13 Outubro 2014

Milhares de Pessoas Participaram na Primeira Edição da “Semana da Cultura Arménia” na Fundação Calouste Gulbenkian

Destaques da Semana

Armenian-Culture-Week-destaque

A primeira edição da Semana da Cultura Arménia — de 12 a 19 de Outubro 2014 — organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian gerou bastante entusiamo e interesse em Lisboa. Dezasseis eventos foram organizados ao longo de oito dias que incluíram concertos, palestras, conferências e exibições.

“Foi uma semana intensa,” disse Razmik Panossian, o diretor do Serviço das Comunidades Arménias, “em que foram trazidos a Portugal vários aspetos da cultura e história da Arménia. Fiquei surpreendido com o grande interesse gerado entre o público e colegas da Fundação.”

Música

Cinco concertos realçaram a música tradicional e clássica da Arménia ao som do duduk e outros instrumentos arménios que encheram o grande auditório em várias ocasiões.

O concerto de Shoghaken Ensemble’s Caminho para a Arménia, dia 12 de Outubro, deu início à semana. Fundado em 1995, o Shoghaken Ensemble interpreta músicas e melodias com instrumentos tradicionais “deslumbrantes no seu impulso, na sua beleza e no seu mistério” segundo o Boston Herald.

Na terça-feira à noite, dia 14 de Outubro, teve lugar um concerto de Música de Câmara Arménia, com entrada livre e  a participação de solistas da Orquestra Gulbenkian e seus convidados. Interpretaram peças de Arno Babajanian, Tigran Mansurian e Komitas, tendo a audiência ficado cativada pela melodia delicada e a voz da soprano Manuela Moniz, que incluiu no seu repertório uma música clássica de anseio, “Krunk”.

Quinta e sexta-feira à noite a Orquestra Gulbenkian, conduzida por Pedro Neves, interpretou música de compositores portugueses e arménios: Luís de Freitas Branco e Aram Khachaturian, que incluíram no seu repertório a famosa Suite no.3 de Gayane. Nareh Arghamanyan, a pianista convidada, encantou a plateia com uma interpretação espirituosa de Khachaturian. O concerto principal de sexta-feira foi seguido por outro de Música de Câmara Arménia com composições de Harutiun Dellalian, Karen Khachaturian e Vache Sharafyan.

A série de concertos de música foi encerrada no domingo, 19 de Outubro, pelo concerto Espírito da Arménia de Jordi Savall que ficou esgotado. O seu ensemble incluiu músicos convidados da Arménia que proporcionaram uma apaixonante experiência musical.

Mesa-redonda, Palestras e Lançamento Editorial

Quarta-feira dia 15 de Outubro, três eventos públicos trouxeram pela primeira vez alguma informação nunca antes divulgada sobre o fundador e a sua cultura.

A mesa-redonda, Mais do que o Sr. 5%: Os primeiros anos da vida de Calouste Gulbenkian centrou-se nos anos primórdios do fundador e em como Gulbenkian pode servir como um relevante exemplo inspirador nos dias de hoje. O presidente da Fundação, Artur Santos Silva, fez o discurso de abertura da sessão. Ana Paula Gordo, diretora da Biblioteca de Arte, deu vida aos arquivos e realçou alguns dos valiosos tesouros aí existentes: pode-se destacar a carta de um muito jovem Calouste Gulbenkian dirigida ao seu pai. Jonathan Conlin, o biógrafo de Calouste Gulbenkian, apresentou alguns dos resultados iniciais da sua pesquisa, deixando a plateia ansiosa pela publicação do seu livro. Por fim, Martin Essayan, bisneto de Gulbenkian e administrador da Fundação, fez um discurso inspirador dirigido aos funcionários da Fundação. Uma maior abertura ao mundo, cooperação e eficiência foram palavras-chaves no seu discurso. A mesa-redonda foi moderada por Razmik Panossian, diretor do Serviço das Comunidades Arménias.

Também na quarta-feira teve lugar o lançamento editorial da versão portuguesa do livro de Vassili Grossman, An Armenian Sketchbook. Publicado pela editora Dom Quixote sob o título Bem Hajam! Apontamentos de Viagem à Arménia. Filipe Guerra, um dos dois tradutores do livro explicou o contexto em que o livro se insere e a visita de Grossman à Arménia no início dos anos 1960.

A abertura oficial da conferência Redes de Circulação e Troca teve lugar na tarde de quarta-feira. Mais uma vez, o discurso de abertura foi feito pelo presidente da Fundação que enfatizou o espírito de cooperação e colaboração e, igualmente, identificou parecenças entre a história arménia e portuguesa. O orador principal foi o professor Sebouh Aslanian, um historiador da UCLA, que apresentou um discurso fascinante sobre os mercantilistas arménios e as suas redes de circulação internacionais nos séculos XVII e XVIII. Esta conferência estendeu-se durante os dias de quinta e sexta-feira.

Outra mesa-redonda, onde quase 80 pessoas compareceram, introduziu o tema Música Arménia: Presente e Passado. Moderada por Rui Viera Nery, o diretor do Programa de Língua e Cultura Portuguesas, foi um evento não só informativo como emocional. Marina Dellayan, uma pianista a viver e trabalhar em Portugal, explicou a história da música arménia e forneceu um panorama da cultura daquele país. O músico Gevorg Dabaghyan apresentou o “instrumento mais arménio”, o duduk, e premiou a plateia com um pequeno concerto de três composições que incluiu o tema de Komitas “Dle-Yaman.”

Jordi Savall também gentilmente concordou em fazer parte de outra mesa-redonda, que antecedeu o seu concerto, sobre Música Arménia. Em conversa com Risto Nieminen, diretor do Serviço de Música, Savall falou do poder curativo da música e de como pessoas resilientes como os arménios têm produzido cultura em — e em resposta a — condições adversas, violentas e de exílio.

No Centro de Arte Moderna na Fundação, a Professora Kim Theriault apresentou uma palestra fascinante sobre a vida e a arte de um dos mais importantes artistas americanos do século XX: Em Busca do Abstrato: Imagens e Imaginação em Arshile Gorky. Kim Theriault focou o desenvolvimento artístico de Gorky, o seu trabalho e o seu impacto na arte moderna. Gorky criou, segundo Kim Theriault, um tipo singular de arte abstrata que estabelecia uma ponte entre o Surrealismo europeu e o Expressionismo Abstrato americano, representando, em última análise, uma manifestação visual da sua deslocalização enquanto artista de origem arménia.

Estreia de um Filme

O grande auditório esteve mais uma vez preenchido com a estreia do documentário ARtMENIA, realizado por Ricardo Espírito Santo (Terra Líquida Filmes) em colaboração com Helena Araújo. O filme apresentou à plateia portuguesa, de forma artística, a história, cultura e tradições da Arménia, sempre acompanhado pela música de Tigran Mansurian.

Conferências

Durante a semana duas conferências internacionais, ambas com duração de dois dias, foram acolhidas na Fundação. A primeira, na segunda e na terça-feira, juntou 35 líderes e pensadores proeminentes do mundo arménio para debaterem estratégias para o futuro. Sob o título Arménios em 2115 a conferência, somente acessível por convite, foi um passo substancial para estimular planeamento e visão estratégica a longo prazo. Em breve, será feito um comunicado em separado sobre este evento seguido de um relatório.

A segunda conferência de dois dias, a continuação do tema apresentado na sessão de quarta-feira à tarde, integrou um conjunto de académicos que vieram debater o tema Redes de Circulação e de Troca. Cerca de 40 especialistas internacionais analisaram o papel dos instrumentos e cadeias de mercadorias de papel em especial durante os primórdios do período moderno e durante este. Alguns dos especialistas mais conceituados na área estiveram presentes ao lado de colegas mais jovens que começam agora a ingressar neste tema. Foram feitas comparações entre comunidades arménias, portuguesas e outras redes de circulação e troca. Os ensaios serão posteriormente publicados em livro.

Exposições:

Duas exposições integraram a Semana da Cultura Arménia, as quais têm recebido uma grande adesão por parte do público.

A primeira exposição foca os anos primórdios do fundador e é baseada em documentos pessoais, sob o título Mais do que o Sr. 5%: os primeiros anos da vida de Calouste Gulbenkian. Entre os primeiros visitantes da exposição esteve o ilustre romancista Orhan Pamuk. A exposição está aberta ao público de 2 de Outubro a 3 de Novembro no hall da Biblioteca de Arte.

A segunda exposição Arshile Gorky e a Coleção, no Centro de Arte Moderna da Fundação, até dia 31 de Maio 2015, foca o trabalho surrealista de Gorky “em conversa” com outros modernistas do seu período, incluindo conceituados artistas portugueses.

Martin Essayan, administrador da Fundação, fazendo um resumo da semana afirmou que “foi emocionante ver e ouvir a cultura do nosso fundador ecoar pela Fundação. O espírito colaborativo em que a Semana da Cultura Arménia foi planeada e executada foi exemplar. O Serviço das Comunidades trabalhou em conjunto com outros departamentos da fundação — da Presidência à Comunicação, do Serviço de Música ao Museu, do Centro de Arte Moderna aos arquivos e ao Programa de Língua e Cultura Portuguesas. O sucesso da semana dependeu em grande parte desta colaboração. Por certo, foi uma semana muito positiva que promoveu a cultura arménia numa das mais conceituadas fundações da Europa sedeada em Lisboa.”

 Fotos © Márcia Lessa