The Works of Geoffrey Chaucer

Em Junho de 1893, o boletim da Bibliographic Society, de Londres, publicou um texto onde William Morris (1834-1896) explicava logo no início o que considerava ser o “livro ideal”: aquele que não era constrangido por exigências comerciais, mas “com o qual podemos fazer o que quisermos, adequando a sua natureza, como livro, às exigências da Arte”.

Em Junho de 1893, o boletim da Bibliographic Society, de Londres, publicou um texto onde William Morris (1834-1896) explicava logo no início o que considerava ser o “livro ideal”: aquele que não era constrangido por exigências comerciais, mas “com o qual podemos fazer o que quisermos, adequando a sua natureza, como livro, às exigências da Arte”. E continuava, mencionando os três aspectos essenciais no que designava como “arranjos arquitectónicos” do livro, a saber: as páginas deviam ser claras e fáceis de ler; as letras deviam ser bem desenhadas e com o espaçamento certo entre cada uma e as margens – mais ou menos generosas – deviam ser proporcionais à mancha do texto; referia ainda o tipo de papel, defendendo o papel fabricado manualmente; protestava contra a ideia assente de que apenas os livros de pequenas dimensões permitiam uma leitura confortável e terminava com a ornamentação – entendida como ilustração da página -, afirmando que o livro ornamentado não era, “talvez, absolutamente necessário à vida do homem, mas proporcionava-lhe um tal prazer interminável”, que devia permanecer como um dos trabalhos mais dignos com que “homens sensatos” se deviam ocupar. Este texto constitui-se como uma espécie de manifesto de intenções de Morris, não só sobre o livro como artefacto, mas igualmente da sua demanda da criação do “livro ideal”, iniciada na década de 1860 sob a inspiração dos manuscritos iluminados do final da Idade Média, e que o levou a fundar, em 1891, a Kelmscott Press, a mais famosa das editoras privadas do século XIX, que produziu até 1898 (dois anos após a morte do seu fundador) 53 livros.

William Morris foi um dos protagonistas dos dois dos movimentos artísticos, – o Arts & Crafts e o Aesthetic Movement -, que marcaram a segunda metade de Oitocentos na Inglaterra vitoriana. Se o primeiro surgiu como reação à industrialização crescente e aos aspectos nocivos que a mecanização acelerada e o capitalismo estavam a provocar na sociedade da época, o Aesthetic Movement surgiu da vontade de um grupo de artistas, que reunia personalidades tão singulares como os pintores Dante Gabriel Rossetti (1828-1882), Edward Burne-Jones (1833-1898) e James Whistler (1834-1903) e o escritor Oscar Wilde (1854-1900), de reagir contra os constrangimentos impostos pelos padrões sociais e a moral vigentes, criando um novo ideal de Beleza. A Kelmscott Press permitiu a Morris e aos amigos que com ele colaboram a materialização de alguns dos conceitos estéticos caros aos dois movimentos. Cada livro criado pela Kelmscott Press era pensado como uma obra de arte, implicando o controlo de cada fase do seu processo de criação: escolha do papel, da tinta, do tipo, do espaçamento entre cada letra, do tamanho das margens…

The Works of Geoffrey Chaucer, publicado em 1896, é considerado o mais belo dos 53 livros da Kelmscott Press e representa a junção perfeita dos ancestrais saberes da arte do livro com técnicas modernas de impressão. Conhecido como o “Kelmscott Chaucer”, foi concebido inteiramente por William Morris, que nele trabalhou durante quatro anos, desenhando as letras capitais, os títulos, a decoração das margens, e escolheu as tintas (foi todo impresso a preto e vermelho) e o papel, falecendo pouco depois de o ter terminado; as 87 gravuras em madeira que ilustram os textos poéticos – The Canterbury Tales, The House of Fame, The Romaunt of the Rose, Troilus and Criseyde, The Parliament of Fowls e The Book of the Duchess – de Geoffrey Chaucer (c. 1343-1400), o primeiro poeta da língua inglesa, foram realizadas a partir dos desenhos de Edward Burne-Jones. Não admira, portanto, que Calouste Gulbenkian, que já possuía na sua colecção de Arte uma pintura de Burne-Jones, desejasse ter na sua biblioteca um dos 425 exemplares de The Works of Geoffrey Chaucer. Este exemplar – que pode ser apreciado, até 20 de outubro, na exposição Tarefas Infinitas – apresenta ainda um pormenor que o torna ainda mais especial, pois trata-se daquele que o coeditor de Morris, F.S. Ellis, ofereceu e dedicou à sua filha pelo aniversário.

TÍTULO/RESP. The works of Geoffrey Chaucer / edited by F. S. Ellis ; ornamented with pictures designed by Sir Edward Burne Jones ; and engraved on wood by W. H. Hooper
EDIÇÃO Now newly imprented
PUBLICAÇÃO [S.l.: William Morris, s.d.] (Middlesex : Kelmscott Press, 1896)
DESCR. FÍSICA [6], 554, [2] p. : il. ; 44 cm
NOTAS Ex. autografado com dedicatória de F. S. Ellis como prenda de aniversário à sua filha Phillis Marion Paine ; edição de 425 exemplares em papel
PROVENIÊNCIA Colecção Calouste Gulbenkian – Documentação
COTA(S) E-LT 2

Atualização em 12 Julho 2017