Ana Hatherly: alguns momentos

Jorge Molder, A Partir de «Rotura» de Ana Hatherly, 1977. Fotografia a preto e branco sobre papel. Obras em depósito na Coleção Moderna

Ana Hatherly conheceu-me numa altura em que ainda não me era possível conhecê-la.

Mais tarde reencontrei-a e retive a imagem de uma figura feminina deslumbrante e distante (somente muito depois encontraria uma maneira de dizer o que é que ela me fazia lembrar: um personagem dos filmes do Douglas Sirk, mas só conheci este mundo ainda muito mais tarde) e com uma voz muito próxima de algo que também, na altura, eu não poderia descrever: tinha um som que não se aproximava de nada nem de ninguém. Fumava. Eu andava então nos começos da escola primária

Mais tarde reencontrei-a, então já avançado na adolescência. Já sabia que escrevia e já lera mesmo alguns dos seus livros – Um Ritmo Perdido, A Dama e o Cavaleiro, Sigma (descobri aí o João Vieira) e O Mestre. Sabia mais meia dúzia de coisas sobre pessoas que escreviam, o que já chegava para manter pequenas conversas. Visitava então a sua casa no Bairro Azul onde, à noite, por vezes, se juntavam muitos das letras; alguns que mais tarde se tornaram meus mestres e amigos. Tinha então conversa para me manter silencioso e de vez em quando lançar algumas tiradas típicas da idade.

Eram os tempos da Quadrante, onde mostrou então os seus novos modos de poesia: «O caracol e a parca têm cornos, vês, eu não te dizia», Leonor…, o tempo das Tisanas. Mas é também o tempo do cinema e também o tempo dos poemas que se tornam desenhos e dos desenhos que se tornam poemas. Mas confesso ainda hoje a dificuldade em dizer do que se trata.

Desde aí deixa de haver reencontros para haver um encontro continuado com mais ou menos aproximações.

Juntou-se então ao meu mundo a Filomena, que também a tinha encontrado em criança e que retinha dela uma recordação muito parecida com a minha. 

Foram então os tempos da mudança; da Judite da Cruz, e depois da Revolução, dos Mapas e da Rotura.

Ana Hatherly, «Auto-retrato», c. 1971. Ponta de feltro e colagem sobre postal. Coleção Moderna
Ana Hatherly, «Auto-retrato à la Matisse», 1971. Ponta de feltro sobre postal. Coleção Moderna

Seguiram-se tempos mais afincadamente escolares: seguiu com dedicação plena  os estudos que a tornaram uma figura académica (num bom sentido) reputada. Tornou-se grande esperta na poesia barroca: talvez o retomar na poesia o ritmo perdido na música, quando, ainda jovem, tristes fados a afastaram do canto, que fora a sua grande escolha na vida.

Nesses anos todos dera-nos estudos, imagens e poemas, por vezes difícil de dizer onde começavam uns e onde acabavam os outros.

Sempre nos fomos encontrando ao longo dos dias, dos trabalhos e dos momentos, que partilhámos com felicidade.

Enquanto andei pelo Centro de Arte Moderna organizei três exposições da sua obra: em 1992, – Ana Hatherly – obra visual 1960/1990; em 2000, – Ana Hatherly – Hand Made – obra recente; em 2005, Ana Hatherly — Desenho e Pintura sobre Papel, Anos 60 e 70

Depois houve as Fibrilações.

Depois encontrámo-nos apesar.

E depois não nos reencontrámos mais.

 

Texto de Jorge Molder
Ex-diretor do Centro de Arte Moderna

Atualização em 18 maio 2021

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