7 Novembro 2013

Ramik Panossian em entrevista ao jornal arménio Aztag

«Vou tentar manter uma programação inovadora, de modo a que o nosso Serviço tenha o nível de uma organização moderna do séc. XXI»

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«Vou tentar manter uma programação inovadora, de modo a que o nosso Serviço tenha o nível de uma organização moderna do séc. XXI»

 

A presente entrevista foi traduzida a partir do arménio, editada e ligeiramente abreviada. Foi concedida por Ramik Panossian ao jornal arménio Aztag em Beirute, no Líbano, a 18 de abril de 2013. Foi igualmente publicada nos jornais arménios Jamanak e Abarez, respetivamente em Istambul, Turquia, a 22 de abril de 2013, e Los Angeles, EUA, a 26 de abril de 2013.

A entrevista foi conduzida por Silva Karavartanian, jornalista do jornal Aztag, e traduzida do arménio por Vartan Matossian.
Para a versão original em arménio, clique em http://www.aztagdaily.com/archives/116201

 

O Dr. Razmik Panossian, recentemente nomeado Diretor do Serviço para as Comunidades Arménias da Fundação Calouste Gulbenkian, visitou o Líbano há pouco tempo. De origem arménio-libanesa, Razmik Panossian emigrou ainda jovem para o Canadá, tendo feito o doutoramento na London School of Economics and Political Science, no ano 2000. Publicou vários artigos e livros sobre os arménios, a Arménia, Artsakh e a identidade arménia, além de ter dado inúmeras conferências no mundo inteiro. Tem cooperado e trabalhado com várias organizações internacionais (Nações Unidas e outras).
Apresentamos, em seguida, a entrevista concedida pelo Dr. Razmik Panossian ao jornal Aztag por ocasião dessa visita:


AZTAG
: Em primeiro lugar, queremos felicitá-lo pelo seu novo cargo como diretor. É sabido que a Fundação Calouste Gulbenkian opera sobretudo junto da diáspora, mas sabemos que visitou a Arménia há pouco tempo. O que pode dizer-nos sobre as suas atividades na Arménia?


DR. RAZMIK PANOSSIAN:
O Departamento Arménio da Fundação Gulbenkian deve, em termos gerais, refletir a realidade arménia de hoje, composta pela diáspora e pela própria Arménia. Assim, os nossos subsídios serão distribuídos em conformidade. Não temos, atualmente, nem um escritório nem um representante em Yerevan. No futuro, talvez coloquemos a hipótese de termos lá um nosso representante. A nossa cooperação com a Arménia centra-se na edição, tanto na Universidade Estatal de Yerevan e nos seus alunos como no Matenaderan. Temos um outro campo, igualmente importante – o que nos é novo: o apoio à sociedade civil da Arménia. Apoiamos as iniciativas relacionadas com a educação cívica. Em termos gerais, focamo-nos na educação e na aprendizagem e temos como objetivo o fortalecimento da língua e da cultura arménias.

A: Atualmente, existe uma vaga de forte emigração arménia, assim como um elevado desemprego entre os jovens. Fizeram algum investimento relativamente a esta questão, tendo em conta que as áreas sociais e de caridade constituem alguns dos princípios básicos da Fundação Gulbenkian?

R.P.: A Fundação é muito grande e o Serviço das Comunidades Arménias é apenas uma pequena parte dela. A Fundação tem o seu trabalho nos campos da cultura e da educação, tem uma orquestra, museus e um centro de investigação científica e assim por diante. Mas, no caso do nosso Serviço, o alvo do nosso trabalho é o mundo arménio, sobretudo do ponto de vista da educação. Os nossos projetos junto da sociedade civil arménia estão relacionados com os jovens, no sentido de que eles pensem em formas de melhorar a sua situação e o país e não apenas em emigrar.

A: No caso de Artsakh, vão tomar alguma iniciativa, ou fazer algum investimento? Estão disponíveis para o fazer?

R.P.: Por agora, não tomámos nenhuma decisão sobre essa questão, mas é certo que estamos dispostos a conceder apoios. Não creio que estejamos, neste momento, a apoiar nenhum projeto ou programa em Artsakh. Se, no futuro, houver oportunidades no âmbito do nosso plano de programação para a Arménia, por que não? Podemos ajudar.

A.: Não possuem nenhum escritório no Líbano. Estão a considerar abrir algum, uma vez que há muito que a Fundação Gulbenkian colabora sobretudo com a comunidade arménio-libanesa?

R.P.: Não, não planeamos abrir nenhum escritório por agora. No entanto, estamos a pensar em virmos a ter um representante, no futuro. Gostaria de salientar que a maior parte do nosso orçamento para a assistência vai para o Líbano. Em 2012, por exemplo, foram atribuídos ao Líbano cerca de 600.000 dólares americanos, destinados, na sua maioria, a escolas arménias e a estudantes, quantia esta que foi distribuída por diferentes setores da comunidade. No futuro, vamos tentar ser mais justos e expandir a nossa área de assistência para que não deixemos nenhum setor importante de fora.


O meu objetivo é o de que as decisões sejam tomadas de uma maneira mais moderna, com mais responsabilidade, e introduzir uma abordagem mais ’sensível‘ na seleção do programa ou projeto e subsequente desenvolvimento. O nosso objetivo permanece o mesmo: apoiar a educação, a língua e a cultura arménias. Desempenho estas funções há quase dois meses e meio e já percebi que precisamos, para o nosso Serviço, de um programa quinquenal que se baseie em considerações estratégicas. Até agora, nunca houve um planeamento sério, mas temos de ter um caminho bem definido. Não quis estabelecer esse caminho a partir de Lisboa, mas, ao invés, fazê-lo com base nas necessidades das comunidades arménias. É por isso que fiz várias viagens, com o objetivo de conhecer líderes, intelectuais e outros profissionais arménios em países como a Arménia, a França, o Líbano, Istambul e, depois, os Estados Unidos. É claro que também temos a América Latina, mas infelizmente, neste momento, não disponho de tempo para visitar as comunidades arménias desse continente. Depois de ouvir as opiniões das pessoas que vivem em todos estes países, vou preparar um programa de planeamento com base na realidade e nas necessidades concretas das pessoas. Vou trabalhar no plano nos meses de maio, junho e julho para que possamos dar início às atividades depois de setembro, nos meses de outubro e novembro. Se virmos que precisamos de um funcionário ou de um representante no Líbano que coordene e organize as várias atividades e subsídios para que possamos implementar os nossos programas com maior eficácia, poderemos analisar a viabilidade da criação de um cargo destes.

A.: Vão fazer alguma mudança quanto à atribuição das bolsas de estudo universitárias atribuídas pelo Serviço das Comunidades Arménias ou quanto às candidaturas?

R.P.: Sim, vamos proceder a algumas mudanças. O meu antecessor congelou temporariamente as bolsas, à exceção daquelas para os Estudos Arménios. Decidi mantê-las congeladas até ao novo plano de programação estar concluído. Tive em consideração dois princípios:
o apoio a estudantes com necessidades e o apoio a  estudantes excecionais. Podemos tentar conjugar ambas as situações. É possível obter informações sobre as notas excecionais, mas é mais difícil, estando aqui em Lisboa, verificar os casos dos estudantes com necessidades, ou se as famílias desses estudantes são – ou não – famílias carenciadas. Vou tentar conjugar estes dois princípios, porque acredito que todos os estudantes que tenham notas excecionais devem ter a oportunidade de prosseguir os seus estudos. No caso das universidades, a decisão será tomada em Lisboa, enquanto, para as escolas primárias e secundárias, esse tipo de decisões poderá ser tomado pelas instituições académicas que os estudantes nessas condições frequentem.

A. Embora tenha dito que a sua atividade é direcionada sobretudo para a educação e para a cultura e, dada a atual crise dos arménios sírios, já concedeu alguma contribuição ou assistência a esta questão? Vai ser recetivo a eventuais candidaturas a bolsas de estudo por parte de estudantes arménios sírios?

R.P.: Sei que as bolsas universitárias foram temporariamente congeladas, mas vamos reavaliar todas as candidaturas quando recomeçarmos. No caso de assistência humanitária, já procedemos a transferências de dinheiro por intermédio de organizações de caridade locais e já falámos sobre o assunto a Sua Santidade Aram I, no sentido de podermos prestar assistência adicional por intermédio do Catolicato.

A.: Com que tipo de dificuldades ou desafios é que o seu departamento se depara? Vai fazer mudanças no pessoal? Quem é que decide essas mudanças?

R.P.: Temos dois desafios de base:

O primeiro é de ordem externa, i.e., vou tentar modificar algumas práticas anteriores e procurar manter uma programação inovadora, de modo a que o nosso Serviço tenha o nível de uma organização moderna do séc. XXI, mudar velhos hábitos e trabalhar com base num plano de programação. Vamos dar ênfase a novas formas de cooperação com as escolas, com base em pareceres e responsabilidade. As nossas bolsas deverão ter um impacto: se o não tiverem, e em nada contribuírem para uma mudança, não haverá necessidade de distribuir dinheiro à esquerda e à direita.

O meu desafio é o de como irei introduzir estas mudanças nas comunidades arménias. No Líbano, encontrei-me com o prelado e vou também encontrar-me com reitores arménios, para lhes explicar como funciona o nosso novo método de trabalho. Para dar um outro exemplo, vamos dar ênfase a publicações modernas e inovadoras, embora, simultaneamente, mantenhamos algum apoio a obras clássicas.

O segundo desafio é de ordem interna. Há algum tempo que o Serviço das Comunidades Arménias se encontra quase isolado dos outros Serviços da Fundação e vou fazer um esforço para o reintegrar, o que implica a organização de eventos culturais arménios em Lisboa e fazer com que o nosso património nacional seja visível ao público local.

Não houve mudanças no pessoal, à exceção do diretor. Se disso houver necessidade, poderemos acrescentar mais uma ou duas pessoas ao pessoal existente. No que diz respeito às decisões de aprovação de projetos, no caso de o orçamento para uma iniciativa proposta ser superior a 12.000 Euros, essa proposta será submetida à Administração para ratificação1. Se for inferior a esse valor, a decisão caberá a dois elementos-chave, o Diretor e Martin Essayan – que, além de ser membro do Conselho de Administração, é neto de Calouste Gulbenkian. Tenho uma ótima relação com Martin Essayan, compreendemo-nos muito bem.

A.: Como estudioso da diáspora, publicou vários estudos e artigos. Afirmou, num deles, que, depois do Líbano, o centro da diáspora poderá vir a ser Los Angeles e, posteriormente, a Rússia. Em que é que baseia a sua conclusão?

R.P.: Trata-se de algo histórico. Se olharmos para a realidade da história arménia, os nossos centros nacionais têm-se encontrado, em termos gerais, na diáspora e, estes centros intelectuais, deslocaram-se ao longo dos anos. Constantinopla/Istambul e Tiflis/Tblisi – e, em certa medida, Genebra – foram os centros intelectuais arménios do séc. XIX. Depois do Genocídio, Constantinopla perdeu a sua posição, por razões que são bem conhecidas. Tiflis enfraqueceu por causa da sovietização e o Líbano veio a tornar-se o centro, com a comunidade a organizar-se nas décadas de 1920 e 1930, e com uma ênfase na construção da nação até aos anos 60-70 do séc. XX. Depois disso, muitos arménios e intelectuais arménios mudaram-se para Los Angeles durante a guerra civil libanesa e o centro da diáspora deslocou-se, até determinado ponto, para Los Angeles.

Se olharmos para o desenvolvimento dos acontecimentos e para o que se passa no mundo arménio, vemos que o número de arménios libaneses está a diminuir e que a situação atual dos arménios na Síria é deveras preocupante. Em Los Angeles existe alguma assimilação, embora também exista uma abrangente vida comunitária, com escolas, jornais, etc.. No entanto, o atual ritmo de crescimento da comunidade arménia de Los Angeles não é muito elevado. No futuro, é provável que o novo centro da diáspora venha a ser a comunidade arménia da Rússia, que conta com um ou dois milhões de arménios. No entanto, a taxa de assimilação é muito elevada, devido a vários fatores, sobretudo o da falta de escolas arménias. Há escolas que funcionam aos fins-de-semana, mas, que eu saiba, não há nenhuma escola de dia em toda a comunidade arménia da Rússia.

A. Acabou de falar em Istambul – e é um profundo conhecedor dos matizes das relações arménio-turcas. Na qualidade de politólogo, o que pensa acerca das relações entre a Arménia e a Turquia? Recebe candidaturas por parte dos estudantes arménios em Istambul?

R.P.: Trata-se de uma situação nova e que reflecte um dos nossos interesses. Acreditamos que o nosso Serviço deve investir nas relações arménio-turcas – claro que não no âmbito oficial ou político, mas no âmbito cultural e da sociedade civil. Porquê? Qual é a aposta /O que é que está aqui em jogo? Uma fundação como a Fundação Calouste Gulbenkian olha para o futuro tentando perceber em que direção é que o mundo se move. Nos próximos dez anos, as relações arménio-turcas desempenharão um papel fundamental na vida dos arménios e, portanto, existe a necessidade de as desenvolver ou compreender. Temos de ser capazes de contribuir de modo a que as vozes arménias sejam claramente ouvidas. Não nos podemos esquecer de que a comunidade arménia não só teve uma importante presença no Império Otomano como também desempenhou um papel crucial no seu processo de modernização. Atualmente, a Turquia é um país que vive um período de mudanças significativas – em minha opinião, positivas, à luz da democracia…

A. Mas, na Turquia, a repressão, tal como a pressão sobre a liberdade de opinião, ainda persiste – além do que se passou em Samatya…

R.P.: Pois. Não estou a dizer que a Turquia é um país perfeito ou totalmente democrático, mas caminha nessa direção. A Turquia é um país que já mudou muito e que ainda se encontra em mudança – o que deu aos arménios e aos curdos, bem como a outras minorias, a oportunidade de se fazerem ouvir. O importante é vermos como podemos tirar partido dessa oportunidade.

A. Estamos praticamente na véspera do início das celebrações do centenário do Genocídio Arménio. O que vão fazer para assinalar esta efeméride?

R.P.: Ainda não pensámos em nada, mas estou certo de que vamos organizar alguma coisa. A Fundação Gulbenkian não é uma organização política, nem lida com questões políticas, mas, não sendo o Genocídio Arménio uma questão política, é impossível que o Centenário não seja alvo de alguma iniciativa nossa…

Atualização em 15 Maio 2017