16 Julho 2020

O Novo Coronavírus (Covid-19) e as iniciativas linguísticas inovadoras da Fundação Calouste Gulbenkian

Entrevista Nor Haratch (Paris)

Fundação Calouste Gulbenkian
Fundação Calouste Gulbenkian © Ricardo Oliveira Alves

Entrevista Nor Haratch (Paris) com a equipa do Serviço das Comunidades Arménias. Versão original em arménio, publicado a 11 de Junho de 2020 ( páginas 3-8). Versão francesa, publicada a 18 de Junho ( páginas 4-8). Versão adaptada para Português.

(…) A Fundação Calouste Gulbenkian desempenha, há mais de cinco anos, um papel fulcral no desenvolvimento da língua arménia no meio digital. Através de diferentes iniciativas nas áreas da educação, da pedagogia, da literatura traduzida, tem vindo a promover estudos sociais, conferências, materiais audiovisuais e programas linguísticos (tais como corretores otográficos, dicionários digitais, corpus de texto etc..) 

O período de confinamento evidenciou ainda mais a importância destas iniciativas e, para dar a conhecer mais detalhadamente o trabalho realizado pela Fundação, apresentamos uma entrevista com os responsáveis dos programas educativos e da língua arménia do Serviço das Comunidades Arménias da Fundação Calouste Gulbenkian: Razmik Panossian, Shogher Margossian, Kayane Madzounian e Ani Garmiryan. Começamos com Razmik Panossian, diretor do serviço das Comunidades Arménias.

As entrevista foram realizadas por Jiraïr Tcholakian (editor do Nor Haratch).

 

Entrevista Razmik Panossian

Diretor do Serviço das Comunidades Arménias da Fundação Calouste Gulbenkian

“Nor Haratch” – No período de confinamento a Fundação Calouste Gulbenkian lançou uma série de novos programas. O seu lançamento coincidiu com este período ou foram criados depois do início da crise do coronavírus?

Razmik Panossian – Foi em resposta a esta crise que o Serviço das Comunidades Arménias criou quatro novos programas, dois dos quais são prémios. O primeiro intitulado “Khosk Ar” (“Seja Ouvido” / “Be Heard”) dá a oportunidade, particularmente aos jovens, de se expressarem em arménio sobre uma série de questões críticas com que a humanidade se defronta nestes tempos difíceis. O segundo é um prémio para apoiar professores. Estes dois programas foram criados especificamente no contexto da pandemia.  

Para além destas iniciativas, devido ao coronavírus, a questão do apoio à Arménia tornou-se incontornável, especialmente no início da pandemia, quando escasseavam dispositivos médicos e equipamentos de proteção individual. Enviámos imediatamente apoios, em colaboração com o Alto Comissariado para os Assuntos da Diáspora da Arménia. Mais recentemente, providenciámos ajuda humanitária à comunidade arménia do Líbano.

Temos outra iniciativa que também diz respeito ao Líbano. Trata-se de um programa que visa criar uma cultura inovadora na língua arménia e que já estava a ser planeado há meses. Anunciámo-la em fevereiro e constitui um dos pilares da nossa estratégia definida em 2019 para o Líbano.

Por conseguinte, quatro das cinco iniciativas lançadas durante os últimos meses foram especificamente criadas para o contexto da pandemia.

Devo acrescentar que, nesta situação sem precedentes, vimo-nos obrigados a cancelar, adiar ou adaptar uma série de outros programas do Serviço. Por exemplo, não pudemos organizar um conjunto de conferências no âmbito da Feira Internacional do Livro de Londres. Por sua vez, o concerto que íamos apoiar na Arménia por ocasião do 150º aniversário do nascimento de Calouste Sarkis Gulbenkian, bem como outros eventos relacionados com este marco, foram adiados. Quanto ao programa educativo de verão “Zarmanazan”, decidimos organizá-lo através de plataformas online.

“NH” – Na verdade, a pandemia mostrou que, por muito nefastas que as crises pareçam, também têm um lado positivo. De certa forma, esta crise também teve uma influência positiva sobre os novos métodos de educação e ensino e permitiu estimular a criatividade nas comunidades. Esta pandemia trouxe-nos a oportunidade de refletir sobre o sentido da vida, de dar valor à saúde e de estarmos mais atentos e sermos responsáveis em relação à nossa saúde e à natureza. Qual é a visão da Fundação em relação a estas questões?

R.P. – O atual contexto é uma oportunidade para refletirmos sobre problemas universais. O objetivo do prémio “Seja Ouvido” é precisamente o de encorajar as pessoas a expressarem-se em arménio, através de diversas formas sobre vários assuntos fundamentais.

Enquanto instituição, trabalhamos há anos para assegurar e desenvolver a presença online da língua arménia, através da digitalização de livros, do apoio a websites, do apoio ao desenvolvimento de ferramentas digitais. Devido ao coronavírus, tornou-se imperativo que também a educação fosse transportada para a esfera digital. Esta mudança ocorreu muito rapidamente e, claro, muitos professores não estavam preparados para trabalhar a partir das suas casas e com novas ferramentas tecnológicas.

Temos constatado que durante os últimos meses a utilização do arménio ocidental nas redes sociais parece ter aumentado subitamente. Por exemplo, soube pela nossa representante no Líbano que um grupo de jovens começou um novo programa chamado “Intch ka tchka?” [O que há de novo?]. O website e a aplicação “Aghvor Paner” [coisas boas] também têm muitos utilizadores. Existem muitas outras iniciativas semelhantes.

Pode dizer-se que, ao longo dos últimos meses, a tecnologia e a língua entraram em simultâneo nos lares arménios, o que constitui um fenómeno novo e muito encorajador. Por outras palavras, os temas sobre os quais falamos lá fora passam a ser abordados em casa, em arménio, e com novas ferramentas digitais. A pergunta que temos de fazer é: como perpetuar este fenómeno positivo junto das famílias e dos jovens?

Não querendo ser presunçoso, há cinco, seis anos que a Fundação tem vindo a preparar o terreno para este objetivo, umas vezes sem fazer ondas, outras falando sobre o assunto, e já prestámos importantes contributos neste sentido. É verdade que nem todas as ferramentas digitais estão prontas. Dentro de cinco ou seis meses estaremos melhor preparados com novas ferramentas. É uma das coisas boas que resultou da situação criada por esta pandemia: ao ficarem isoladas em casa, as pessoas começaram a comunicar mais frequentemente entre si em arménio ocidental e a criar conteúdos culturais interessantes usando as novas tecnologias.

“NH” – O ensino do arménio através do recurso a novas tecnologias não criará um fosso entre os professores habituados a métodos mais tradicionais e os que dominam as tecnologias modernas, e ainda, em geral, entre os diferentes tipos de estudantes? É necessário ter em conta que, no caso da língua arménia, nem todos têm os meios e as capacidades de utilizar estas ferramentas.

R.P. – Exato. Como sabe, existe uma infeliz contradição na diáspora. Na área da educação em particular, onde a tecnologia e a inovação são fortes, o domínio da língua é geralmente fraco, em termos de geografia e de idades. E o contrário também sucede, onde o domínio da língua é forte, o das tecnologias é habitualmente fraco. É uma contradição que faz parte da nossa realidade. O coronavírus deu um impulso à utilização de ferramentas tecnológicas e linguísticas. Devemos também recordar que, ao longo dos próximos dez a vinte anos, a renovação geracional vai instigar uma mudança em termos de competências. Atualmente, cada vez mais professores são formados na utilização de métodos inovadores e novas técnicas pedagógicas.

Para além disso, certo países não tem acesso constante à internet. Podemos citar os exemplos da Síria ou do Líbano, onde os cortes de eletricidade são frequentes, o que complica o trabalho dos professores.

Mas, por outro lado, não podemos ignorar o facto de que vivemos no século XXI e que os professores devem dominar o melhor possível o mundo das tecnologias. O prémio dedicado aos professores serve precisamente este objetivo. Queremos encorajar os professores, através destes meios, cientes que nem todos tiveram possibilidade de participar neste concurso, uma vez que, em certas regiões, os professores nem sequer têm computadores pessoais.

“NH” – O mundo progride rapidamente pelo caminho do digital e das tecnologias de informação, um processo que necessita de grandes investimentos. As organizações comunitárias arménias têm os meios para fazer face a tal desafio? Que garantias de sucesso podem dar?

R.P. – Eu penso que existem os meios. A diáspora arménia não é uma diáspora pobre mas os meios por si só não são suficientes. Antes de tudo, é necessário haver uma visão e um desejo de implementar iniciativas. A primeira garantia de sucesso é ter líderes que deem a devida importância à missão da escola de transmitir a língua arménia. É imperativo ter fé neste trabalho. E, claro, é preciso proporcionar os meios para concretizar esta fé e esta visão. Caso contrário, não ultrapassaremos a fase do slogan (como é frequentemente o caso) e nada de concreto daí resultará.

Os “debates” educativos da diáspora focam-se essencialmente na abertura ou no fecho de escolas. Já alguma vez ouviu um debate construtivo sobre a missão educativa da escola ou sobre questões pedagógicas sérias? Por outras palavras, um debate sobre os conteúdos a lecionar na escola e não sobre se se deve manter aberto o edifício ou fechá-lo… Como se a qualidade da educação não tivesse nada que ver com o sucesso de um estabelecimento. Enquanto comunidade, queixamo-nos que os pais não inscrevem os seus filhos em escolas arménias, mas não temos a coragem de nos questionarmos porquê. Tudo isto é consequência de falhas a diferentes níveis, da liderança à compreensão pedagógica.

A diáspora tem de assumir a responsabilidade de resolver os seus problemas. O arménio ocidental é um assunto da diáspora e é a diáspora que deve resolver os seus problemas, sob a orientação dos seus líderes. A Fundação Calouste Gulbenkian desempenha parte deste esforço, mas existem na diáspora organizações bem maiores do que o nosso Serviço.

As autoridades na Arménia têm uma visão bastante clara do desenvolvimento da tecnologia. Todavia, esta aplica-se sobretudo ao desenvolvimento da economia e não tanto à promoção da língua o que é compreensível.

“NH” – É verdade que a diáspora arménia não é pobre, mas ainda não conseguiu desenvolver a sua própria visão. A diáspora concentra-se apenas em problemáticas nacionais, empobrecendo assim o património cultural dos arménios ocidentais, do qual a língua constitui uma parte integrante. Na área da tecnologia, pode dizer-se que há uma escassez em termos de programas educativos, de jogos didáticos e de vídeos em arménio. Que solução propõe para estas questões?

R.P. – É verdade que existe uma escassez de materiais na área da educação na diáspora. A preservação da identidade e língua arménias na diáspora tomou um rumo bastante conservador, o que me parece perigoso. Conservador, no sentido em que estagnamos naquilo que temos para não o perdermos. Desta maneira, não demos aos jovens oportunidades suficientes para criarem algo novo com que se identifiquem. Para dar um exemplo histórico, o que aconteceu nos anos de 1920 foi o oposto deste fenómeno. Na base dos partidos Dashnak, Henchakian e Ramkavar, os três principais partidos políticos da diáspora com as suas respetivas instituições culturais e sociais, havia uma visão muito clara para a construção de um povo de língua arménia na diáspora, tendo como base o potencial jovem. Nos anos 50 e 60, encontrávamos um movimento dotado desse mesmo dinamismo entre os jovens, mas que, nos anos 70, parece ter tomado um tom mais conservador. A língua começou a desligar-se do presente e a ficar presa ao passado e àquilo que é estritamente arménio. Na Europa ou na América do Norte, a inovação cultural encontrou um terreno próspero onde se desenvolver mas a língua não prosperou devido à falta de escolas.

Atualmente podemos proporcionar às gerações mais jovens os meios para criarem uma cultura arménia da diáspora à sua maneira. Para responder à sua pergunta (sobre soluções) é preciso proporcionar os recursos para a criação de obras em arménio e não ditar aos jovens o que deve ser a cultura. A cultura não é um testemunho que tem de ser passado, mas sim um processo sempre em construção.

Claro que a diáspora não está isolada. Está ligada por um lado ao ‘Outro’ e, obviamente, à Arménia. Contudo, é preciso recordar que, sobretudo para arménios da diáspora de quarta ou quinta geração, a Arménia não é tudo. Mas que fique claro que os arménios da diáspora permanecerão ligados à Arménia, a qual constitui uma fonte de inspiração. Mas, por outro lado, a Arménia também tem uma atitude conservadora acerca de questões culturais e sociais, podendo vir a criticar inovações por serem ideias vindas do exterior (claro que há exceções). Repito, a diáspora deve assumir a responsabilidade de resolver os seus próprios problemas, ou seja, tomar as rédeas do seu futuro. Eu sou otimista porque vejo surgir uma nova geração que defende e utiliza o arménio ocidental e que se tem tornado cada vez mais ativa. A Fundação Calouste Gulbenkian presta o seu auxílio para os apoiar e encorajar.

“NH” – De certa forma, a crise do coronavírus propiciou uma ocasião para refletir sobre estas questões de forma global. Mas ainda estamos no início e muito poderá ainda mudar no nosso quotidiano…

R.P. – Como sabe, as reuniões e conferências à distância organizadas online são uma excelente ocasião para conversas multilaterais que são vistas e ouvidas por milhares de arménios no mundo inteiro sem quaisquer restrições de organização. Devemos tirar partido destas ocasiões para trocar ideias sobre questões importantes (…).

 

A importância de enquadrar os problemas universais da humanidade na nossa vida em comunidade

(Shogher Margossian integra o Serviço das Comunidades Arménias da Fundação Calouste Gulbenkian desde 2018 na qualidade de consultora e é responsável por vários projetos, em particular na área da língua e tecnologia.)

“Nor Haratch” – Enquanto a crise do coronavírus eclodia, a Fundação Calouste Gulbenkian apresentou uma série de novos programas, forjando novas oportunidades para o uso da língua, para o enquadramento dos jovens na vida em comunidade e para o desenvolvimento da criatividade intelectual e artística. Pode falar-nos mais acerca destes programas?

Shogher Margossian – Consideramos que a linguagem não constitui um fim em si mesmo, mas sim, está intimamente ligada ao domínio do pensamento. Ou seja, a sustentabilidade da língua é garantida pelo estímulo do trabalho intelectual. É exatamente este o objetivo do prémio “Seja Ouvido” e do programa “Cultura Criativa no Líbano”.

O prémio “Seja Ouvido” sublinha a importância de incluir problemáticas universais na nossa vida em comunidade, dando oportunidade não só a mentes jovens mas também a mentes mais experientes, de refletir, de debater e de se expressar neste sentido. Este género de prémio é único e será muito interessante ver como esta primeira oportunidade será utilizada pelas pessoas das nossas comunidades espalhadas pelo mundo, reforçando a identidade dos arménios enquanto cidadãos do mundo, quer vivam na diáspora ou na Arménia.

O objetivo deste prémio é dar uma primeira oportunidade às pessoas, em particular aos jovens, de expressar os seus pontos de vista sobre questões que são importantes e universais e, ao mesmo tempo, incontornáveis para a comunidade. O importante aqui é dar o primeiro passo e não elevar a fasquia demasiado alto em termos de competências linguísticas ou de maturidade.

Com o lançamento do programa “Cultura Criativa no Líbano”, a Fundação reafirma o seu compromisso para com a sustentabilidade da língua. O principal objetivo deste programa é o de estimular o pensamento criativo para o desenvolvimento de iniciativas inovadoras em arménio ocidental. Assim, este programa visa desde logo fomentar nos jovens uma vontade de criar, em arménio ocidental, assim como de revigorar a modernidade cultural.

Um dos principais objetivos deste programa é o de criar oportunidades para os falantes de arménio, especialmente os jovens, sentirem que as suas abordagens, as suas preocupações e as suas criações têm um lugar importante na nossa realidade.

Estas duas iniciativas encorajam a criação de uma cultura de debate e de participação, dando aos jovens uma plataforma para se expressarem utilizando os meios à sua disposição, adaptados à sua maneira de se expressar e utilizando o arménio como recurso.

O prémio “Seja Ouvido” será atribuído a um grande número de participantes. Num total serão atribuídos 50 pequenos prémios, dos quais 25 a participantes da diáspora e outros 25 a participantes da Arménia. O programa “Cultura Criativa no Líbano” atribuirá cinco prémios de maior valor monetário.

Tanto uma iniciativa como a outra já receberam uma grande quantidade de candidaturas interessantes. Os participantes têm também consultado a Fundação para compreender melhor o conteúdo destas iniciativas, dado que estas duas são inéditas e, como tal, criam novas condições para a criatividade dos jovens.

“NH” – O mundo progride rapidamente pelo caminho do digital e das tecnologias de informação, um processo que necessita de grandes investimentos. As organizações comunitárias arménias têm os meios para fazer face a tal desafio? Que garantias de sucesso podem dar?

S.M. – Também nesta área a fundação contribui para a manutenção do arménio, oriental ou ocidental, em linha com os avanços das tecnologias modernas. Entre as iniciativas mais importantes, contam-se:

a) O programa de corretores ortográficos automáticos para todas as plataformas de internet, smartphones e computadores, que nos encoraja a comunicar diariamente usando o alfabeto arménio. Em simultâneo, o website do dicionário “Nayiri” é regularmente atualizado com novos e raros dicionários.

b) A digitalização de jornais e periódicos da Congregação Mekhitarista em colaboração com a Academia de Ciências da Arménia. Atualmente, mais de 100 mil páginas de documentos foram digitalizadas, das quais cerca de metade se encontram catalogados. Um website dedicado a esta rica coleção estará brevemente acessível.

c) A Fundação apoia também dois programas na Arménia. O primeiro é o “Treebank”, em arménio ocidental, que permite proceder a uma análise automática gramatical e linguística e integrar diretamente esta língua nos sistemas informáticos. O outro programa diz respeito à criação de uma plataforma online de formação de palavras, cujo objetivo é propor uma análise gramatical e linguística das palavras aprofundada.

Seguindo os princípios basilares da Fundação Calouste Gulbenkian, é de referir que todos os programas acima elencados são de acesso gratuito e abertos a todos.

 

O novo Coronavírus também teve um impacto positivo na nossa experiência educativa

(Kayane Madzounian é a representante da Fundação no Líbano e responsável pelos programas para o Líbano do Serviço das Comunidades Arménias da Fundação Calouste Gulbenkian.)

“Nor Haratch” – Surgiu uma nova oportunidade para os professores: o ensino online. Pode constituir, simultaneamente, um problema para aqueles que não sabem utilizar as ferramentas mais modernas e que assim não se poderão adaptar a esta nova realidade. A Fundação Calouste Gulbenkian lançou um prémio para professores que utilizem novas formas de ensinar. Como reagiram os professores? Quais as suas expectativas?

Kayane Madzounian – Devido ao confinamento imposto pela pandemia, o quotidiano sofreu alterações. O isolamento e a experiência resultante do ensino à distância proporcionaram uma oportunidade de reavaliar muitas questões na educação. A maior parte das escolas arménias, que até então hesitavam em tirar partido das tecnologias mais recentes, enfrentaram uma situação em que se viram obrigadas a adaptar-se rapidamente. Desde os primeiros dias de isolamento, começaram a surgir nas redes sociais materiais educativos elaborados por professores das escolas arménias que despertaram interesse fora da sala de aula. Como diz o ditado “Foi um mal que veio por bem”. Segundo a nossa experiência no campo da educação, o coronavírus também teve consequências positivas.

A Fundação reparou neste dinamismo e não podia permanecer indiferente perante os esforços individuais na criação de materiais com recursos muito limitados. Na nossa realidade, a valorização dos professores é bastante inconstante. Uma vez por ano, no dia de professor, estes são amplamente elogiados deixando de fora um grande número de questões importantes. Uma vez que a modernização do arménio ocidental é um dos focos principais dos programas do Serviço das Comunidades Arménias, procurámos incentivar os professores que se viram obrigados a adaptar as suas aulas às plataformas online. O concurso foi anunciado em meados de abril e, muito rapidamente, se disseminou nas redes sociais. Recebemos inúmeras candidaturas de professores de todo o mundo, que lecionam um vasto leque de disciplinas em arménio (línguas, história, ciência, aritmética, religião, arte, entre outras).

Através do contacto com os candidatos, entende-se que para a grande maioria este concurso é um grande incentivo. Quer vençam ou não, os professores, que na sua esmagadora maioria são mulheres, têm a possibilidade de ser ousados e, sobretudo, de valorizar o seu próprio trabalho. Recebemos materiais diversificados, tanto em termos de conteúdo como modo de apresentação. Apesar das inúmeras possibilidades oferecidas pela internet, ainda se podem constatar alguns vestígios de um pensamento e metodologias mais clássicos. Os professores relativamente mais jovens são mais ousados e a atual conjuntura revela-se mais favorável para estes. Dentro das salas de aula não têm, geralmente, acesso aos equipamentos digitais para poder tornar o ensino mais atrativo. Hoje têm uma maior possibilidade de escolher a forma de melhorar a experiência de aprendizagem dos seus alunos.

Neste contexto, recebemos também mensagens de muitos professores que partilham connosco as suas dificuldades. Claro que procuramos responder a todas as mensagens, mas nem sempre conseguimos ajudar todos. Mas pretendemos que o sentimento de impotência e de stress sentidos na realidade arménia (especialmente na diáspora) desapareça e que a Fundação possa agir mais enquanto parceira e não enquanto salvadora.

A natureza e o objetivo deste prémio era encorajar, dentro de certos critérios e limites, os esforços daqueles que se candidatavam. A data limite para apresentação de candidaturas era 31 de maio (…). Foram recebidas 101 candidaturas da Argentina, Grécia, Rússia, Líbano, Turquia, Egipto, EUA, bem como de outros países. Tínhamos originalmente anunciado que iríamos atribuir 30 prémios, mas aumentámos esse número para chegar a mais professores.

É importante destacar ainda que este concurso não tem como finalidade classificar os professores ou julgar os seus méritos no domínio da educação. Apesar das candidaturas estarem limitadas àqueles que ouviram falar do prémio, temos a certeza de que houve muitos outros bons professores que não tiveram oportunidade de participar neste concurso.

“NH” – Pode falar-nos um pouco sobre a situação no Líbano?

K.M.- Durante o ano passado, falámos várias vezes por diversas plataformas de comunicação social sobre os programas que integram a nossa estratégia no Líbano. A estratégia tem cinco pilares e inclui um programa para as escolas, professores, alunos de ensino especial, formações para professores, certificações e à promoção da cultura criativa. Desde outubro de 2019 que o Líbano vive outra vez na incerteza. Devido às manifestações, as escolas já se encontravam encerradas antes do confinamento obrigatório causado pela pandemia da Covid-19. Hoje o Líbano atravessa uma crise económica bastante grave, a qual também afeta as instituições da comunidade arménia. 

Neste contexto, foi criado um programa de apoio às escolas, ao qual se candidataram treze escolas, das quais seis avançaram para a segunda fase. Devido à situação alarmante no país, o prazo de participação inicialmente fixado para maio foi prorrogado por mais dois meses.

Em colaboração com a Universidade do Líbano, foram também elaborados cursos para requalificação de professores com início previsto para o ano letivo 2020/2021 que, pelas mesmas razões, também foram adiados para o ano seguinte. 

De momento, apenas se encontra a decorrer o programa “Cultura Criativa no Líbano”, que se destina a jovens com idades entre os 18 e 35 anos que procurem implementar as suas ideias criativas em arménio ocidental. Continuamos a receber candidaturas até 19 de junho, que serão avaliadas e selecionadas numa segunda fase, após a qual está prevista a atribuição de cinco subsídios no valor de 5000 dólares cada.

Em 2020, para além dos programas mencionados, a fundação também enviou ajuda financeira ao Líbano. No início do ano foram distribuídos 170 mil dólares por 18 escolas arménias no Líbano e no final de maio enviámos 30 mil dólares de ajuda humanitária a três organizações que prestam serviços sociais e médicos no Líbano: a Sociedade Arménia de Socorro do Líbano (Lipanani Oknutian Khatch), a União Arménia de Benevolência para a Educação (Haygagan Grtagan Paresiragan Miutiun) e a Instituição Howard Karagheusian.

Também estamos muito contentes por anunciar que muitos dos professores que participaram no prémio de ensino online de arménio são do Líbano. Desta forma, indiretamente, este prémio irá também beneficiar a comunidade arménia local.

“NH” – Será que existe ensino de arménio online? As ferramentas ao dispor dos professores são suficientes? Poderão competir com os métodos do ensino de outras línguas? Respondem às necessidades das crianças e jovens de hoje? 

K.M. – Tal como na sala da aula, o ensino online/à distância não é um fenómeno homogéneo.  As possibilidades de comunicar online com os alunos e de lhes transmitir conhecimentos, competências e valores, e de interagir com eles neste processo, são diversas e as plataformas quase ilimitadas.

Os formatos de ensino impostos pela pandemia da Covid-19 estão longe de ser considerados como o autêntico ensino online. A crise de saúde pública foi acompanhada por uma crise na educação. As escolas arménias vivem agora na incerteza e os professores que ensinam em arménio, mais ainda. Sabemos que a média das idades dos professores de arménio é bastante elevada. Destes, são raros aqueles que receberam formação pedagógica e que estão empenhados na modernização da sua profissão.

As plataformas online utilizadas no ensino à distância são flexíveis não estando limitadas a uma única língua. Assim, a sua utilização requer mais competências tecnológicas. Por outro lado, a criação de conteúdos é também uma tarefa pedagógica muito importante e meticulosa.

No entanto, é importante realçar que o ensino online não significa necessariamente um ensino inovador ou atualizado, uma vez que a internet oferece apenas as plataformas, e não propõe necessariamente abordagens e metodologias pedagógicas alternativas. Seria, então, fácil considerar que basta aplicar algumas alterações estéticas a métodos tradicionais e ineficazes e achar que estes irão ao encontro das normas pedagógicas modernas ou aos interesses de aprendizagem dos nossos alunos.

A abordagem do ensino de arménio no mundo pode ser descrita da seguinte forma: palestras (ou sermões) dados pelo professor aos alunos, com ênfase na estrutura da língua (predominantemente do ensino gramatical), e a transmissão de conteúdos que não vão além do contexto nacional. Isto arrisca-se a limitar a língua a servir apenas como ferramenta para a preservação da identidade nacional e não como uma ferramenta para a expressão individual.

Não existem diferenças entre as crianças de hoje e as crianças de ontem. Desde cedo, as crianças são naturalmente curiosas e interessadas em descobrir o mundo ao seu redor, pelo que fatores externos podem incentivá-las ou sufocá-las. O ensino do arménio é restritivo, condicionando desta forma os estudantes da língua. 

Nos últimos anos, a Fundação tem desenvolvido diversas iniciativas que visam melhorar o ambiente estabelecido e pouco favorável entre a língua e seus estudantes, adotando o arménio como meio de abertura ao mundo, garantindo não só a sua preservação como também o seu desenvolvimento (…).

 

Com o Zartsants 2.0, “participantes de todo o mundo vão poder encontrar-se à distância”

(Ani Garmiryan Responsável pelo programa de apoio às escolas e educação de arménio ocidental no Serviço das Comunidades Arménias da Fundação Calouste Gulbenkian). 

“Nor Haratch” – O programa Zarmanazan incluía também um curso intensivo para professores arménios na diáspora, organizado em colaboração com o Institut National des Langues et Civilisations Orientales (INALCO) de Paris. Ao longo dos últimos três anos, os professores adquiriram novas competências através de técnicas pedagógicas inovadoras. No contexto atual, como podem os professores envolvidos neste programa aplicar os seus conhecimentos à prática do ensino à distância?  

A.G. – Em edições anteriores do Zarmanazan, o foco principal do curso não era o ensino à distância, porque nem sempre podemos associar o uso da tecnologia com a prática de métodos pedagógicos inovadores. Mas temos recebido feedback da parte dos professores sobre as atuais mudanças. Fomos todos surpreendidos com a pandemia, as escolas fecharam de um dia para o outro, os professores tiveram que ajustar-se ao ensino online e as escolas tiveram que, dentro dos seus recursos, adaptar-se a esta nova realidade procurando soluções concretas.

“NH” – No caso das escolas da diáspora, paralelamente à transposição dos programas educativos de cada país para plataformas online, existe ainda o desafio de encontrar tempo e recursos para a aprendizagem da língua arménia… 

A.G. – Sem dúvida. E isso depende do investimento por parte dos responsáveis pelos programas de língua arménia nas escolas. Por exemplo, os resultados recentes da colaboração entre a direção e os professores de língua arménia de uma escola em Atenas serviram para encorajar professores de outras disciplinas a adaptarem os seus programas educativos. Porém, é mais frequente encontrarmos fenómenos positivos deste género em locais onde já está em curso uma mudança dos métodos pedagógicos. As características da comunicação online modificam profundamente a natureza da relação professor-aluno. Se o processo de aprendizagem era centrado no professor e baseado em métodos pedagógicos tradicionais, atualmente é preciso procurar outras formas de criar uma conexão com o aluno. Em contrapartida, se o método de aprendizagem já estava centrado no aluno, e o papel do professor era acompanhar o aluno durante o processo de aprendizagem, a transferência para o ensino online é mais fácil. É precisamente esta abordagem que o programa Zarmanazan adotou como princípio e que é posta em prática durante o programa educativo de verão e o curso para professores. 

“NH” – (…) As escolas arménias dispõem de um sistema de ensino à distância? E se esse sistema existe, até que ponto o ensino da língua arménia é incluído no programa? 

A.G. – As escolas da diáspora, do Médio Oriente à França, da Argentina ao Canadá, estão sujeitas às condições económicas locais. A implementação do sistema de ensino remoto e o sucesso da sua aplicação dependem das condições de cada país. Se estivermos a falar da criação de plataformas online de ensino em arménio, raras são as escolas capazes de passar esta barreira. Mas posso garantir que é elevado o número de professores de língua arménia que se adaptou rapidamente a esta nova situação, foram muitas vezes capazes de fortalecer a comunicação com os pais dos alunos e fomentar o trabalho em grupo para criar ou adotar métodos positivos do ensino à distância. Os resultados do prémio de ensino online em arménio criado pelo Serviço das Comunidades Arménias da Fundação Calouste Gulbenkian é a prova desse incrível entusiasmo. Ao longo de um mês e meio, mais de uma centena de professores concorreram a este prémio. A vontade e as capacidades existem.  É graças aos frutos desta nova experiência e a este entusiasmo que se poderá criar um sistema de caráter mais permanente.

“NH” – Por causa da pandemia, a quarta edição do programa de verão imersivo com a língua arménia ocidental “Zarmanazan”, que se realizaria em agosto, vai decorrer digitalmente. O que pode adiantar sobre este programa? Como vão concretizar este vasto trabalho?

A.G. – Devido às circunstâncias, o “Zarmanazan” mudou de forma e de aspeto e transformou-se no “Zartsants 2.0” (sobe o lema “participantes de todo o mundo vão poder encontrar-se à distância”). Este programa é um desafio sem precedentes para a Fundação Calouste Gulbenkian bem como para o nosso parceiro, a Associação “Mille et un Mondes”. Na minha opinião, este projeto online vai para lá do formato do “Zarmanazan”. A utilização de telemóveis e de computadores no campo era limitada. O “Zarmanazan” era um elo que crescia e se desenvolvia de ano para ano entre os jovens e os seus monitores e não queríamos que se quebrasse. Claro que o “Zartsants 2.0” será diferente do “Zarmanazan”, mas manter-se-á fiel aos mesmos princípios pedagógicos, sabendo que as regras do jogo são completamente diferentes. Poderemos contar com a experiência adquirida e os elos criados no âmbito do “Zarmanazan” para elaborar novos projetos, partindo destas bases. O princípio central é o mesmo: desenvolver a capacidade criativa dos participantes e reforçar a interação entre eles. Pensamos que esta nova experiência poderá ter consequências positivas inesperadas num futuro próximo. A plataforma online “Zartsants 2.0” entrará dentro das casas e a utilização do arménio será assim reforçada num ambiente mais próximo dos participantes. A língua também se tornará um meio de comunicação online entre os participantes. Por exemplo, o programa de rádio do “Zarmanazan”, a “Zarmanatsayn”, será difundido numa nova plataforma e contará com a colaboração de participantes um pouco por todo o mundo. O “Zartsants 2.0” pode tornar-se numa oportunidade de ouvir no quotidiano a língua arménia ao longo do ano. Tudo isto implica um importante trabalho de equipa. O “Zartsants 2.0” ambiciona ser um lugar onde os adolescentes e os jovens aprendam a conhecer-se, a aproximar-se, a pensar em conjunto, a brincar, a imaginar, a questionar, a experimentar e a criar. Nesta perspetiva, todos os participantes, grandes e pequenos, assim como os monitores, começaram a encontrar-se online para que se possam conhecer antes do início do “Zartsants 2.0”.

“NH” – Quantas pessoas participarão no “Zartsants 2.0”? 

A.G. – Há 25 monitores e o número de colaboradores oficiais a participar ronda as três dezenas. Há 23 participantes com idades entre os 18 e os 24 anos, oriundos de Beirute, de Istambul, do Canadá, dos Estados Unidos, da Argentina e da França. E o grupo das crianças conta com cerca de 40 participantes, também de vários países entre os 10 e os 17 anos, dos quais a maioria é a primeira vez que participa.

“NH” – De certa forma, os pais das crianças também farão parte desse programa de acompanhamento educativo online. Eles devem criar as condições adequadas para os seus filhos em casa…

A.G. – Exatamente. Os pais, os adolescentes e os jovens estão entusiasmados e não querem que os laços entre si se quebrem. Devo dizer que a equipa do “Zartsants 2.0” conseguiu recriar e reorganizar o programa em muito pouco tempo. Foi criado um vídeo com os monitores e os participantes do “Zarmanazan” , para dar a conhecer o conceito do Zartsants 2.0”. Os participantes e os pais serão informados diariamente acerca do seu desenvolvimento. 

“NH” – Numa palavra, podemos dizer que o “Zartsants 2.0” será uma experiência cheia de novidades e de surpresas… 

A.G. – Absolutamente. Mas para que o “Zartsants 2.0” seja um sucesso é preciso não só criar ligações entre os participantes, mas também aproveitar da melhor forma o tempo online. É preciso reduzi-lo ao mínimo possível para que os participantes não passem o dia todo em frente a um ecrã. Mais ainda, mesmo em grupo, é preciso possibilitar o trabalho individual, razão pela qual é necessário cultivar uma memória de grupo. E tudo isso, naturalmente, por meio da língua arménia.

“NH” – No fundo, o “Zartsants 2.0” vai tentar enfrentar o desafio com o qual todas as organizações locais e arménias que organizam campos educativos se veem confrontadas. Neste sentido, será interessante estudar as diversas soluções encontradas por outras organizações…

A.G. – Sem dúvida. Aliás, gostaria de mencionar brevemente as iniciativas que tínhamos planeadas, mas que tiveram de ser adiadas ou canceladas por causa da Covid-19. A primeira era o curso para professores de arménio da diáspora, organizado pelo “Zarmanazan” em colaboração com o INALCO, de que falou no início da entrevista. Visto que o curso depende da interação com os participantes do “Zarmanazan”, não foi possível realizá-lo. Também dois outros workshops para os jovens que participaram no “Zarmanazan 2019” (um workshop de teatro e um workshop literário organizado em parceria com o INALCO), que teriam lugar em Paris entre 19 de março e 1 de abril, foram cancelados. Contudo, estes foram transformados em workshops online e funcionam hoje com o mesmo entusiasmo. Muito em breve vamos ter os resultados. Espero que tenhamos a oportunidade de voltar a falar noutra ocasião. Aliás, o “Zartsants 2.0” já está em desenvolvimento graças a estes workshops.