FCG Secção: Comunidades Arménias

De onde vem tanto mal?

As fontes da intolerância e a aprendizagem da tolerância

No passado dia 12 de Outubro 2015, o Programa Gulbenkian Qualificação das Novas Gerações e o Serviço das Comunidades Arménias organizaram uma conferência sobre o tema, Fontes da Intolerância e a Aprendizagem da Tolerância. Mais de 200 pessoas assistiram à conferência, dirigida ao público em geral, com algumas sessões especialmente pensadas para professores.

Durante a sessão de abertura o Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Artur Santos Silva, destacou que a tolerância se encontra na génese da Fundação, ao ter herdado do seu fundador a tradição de promover o entendimento multicultural. Num momento em que assistimos a uma nova crise de refugiados e a um aumento do extremismo, Artur Santos Silva realça a importância de debater o conceito da tolerância e o papel das escolas na criação de uma cultura de tolerância.

José Pacheco Pereira, comissário da conferência, atribuiu à mesma o objetivo de debater o tema da tolerância tendo como ponto de partida a intolerância. Através de uma dupla abordagem foram analisados os fatores históricos, sociais, económicos e culturais que fermentam a intolerância para introduzir uma reflexão sobre o caminho para sermos mais tolerantes. Paralelamente, o enfoque foram as escolas e a procura de mecanismos para lidar com a intolerância e ensinar formas de ser tolerantes. Neste sentido, os convidados foram incentivados à partilha de métodos práticos a ser utilizados em sala de aula.
O presidente da sessão da manhã foi José Pacheco Pereira e a primeira oradora a Doutora Joan Rivitz (Ensinar a tolerância) que falou da importância de observar eventos históricos para uma aprendizagem de como lidar com atuais situações de intolerância, particularmente nas escolas. Através do exemplo do estado de Nova Jersey EUA, ilustrou diversas iniciativas que estão a ser desenvolvidas nas escolas para a criação de um ambiente mais tolerante. Advertiu, no entanto, que não cabe somente às escolas educar os jovens para a tolerância, devendo este trabalho começar em casa e estender-se pela comunidade. Em suma, o ensino da tolerância deve ambicionar ir mais além, não só proporcionar uma alteração comportamental, mas também o surgimento de novas mentalidades, de uma geração futura mais compassiva e generosa.

David Justino, o segundo orador (A Intolerância nas escolas portuguesas), centrou a sua reflexão nas limitações da educação, realçando que o ensino nem sempre é uma fonte infalível de esperança. Empregando diversos exemplos históricos destacou como a educação foi, e é, usada como um instrumento de nacionalismo e radicalismo. Para David Justino mais educação não equivale automaticamente a um maior nível de tolerância. O nível de sucesso quanto à integração de estudantes estrangeiros em escolas portuguesas é de facto elevado, devido, sobretudo, a fatores culturais e não apenas ao currículo escolar, justificou.

Duas sessões paralelas sob o título Sons e filmes sobre a intolerância para aprender a tolerância foram pensadas especialmente para professores. Tiveram como objetivo relacionar as artes com a intolerância e a aprendizagem da tolerância. Na sessão dedicada aos filmes, João Lopes fez uma apresentação de vários clássicos do cinema, que poderão servir para ser passados em salas de aula: Casablanca (1942, Michael Curtis), Dr. Strangelove (1964, Stanley Kubric), Taxi Driver (1976, Martin Scorsese), Philadelphia (1993, Jonathan Demme), e Entre les Murs/The Class (2008, Laurent Cantet), entre outros. Na sessão dedicada à música o Dr. Rui Viera Nery demonstrou como os objetivos dos hinos nacionais se vão alterando ao longo do tempo.

O Diretor do Serviço das Comunidades Arménias, Razmik Panossian, presidiu à sessão da tarde.

Marc Nichanian (Da Dhimmitude (Oriental) à Tolerância (Ocidental)) deu início à mesma, com uma palestra sobre a forma como os Estados se relacionam com as minorias dentro das suas fronteiras, abordando o paradoxo tolerância versus cidadania. A sua intervenção centrou-se no conceito de Dhimmitude, um termo criado por Bat Ye’or, e na comparação entre um sistema deDhimmitude e um sistema regido pela conceção moderna ocidental da tolerância. Através do exemplo da relação do Império Otomano com a comunidade arménia, que vivia dentro das suas fronteiras, Marc Nichanian explicou que um sistema deDhimmitude é um regime de dominação em que uma comunidade é tolerada e, ao mesmo tempo, subjugada. A transição do sistema de Dhimmitude para um sistema regido pela conceção moderna ocidental da tolerância levou à desintegração violenta do sistema de Dhimmitude e, por sua vez, à eliminação da comunidade arménia.

De seguida, Diogo Pires Aurélio (Nasce-se intolerante? O que é que nos faz intolerantes?), deu resposta ao título da sua intervenção comparando três diferentes perspetivas: a escola do iluminismo, a escola naturalista/darwinista e Sigmund Freud. Optando por favorecer a teoria de Freud, que expressa que o fenómeno da guerra é um elemento biológico inerente à condição humana, constatou, no entanto, que o ser humano é pacifista por razões orgânicas. Este paradoxo levou Diogo Pires Aurélio a chamar a atenção para o facto de a educação dever ser baseada num olhar firme da realidade.
A intervenção do Padre Anselmo Borges (Fontes de intolerância na tradição judaico-cristã) centrou-se não apenas na tradição judaico-cristã mas na religião como um tema abrangente. A religião, uma experiência do sagrado é, segundo o orador, ao mesmo tempo, uma construção social humana, vulnerável ao erro e à corrupção do poder, que pode ir até ao extremismo. O Padre Anselmo Borges realçou que sem solidariedade não pode haver paz entre os homens e que precisamos olhar para além das diferenças religiosas e trabalhar em conjunto para combater o imenso sofrimento no mundo.
A sessão de encerramento foi proferida por José Pacheco Pereira (A Europa e as suas fronteiras – a actual crise dos refugiados e a identidade da Europa), tendo começado por afirmar que a intolerância faz parte da vida e a tolerância é uma construção social. Através da partilha das suas experiências pessoais relatou como uma comunidade reage à chegada de imigrantes, sublinhando que o maior receio dos residentes é o sentimento de insegurança. Em relação à presente crise de refugiados, José Pacheco Pereira afirmou que a Europa é em grande parte responsável pelo presente conflito na Síria e, como tal, deve acolher os refugiados que dela resultem. Para José Pacheco Pereira, a Europa deve ter a preocupação de criar as condições necessárias para a integração destes refugiados e controlar o crescente sentimento de insegurança por parte dos cidadãos dos países que os recebem.