Retrato de Lucie de Sousa Cardoso

Se em 1915 grande parte da Europa vivia mergulhada naquele que foi o primeiro grande conflito bélico à escala mundial do século 20 (Portugal entrou nele em 1916, ao lado da sua velha aliada Inglaterra), em Manhufe, pequena localidade do concelho de Amarante, certamente que os ecos do horror dos campos de batalha apenas se adivinhavam de forma ténue através dos jornais.

Se em 1915 grande parte da Europa vivia mergulhada naquele que foi o primeiro grande conflito bélico à escala mundial do século 20 (Portugal entrou nele em 1916, ao lado da sua velha aliada Inglaterra), em Manhufe, pequena localidade do concelho de Amarante, certamente que os ecos do horror dos campos de batalha apenas se adivinhavam de forma ténue através dos jornais. Foi para a casa familiar de Manhufe que o deflagrar da guerra obrigou Amadeo de Sousa Cardoso a retornar, impossibilitando-o de regressar a Paris, onde residia desde novembro de 1906 para realizar os seus estudos artísticos. A Manhufe chegou no verão de 1914 vindo de Espanha, por onde viajava na companhia de Lucie Meynardi Pecetto (1890-1987), uma jovem de ascendência italiana que tinha conhecido na capital francesa e com quem Amadeo mantinha, desde 1908, uma ligação amorosa longe do conhecimento da família. Pouco depois de chegarem, em setembro de 1914, o seu casamento realizou-se finalmente no Porto, tendo o casal ido viver para Manhufe, instalando-se na Casa do Ribeiro, junto da qual o pai do artista lhe tinha anteriormente mandado construir um ateliê. Foi aí que, em 1915, muito provavelmente, Amadeo terá fotografado Lucie. O artista terá realizado as primeiras experiências fotográficas em 1910, como o próprio revelou numa carta a Lucie existente no seu espólio: “[…] meu irmão tem uma machina fotográfica, em Manhufe farei algumas fotografias para te enviar.[…]”. A estes retratos de Lucie junta-se um outro, que será da mesma série, em que Amadeo (?) faz sobreposições de vários retratos fotográficos de ambos, explorando de forma estética as capacidades técnicas da fotografia.

Este conjunto de fotografias integram o Espólio de Amadeo de Sousa Cardoso, que foi doado no final da década de 1980 à Fundação Calouste Gulbenkian pela viúva do artista, e que é composto também por correspondência variada – inclui as cartas enviadas por Amadeo a Lucie entre 1908 e 1918, cartas e bilhetes-postais para diversos familiares, assim como para outros artistas com quem Amadeo manteve relações de amizade, entre os quais Eduardo Viana, Almada Negreiros, Otto Freundlich e Amedeo Modigliani – recortes de imprensa, monografias e alguns objectos pessoais. Este espólio pertence ao acervo documental da Biblioteca de Arte (BA) que procedeu à digitalização de grande parte dos documentos que o compõem, preservando-os e, simultaneamente, tornando-os mais facilmente acessíveis a um público interessado. Emboraalguns documentos estejam acessíveis apenas na rede local da BA, respeitando a legislação em vigor relativa a direitos de autor e de personalidade, uma parte das fotografias do espólio encontra-se disponível para consulta na internet, quer através do catálogo, quer mediante a participação no projeto Flickr The Commons. Lançado em Janeiro de 2008, o Flickr The Commons conta actualmente com 73 bibliotecas e arquivos públicos e privados de diversos países, que disponibilizam nessa plataforma de acesso livre e gratuito as suas coleções fotográficas. A BA é membro desde Maio de 2008, e neste momento a sua participação conta com mais de 13.200 fotografias. De todas, a fotografia que regista um maior número de visualizações – conta já com 53.990 – é precisamente uma das fotografias de Lucie Sousa Cardoso em Manhufe. Entre as muitas dezenas de comentários que suscitou, destacamos estes:

“It is rare to see such composition in an early photograph…the light, the clothes, the framing but also the girl. She has a modern way of posing and a smile that takes you into her mind. You know that she and the photographer were close and that they trusted each other. I hope that looking at the picture gave her much pleasure as she grew old and time took her youthful looks away whilst doubtless replacing them with warmth and the gentle wrinkles of age. A picture many photographers would do well to have pasted on the wall next to their desks as a reminder of where they should be aiming.”

“The photo is so good, because photographer catched, what he saw. He was not afraid the intensive shadow of her nose, what was against the advices in the typical manual for photography. This photo is good because of its simplicity: light = light, shadow = shadow, and so on…”

“A photographer’s use of light defines his art as does color to a painter. This photograph has all the elements of greatness. Composition, subject, and lighting are perfection.”

TÍTULO/RESP. [Lucie, em Manhufe] [ Material gráfico ]

PRODUÇÃO [Manhufe, 1915]

DESCR. FÍSICA 1 prova fotográfica : p&b ; 13 x 9 cm

PARTE DE Espólio de Amadeo de Sousa Cardoso [1890-1988]

COTA ASC 05/17

Atualização em 17 Julho 2017