A colecção de Livros de Artista de Hein Semke

Hein Semke nasceu em Hamburgo, em 1899. Depois de uma primeira e curta estadia em Lisboa (1929-30), aqui se fixou definitivamente a partir de 1932, tendo falecido na capital portuguesa em 1995. Os seus anos na Alemanha foram difíceis: parte da infância e adolescência viveu-as num orfanato; alistado como voluntário, viveu o horror das trincheiras na guerra de 1914-18; após o conflito …

A relação dos artistas com o livro é tão antiga como o próprio livro. No início do século 20, o desenvolvimento das técnicas de reprodução contribuiu para que artistas plásticos, escritores e poetas colaborassem na realização de livros, que se tornaram assim suportes privilegiados de experimentações colectivas. Nas décadas de 1960 e 70, o livro voltou a ser utilizado como suporte onde se ensaiaram e expressaram rupturas estéticas. Este relacionamento leva a que a definição do que é um livro de artista nem sempre seja clara e unânime. Isto é, tanto se considera como ‘livro de artista’ todos os que contenham uma intervenção de um artista, como se exclui desta categoria aqueles que reproduzem apenas as suas obras ou que têm ilustrações suas. Mais recentemente, tem-se considerado que o que distingue o livro de artista é a sua utilização como suporte dum projecto artístico específico, não limitado ao papel, à tinta e à escrita, mas incorporando todos os materiais e as técnicas que o artista desejar. Por outro lado, estes objectos têm balançado entre uma espécie de última consequência do pressuposto de reprodutibilidade mecânica da obra de arte enunciado por Walter Benjamin, e aplicado por Edward Ruscha no livro Twentysix Gasoline Stations 1962, que teve uma edição numerada de 400 exemplares, e a criação única, como aconteceu com o Livro de Karin (Karin-Bush), realizado por Hein Semke em 1965.

Hein Semke nasceu em Hamburgo, em 1899. Depois de uma primeira e curta estadia em Lisboa (1929-30), aqui se fixou definitivamente a partir de 1932, tendo falecido na capital portuguesa em 1995. Os seus anos na Alemanha foram difíceis: parte da infância e adolescência viveu-as num orfanato; alistado como voluntário, viveu o horror das trincheiras na guerra de 1914-18; após o conflito, para sobreviver, teve diversos trabalhos; foi preso pelas suas convicções políticas de cariz anarco-sindicalista e, devido a problemas graves de saúde, foi declarado inválido para o exercício de qualquer ofício. Esta incapacidade, de certo modo, acabou por levá-lo a optar pela formação artística, que realizou nas Academias de Belas Artes de Hamburgo e de Estugarda (1930-32). Em Portugal, cedo se integrou no círculo artístico da capital. Aliás, no contexto das artes plásticas nacionais do século 20 a obra de escultura e cerâmica de Hein Semke surge a par com a de outros artistas portugueses seus contemporâneos, com quem partilhou tertúlias. Logo em 1932, Semke participou na 2ªExposição dos Artistas Independentes e ao longo destes anos mostrou as suas peças de escultura em galerias da capital. Na década seguinte, Hein Semke teve presença regular nos certames em que o SNI promoveu a arte moderna, mostrando trabalhos de escultura e cerâmica, à qual se tinha vindo também a dedicar. A sua produção cerâmica, em que experimentou e juntou novos processos técnicos a novas formas plásticas, foi decisiva para a renovação da cerâmica portuguesa contemporânea. A partir dos anos cinquenta, dificuldades várias levaram-no a dedicar-se cada vez mais à pintura. Em 1958, Hein Semke realizou o seu primeiro livro de artista, Flor desconhecida (Blume-unbekannt), e até 1985 realizou mais 34. Todos estes livros-álbuns são obras únicas, de dimensões variadas, mas geralmente de grande formato – 60cmx80cm – que o artista criou, página a página, utilizando técnicas como a monotipia, a xilogravura, a colagem, a aguarela e o desenho. A paleta cromática é forte, vibrante, expressionista, cheia de amarelos, azuis, vermelhos, rosas, ocres, que materializam flores, máscaras, torsos de mulheres, peixes, elementos recorrentes na sua produção artística. Em alguns a escrita está ausente, noutros a palavra acompanha a imagem para ajudar a contar histórias. O Livro de Karin (Karin-Bush), realizado em 1965, é um dos que integram a colecção dos 35 livros de artista criados por Hein Semke que a sua herdeira, Teresa Balté, decidiu depositar na Biblioteca de Arte reatando, de certo modo, a relação do artista com a Fundação Calouste Gulbenkian, que lhe realizou a primeira exposição retrospectiva, em 1972. Durante o próximo ano, a Biblioteca de Arte disponibilizará, em regime de acesso condicionado e restrito, estes 35 livros de artista de Hein Semke, que constituem um valioso contributo para o enriquecimento da colecção já existente.

TÍTULO/RESP. Karin Bush = Livro de Karin / Hein Semke
PRODUÇÃO Almada : H. Semke, 1965
DESCR. FÍSICA 27 f. : il. color. ; 100 x 65 cm
NOTAS Ed. do artista; obra composta por 27 folhas de cartolina branca com 56 monotipias coladas na frente e verso, 6 folhas de texto
COTA(S) HSL 3

Atualização em 13 Julho 2017