L’art dans la décoration extérieure des livres, en France et a l’étranger

Em abril de 1893, uma pequena notícai do jornal New York Times dava conta da presença na cidade de Octave Uzanne, “eminente autor francês“. Após a enumeração de algumas obras que tinha já realizado e pelas quais era conhecido e apreciado entre os bibliófilos americanos, o artigo afirmava que Uzanne era “o chefe da nova escola de amantes do livro…”

Em abril de 1893, uma pequena notícia do jornal New York Times dava conta da presença na cidade de Octave Uzanne, “eminente autor francês”. Após a enumeração de algumas das obras que tinha já realizado e pelas quais era conhecido e apreciado entre os bibliófilos americanos, o artigo afirmava que Uzanne era “o chefe da nova escola de amantes do livro para os quais a formação de uma biblioteca não é apenas a colecção, pelo poder do dinheiro, de livros valiosos, mas uma selecção, uma expressão de um gosto individual, cuja finalidade deve ser a realização dos mais elevados ideais da produção do livro.”* As décadas que precederam o fin de siècle, até sensivelmente ao início da I Guerra Mundial, foram palco de uma intensa atividade bibliófila de que Octave Uzanne (1851-1931) foi um dos mais brilhantes intervenientes: como autor, deixou mais de cinquenta obras de ficção e de crítica, como L’éventail (1882) e La reliure moderne et artistisque (1887), mas também como editor e fundador de três influentes revistas francesas da época dedicadas ao livro, respetivamente, Le livre: Bibliographie moderne (1880-89), Le livre moderne (1890-91) e L’Art et l’idée: Revue contemporaine du dilettantisme littéraire et de la curiosité (1892-93). O envolvimento de Uzanne com o livro e as suas artes data da década de 1870, quando se instalou em Paris e passou a frequentar tertúlias e a pertencer a sociedades como a ‘Société des Amis des Livres’ (primeira associação francesa de bibliófilos, que Uzanne abandonou para cofundar, em 1889, a ‘Societé des biblophiles contemporains’ e, em 1896, a ‘Societé des bibliophiles indépendants’). Em 1894, Octave Uzanne escreveu um artigo para a revista Sribner’s Magazine – com ilustrações de Albert Robida – cujo título nos recorda, curiosamente, recentes e contemporâneas polémicas sobre este tema: The end of books (O fim dos livros). Conquanto fosse bibliófilo, Uzanne não só estava a par dos progressos tecnológicos aplicados às artes da impressão e da edição, como os utilizava nas suas obras. E se, por um lado, neste texto premonitoriamente Octave Uzanne descrevia a emergência de novos suportes e meios que tenderiam a substituir progressivamente o papel e o livro nos hábitos de leitura do homem moderno, por outro, ele acreditava não apenas na sobrevivência, como na longevidade do livro. Para isso, o livro deveria ser, sobretudo, um objeto de deleite e fruição sensorial e não só de prazer intelectual. Nos seus livros Octave Uzanne cuidou especialmente das encadernações, onde a seda lavrada se combina com a fina pele gravada a ouro, da composição de cada página, da forma, por vezes luxuriante, como o texto e as ilustrações se conjugam, da textura do papel, cuidadosamente escolhido. Cada livro é assim o resultado de colaborações várias – artistas como Paul Avril e Félicien Rops, ilustradores como Albert Robida e Adolphe Lalauze, impressores, gravadores e encadernadores – que o transfiguram num objeto de desejo para bibliófilos e colecionadores de obras de arte.

O gosto entusiasta de Octave Uzanne pelos livros belos levou-o, em 1898, a escrever L’art dans la décoration extérieure des livres, en France et a l’étranger; les couvertures illustrées, les cartonnages d’éditeurs; la réliure d’art. Como ele próprio afirma na introdução intitulada “Do gosto atual na decoração exterior dos livros”, trata-se de um volumoso “Livro-Album” documentando as diversas técnicas e tendências decorativas então em voga na encadernação de livros de luxo. Profusamente ilustrado com exemplos de capas e encadernações de obras contemporâneas, editadas em França, na Alemanha, em Inglaterra e nos Estados Unidos, este livro teve duas tiragens: uma de mil exemplares, em papel ‘vélin’, numerados de 61 a mil, e uma outra de apenas 60 exemplares em papel ’Japão’, numerados de 1 a 60. Sabendo-se que os livros foram companheiros sempre presentes na vida de Calouste Gulbenkian, tanto como objetos de deleite e fruição estética, como instrumentos de estudo e de trabalho, é sem surpresa que encontramos na sua biblioteca particular treze obras de Octave Uzanne, entre as quais o exemplar nº28 da edição especial deste livro. Com uma encadernação luxuosa, em marroquim verde, gravada com motivos florais a vermelho e dourado, com a marca de um dos mais requintados e inovadores mestres encadernadores do tempo, Joseph Wiliam Zaenhsdorf (1953-1930), este exemplar tem ainda um valor especial pois contém a assinatura, a lápis, de Calouste Gulbenkian.

 

TÍTULO/RESP.  L’art dans la décoration extérieure des livres en France et à l’étranger : les couvertures illustrées, les cartonages d’éditeurs, lareliure d’art / par Octave Uzanne

PUBLICAÇÃO  Paris : Société française d’éditions d’art, L. Henry May, 1898

DESCR. FÍSICA VI, 272, [4] p., [63] f. il. : il., estampas color. ; 30 cm

NOTAS  Ex. nº 28 duma tiragem de 60, assinado por Calouste Gulbenkian. Enc. em marroquim verde, pastas decoradas com 3 filetes dourados e flores vermelhas e douradas em mosaico; 5 nervos na lombada, casas com flores douradas, tít. na 2ª, autor na 4ª e data no pé; seixas douradas com motivos vegetalistas e guardas em seda verde, corte dourado à cabeça, intonso na vertical e no pé. Enc. assinada por Zaenhsdorf

PROVENIÊNCIA  Colecção Calouste Gulbenkian – Documentação

COTA(S)  EN 5

*“He is the chief of the younger school of book lovers in the view of whom the formation of a library is not only the collection, by force of Money, of valuable books, but a selection, an expression of individual taste, the end of which shall be a realization of the most elevated ideals in bookmaking.”

Atualização em 12 Julho 2017