Bailes Russos

Na segunda página da edição de 13 de Dezembro de 1917 do jornal A Capital, entre várias pequenas notícias e anúncios de espectáculos, havia uma onde se lia que “No Colyseu dos Recreios” se estreava nessa noite a “companhia de bailes russos”, “grandioso acontecimento artístico” …

Na segunda página da edição de 13 de Dezembro de 1917 do jornal A Capital, entre várias pequenas notícias e anúncios de espectáculos, havia uma onde se lia que “No Colyseu dos Recreios” se estreava nessa noite a “companhia de bailes russos”, “grandioso acontecimento artístico” que era há muito esperado pelo público lisboeta. Previa-se para aquela sala de espectáculos uma “enchente de verdadeiros «gourmets» de esthetica, capazes de abranger toda a delicada transcendencia que se concentra em espectaculo de tão deslumbrante belleza”. Não era a primeira vez que os portugueses em geral e os lisboetas em particular eram alertados para a vinda a Lisboa da companhia de Serge Diaguilev. Em Novembro, surgiu nas páginas do primeiro e único número da revista Portugal Futurista, um inflamado texto-manifesto onde os seus autores – Almada Negreiros, Ruy Coelho e José Pacheko – anunciavam entusiasticamente: “OS BAILADOS RUSSOS estão em Lisboa! Isto quer dizer: Uma das mais bellas étapes da civilização da Europa moderna está na nossa terra!”, e exortavam vigorosamente: “Aproveita, portanto, Portuguez! Vae ver os BAILADOS RUSSOS.” O mesmo tom foi também o que a revista Ilustração Portuguesa utilizou no artigo publicado no dia 3 de Dezembro: “Veem ai os bailes russos!”.
Não eram despropositados este entusiasmo e esta expectativa em relação às apresentações da companhia fundada por Serge Diaguilev (1872-1929) nos palcos da capital. Desde a sua estreia em Paris, em 1909, que os “Ballets Russes”, rompendo com o academismo em que a dança clássica tinha mergulhado, mostravam um novo conceito de espectáculo, onde se juntavam, em diálogo estético e criativo, distintas expressões artísticas: performativas, visuais e literárias. Ao longo dos cerca de 20 anos de carreira da companhia, Diaguilev juntou nos seus espectáculos artistas dos das vanguardas das primeiras décadas de Novecentos, como Picasso, Natalia Gontcharova, Braque, Matisse e André Derain, que desenharam cenários e figurinos, coreógrafos como Michel Fokine, Vaslav Nijinski, Léo Massine e George Balanchine, e músicos como Igor Stravinski, Serge Prokofiev e Eric Satie.

Quando os Ballets russos chegaram a Lisboa, no início de Dezembro de 1917, havia um ano que Portugal era um dos países envolvidos no primeiro conflito armado à escala mundial, iniciado em 1914. Um pouco por toda a Europa, a fome, as greves, os motins de rua e as insurreições militares faziam parte do quotidiano das populações. Em 1917, as primeiras páginas dos jornais da capital dividiam-se entre as notícias sobre a frente de batalha, a revolução dos sovietes e a agitada situação interna, com especial destaque, em Dezembro, para o golpe que colocou Sidónio Pais no poder. Em Abril, mereceu também espaço a controversa sessão da “I Conferência Futurista”, realizada por Almada Negreiros no Teatro República (actual S.Luís). Porque igualmente no campo das artes e das letras estes foram anos de inquietações e rupturas estéticas, em que uma nova geração de artistas – alguns, como Amadeo e Santa-Rita, regressados de Paris por causa da guerra – rompeu com o gosto dominante, preso ainda a um naturalismo ultrapassado.

Dos espectáculos no Coliseu – os Ballets Russos estiveram em Lisboa até final de Março de 1918 e apresentaram-se depois no Teatro S. Carlos – guarda-se no acervo documental da Biblioteca de Arte um exemplar do Programa especial extraordinário. Por entre anúncios variados, publicam-se os resumos das peças, como “O Espectro da rosa” e “Thamar”, que se apresentaram na sala da Rua das Portas de S. Antão e um pequeno texto de elogio aos bailarinos. Mas o que o torna verdadeiramente “especial” são as ilustrações e a composição gráfica da capa e da contracapa, da autoria de Jorge Barradas (1894-1971). Mas o que o torna verdadeiramente “especial” é a ilustração e a composição gráfica da contracapa, da autoria de Jorge Barradas (1894-1971). Barradas, um dos modernistas “da primeira geração”, foi um dos principais ilustradores destes anos, contribuindo para a renovação do desenho e do grafismo com as ilustrações que realizou para várias publicações, destacando-se as capas da revista ABC. Para ilustrar este “programa especial”, inspirado certamente pelos sumptuosos e coloridos cenários e figurinos criados por Léon Bakst para os bailados “orientais”, Barradas desenhou na contracapa uma figura masculina, de vestes amplas e de cores fortes, turbante e grande sabre e onde, curiosamente, se publicita de forma graficamente criativa e original não os Ballets russos, mas bolachas da fábrica “Nacional”.

TÍTULO/RESP. Bailes russos : programa especial extraordinário : argumentos, distribuição de personagens / Jorge Barradas, il.

PUBLICAÇÃO [Lisboa : Coliseu dos Recreios, 1917]

DESCR. FÍSICA [6] p. : il. ; 33 cm
COTA(S) D 249

Atualização em 13 Julho 2017