7 Novembro 2013

Um novo olhar sobre a Arménia

Razmik Panossian em entrevista à Newsletter de Outubro 2013

yerevan-destaque

Calouste Sarkis Gulbenkian nasceu no Império Otomano, numa ilustre família arménia com um historial longo de mecenato nas artes e obras de beneficência. Ainda jovem, Calouste tornou-se fluente em francês e inglês, mas a sua língua mãe foi sempre o arménio ocidental, falado na antiga Anatólia antes do genocídio arménio que resultou também na perda de um território e de uma identidade linguística a ele associado. O arménio ocidental passou a ser a língua falada na diáspora e, nos últimos anos, tem vindo a perder a sua importância tornando-se, de acordo com a UNESCO, uma das línguas em risco de extinção no mundo. A Fundação Gulbenkian, através do Serviço das Comunidades Arménias, tem contribuído para a salvaguarda da língua, apoiando a edição e publicação de obras ao longo dos anos, além das escolas da diáspoPanossian_Newsletter147ra. No seu plano de atuação, o departamento dirigido desde fevereiro por Razmik Panossian e tendo como administrador Martin Essayan, pretende apostar ainda mais na proteção do arménio ocidental, criando um movimento intelectual à volta do ensino e da investigação académica sobre a língua. Diz o atual diretor que “a questão deve ser abordada de uma forma abrangente, portanto, o apoio a escolas vai ser apenas um dos elementos”, trabalhando mais para um objetivo comum do que para pedidos de apoio diversos e dispersos. Quanto às publicações, continuarão a ser publicadas obras em papel, mas a estratégia passará pelo reforço da presença arménia no mundo digital “aumentando e encorajando todo o tipo de publicações a terem versões online” para uma maior interconexão nas comunidades espalhadas pelo mundo. Esta será também uma forma de divulgar a língua arménia
ocidental.

A diáspora arménia
Antes de elaborar o novo plano de atividades da Fundação, no que diz respeito às Comunidades Arménias, Razmik Panossian visitou as várias comunidades espalhadas pelo mundo: Arménia, Líbano, Turquia, França, Reino Unido, Israel, Estados Unidos e Canadá. “Não só queria saber quais eram as suas necessidades, mas também quais eram as expetativas”, diz Razmik Panossian referindo a forma calorosa como foi recebido e os inúmeros agradecimentos aos apoios dados pela Fundação nas últimas décadas.

As bolsas de estudo constituíram a grande fatia desse apoio e o novo diretor promete a sua continuação noutros moldes, “de uma forma mais proativa e mais focada em determinadas questões ou assuntos”. A mudança passa pela “modernização das àreas de estudo”, transformando as atuais bolsas de estudos arménios em apoios à “pesquisa sobre assuntos contemporâneos dos séculos XX e XXI”.

Outra parte importante das bolsas é dirigida aos estudantes arménios da diáspora e também aqui haverá mudanças, encorajando “os melhores e os mais brilhantes alunos” a prosseguirem os seus estudos.

A situação na Síria
A pensar na numerosa comunidade arménia em Alepo, na Síria, em que um número significativo de pessoas (cerca de 10 mil) foi obrigado a procurar refúgio noutros países, o Serviço das Comunidades Arménias vai criar uma bolsa especial para estudantes refugiados, para que possam continuar os seus estudos.

Alepo foi mesmo uma das cidades mais afetadas pela guerra síria. Nela vivia uma comunidade constituída por cerca de 40 mil arménios que falavam a língua da Arménia Ocidental. Razmik Panossian fala da “resiliência impressionante” destas comunidades e do apoio dado pela Fundação à Igreja Arménia e a outras organizações para ajuda humanitária aos refugiados. O Serviço doou até agora cerca de 100 mil dólares para ajuda e continuará a acompanhar a situação.

Mostrar a Arménia em Portugal
Dentro de um ano, a Fundação dedicará uma semana à cultura arménia com música, exposições e conferências, conjugando o trabalho de várias áreas dentro da Fundação. Mostrar mais sobre o país de origem de Calouste Sarkis Gulbenkian, mas também constituir-se como “um espaço de pensamento e de preparação para o futuro” são objetivos desta programação, que o novo diretor gostaria de ver repetir-se anualmente.

Razmik Panossian fala também da necessidade de olhar para a Arménia e para o momento difícil que atravessa, “apoiando organizações da sociedade civil e as gerações mais jovens”. A Fundação pode ter “um papel ativo na ligação entre a Arménia e o resto do mundo, especialmente a nível académico”, prometendo uma intervenção e uma gestão baseada em projetos transformadores da sociedade.

Atualização em 29 Novembro 2017