Rural architecture in the Chinese taste

O fascínio dos europeus pelo Oriente em geral, e pelo Império do Meio em particular, remontará ao final do século XIII, quando as deambulações do mercador italiano Marco Polo pelo continente asiático se tornaram conhecidas através do Livro das maravilhas do mundo. O espanto e a curiosidade que despertaram os relatos e as descrições da corte de Kublai Khan e dos seus súbitos aumentaram no início do século XVI, quando os navegadores portugueses ao serviço de el-rei D. Manuel chegaram ao sul da China, corria o ano da graça de 1513. Com a descoberta do caminho marítimo, primeiro para a Índia e, posteriormente, para todo o sudoeste asiático, os portugueses alteraram os princípios do comércio de objectos de luxo que, durante séculos, chegaram à Europa pela Rota da Seda. Se esses produtos requintados – seda, pedras preciosas, especiarias, porcelanas, mobiliário, tecidos – eram muito apreciados, eram também muito caros porque chegavam em pequenas quantidades, estando, por isso, apenas ao alcance das bolsas mais abastadas. Os mercadores portugueses trouxeram uma espécie de banalização daqueles produtos, que passaram a circular pelo espaço europeu não só em maior número, como também a preços mais acessíveis. Não se pense, porém, que o fascínio pelo Oriente esmoreceu, embora no imaginário dos europeus se misturassem regiões geográficas e culturas tão distintas como as do subcontinente indiano, da Pérsia, da China e do Japão. Pelo contrário, a variedade e o exotismo das formas, cores, texturas e padrões vindos do “mundo de lá” acabaram por originar na Europa a criação de um gosto estético que se estendeu das artes decorativas à arquitectura e à arte dos jardins, e que foi designado por Chinoiserie (a partir do francês “chinois” =chinês). Em termos historiográficos, não existe uma uniformidade de opiniões quanto aos limites temporais da chinoiserie e à sua delimitação conceptual, contudo, pode situar-se entre o século XVI e o final do XVIII. Relativamente a uma definição do termo, segundo o historiador de arte António Filipe Pimentel, “a chinoiserie é, na essência, um produto europeu assente na reinterpretação da arte oriental, a partir de um prisma desfocado, onde a China surge como topos para tudo o que se abriga no continente asiático…”*. Esta moda teve, todavia, impactos diferenciados e foi em países como a França e a Inglaterra, por exemplo, onde mais se generalizou e atingiu o seu maior refinamento, sobretudo na segunda metade de Setecentos.

Publicada em Londres em 1755, com a indicação de ser a terceira edição, com o título geral Rural architecture in the Chinese taste: being designs entirely new for the decoration of gardens, parks, forrests, insides of houses, & c.,…. , esta obra é composta, na verdade, por quatro partes, cada uma com um título e data diferentes: 1750, 1751, 1751 e 1752; a I e a II partes têm um pequeno prefácio e as duas restantes apenas gravuras e respetivas legendas. Sobre a vida do seu autor, William Halfpenny – aliás, Michael Hoare -, a informação é escassa, sabendo-se que publicou o primeiro livro em 1724, que se autodescreveu como “arquiteto e carpinteiro” e que faleceu em 1755. Ao contrário do arquiteto Sir William Chambers (1723-1796), cuja obra Designs of Chinese buildings (1757) foi escrita depois de viajar pelo Oriente, Halfpenny escreveu este e mais dois livros sobre como construir “ao gosto chinês” (em colaboração com o filho John Halfpenny) sem nunca ter saído das ilhas britânicas. Isto não impediu que, como escreveu no prefácio da II parte desta obra, “os seus primeiros ensaios sobre arquitetura chinesa tivessem sido bem recebidos pelo público” encorajando-o a continuar. Na realidade, os escritos de Halfpenny parecem ter sido pioneiros na popularização da Chinoiserie em Inglaterra, até porque eram sobretudo uma espécie de manuais práticos de construção. O exemplar da Biblioteca de Arte pertenceu à biblioteca particular de Calouste Gulbenkian.

 

* “Do Portugal exótico ao exotismo europeu: o fenómeno da chinoiserie em Portugal”. In O exótico nunca está em casa?. Lisboa: Museu Nacional do Azulejo, 2013 ; p. 98.

TÍTULO/RESP. Rural architecture in the Chinese taste : being designs entirely new for the decoration of gardens, parks, forrests [sic], insides of houses &c. on sixty copper plates with full instructions for workmen; also a near estimate of the charge and hints where proper to be erected / the whole invented and drawn by Willm. and Jn. Halfpenny Architects
EDIÇÃO 3rd. ed. with the adition of 4 plates… of roofs for chinese & Indian temples…
PUBLICAÇÃO London : Robert Sayer, 1755
DESCR. FÍSICA [32] p., [64] f. il. : il., estampas ; 21 cm
NOTAS Obra dividida em 4 partes, com títulos e datas distintos: New designs for chinese temples (1750); New designs for chinese bridges (1751); New designs for chinese doors (1751); New designs for chinese gates (1752). Paginação autónoma mas sequencial nas ilustrações. Parte I de William Halfpeny. Contém 64 gravuras, algumas das quais desdobráveis
PROVENIÊNCIA Colecção Calouste Gulbenkian – Documentação
COTA(S) AAT 4

Atualização em 13 Julho 2017