


[1] Achille Mbembe, Decolonizing knowledge and the question of the archive, 2015.

[2] Ana Cristina Cachola, «Escrever imagens em nome da guerra em Nostalgia de Maria Lusitano: Quando a colónia mostra a metrópole», Comunicação e Cultura, 2011, pp. 151-169.

[3] Márcia Oliveira, «Considerações sobre o arquivo em práticas artísticas pós-coloniais. Uma reflexão a partir da obra de Ângela Ferreira», Revista Faces de Eva, FCSH-UNL, 2018, pp. 107-114.

Atualização em 29 novembro 2021

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