7 Novembro 2013

O mecenas e o diplomata

Correspondência entre Calouste Gulbenkian e Saint-John Perse

Correspondance-destaque

 

A correspondência entre Calouste Gulbenkian e Alexis Leger, poeta e diplomata conhecido como Saint-John Perse, foi publicada em França pelas Editions Gallimard. O livro intitula-se Saint-John Perse/Calouste Gulbenkian Correspondance 1946-1954 e resulta da pesquisa e organização feita por Vasco Graça Moura, a partir dos arquivos de Calouste Gulbenkian existentes na Fundação. O livro tem também inúmeras anotações de Graça Moura e a sua edição contou com o apoio da Fundação Gulbenkian.

CorrespondanceGulbenkianLeger

A primeira carta de Alexis Leger dirigida a Calouste Gulbenkian aparece em 1926 e, como conta Vasco Graça Moura no prefácio, “está escrita num tom cerimonioso, o que permite supor que se teriam acabado de conhecer”. Na altura, Calouste Gulbenkian já era um famoso homem de negócios de 57 anos, enquanto Alexis Leger, de 39 anos, ocupava o lugar de chefe de gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros Aristide Briand, que o levaria, anos mais tarde, a ocupar o cargo de secretário-geral do Quai d’Orsay.

Com pouco mais de 300 páginas, o livro apresenta 44 cartas de Saint-John Perse e 23 de Calouste Gulbenkian. A correspondência entre os dois está baseada principalmente em dois temas: as preocupações ligadas à ameaça de uma eventual 3.ª guerra mundial, em plena Guerra Fria; e os projetos de recuperação do Domaine Les Enclos, na Normandia, adquirido por Calouste Gulbenkian em 1937 e onde ele sonhava construir um jardim “à sua maneira”, enquanto lugar de meditação e repouso. Em Les Enclos, acabou por criar um parque com jardins cheios de árvores frondosas e pontos de água, numa extensão de 34 hectares.

Sempre que a sua vida de homem de negócios o permitia, instalava-se num hotel de Deauville e passava uma parte da estadia no Parque. Em 1973, a Fundação Calouste Gulbenkian doou o parque à cidade de Deauville. Através destas cartas, o leitor descobre outras facetas do mecenas e do diplomata-poeta.

Calouste Gulbenkian revela o seu lado de paisagista, conhecedor da terra e do clima normando, e ainda a sua imensa sabedoria sobre botânica. Saint-John Perse mostra-se um diplomata de visão global, refletindo a sua experiência pessoal sobre a entrada na guerra, que o levou a abandonar França e a exilar-se nos Estados Unidos. Só a partir de 1957, Alexis Leger voltará a partilhar a sua vida entre o país de origem e o país de exílio. Em 1960 é agraciado com o Prémio Nobel da Literatura.

Atualização em 20 Abril 2017