René Lalique e a Idade do Vidro

Arte e Indústria

A primeira exposição que a Fundação dedica a René Lalique desde 1988 centra-se na relação do artista com o vidro. A seleção de cerca de 100 objetos, provenientes do Museu Calouste Gulbenkian e de outros museus e coleções particulares, reúne joias, peças de ourivesaria, vidros e objetos de design.

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O Museu Calouste Gulbenkian reúne quase duas centenas de obras de René Lalique, entre as quais se contam algumas das mais célebres joias criadas pelo artista.

A origem deste magnífico conjunto remonta à década de 1890, altura em que Calouste Gulbenkian e René Lalique se conheceram. A amizade de ambos, que durou meio século, levou o colecionador a adquirir, entre 1899 e 1927, a quase totalidade das obras diretamente ao artista, com apenas uma exceção.

O percurso da exposição, cronologicamente ancorado em dois momentos chave da arte do século XX – a Exposição Universal de 1900 e a Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas de 1925 – percorrerá, no entanto, todos os grandes momentos da carreira do artista, desde a fase de produção artesanal como joalheiro no período Arte Nova, até ao período em que assumiu o papel de «industrial-criador» iniciada no momento em que passou a dedicar-se exclusivamente ao vidro.

Após a instalação da fábrica de Wingen-sur-Moder, na Alsácia, em 1922, e movido pela ideia de «arte social», preconizada pelo crítico Roger Marx, Lalique diversificou e desenvolveu a sua produção vidreira, orientada a partir de então para a realização de objetos destinados ao consumo alargado e à utilização sistemática da aplicação do vidro na arquitetura e no design.

A exposição, a primeira inteiramente dedicada a René Lalique na Fundação Calouste Gulbenkian desde 1988, reúne cerca de uma centena de obras - entre joias, vasos, revestimentos decorativos, objetos de uso quotidiano –, e revela de que forma a procura da transparência esteve sempre presente na produção do artista.

Para este projeto, o Museu Calouste Gulbenkian conta com a colaboração excecional do Musée Lalique, Wingen-sur-Moder, e com objetos provenientes de algumas das mais importantes coleções particulares do mundo. Estas peças ilustram, sobretudo, etapas fundamentais da carreira do artista na transição para a realização de objetos produzidos em escala industrial no período Art Déco.

 

Curadora: Luísa Sampaio


VISTA GERAL DA EXPOSIÇÃO

 

Visita virtual 360º

VÍDEOS

Visita guiada à exposição com a curadora Luísa Sampaio

René Lalique, o inventor da joia moderna

A técnica de moldagem a cera perdida

«Vidro, matéria maravilhosa»

O perfume moderno

Viagens e emblemas de modernidade

 


Sections

Gulbenkian comprou diretamente a Lalique a quase totalidade das obras que compõem o núcleo do Museu Calouste Gulbenkian. Em 1912, altura em que o artista realizou a última exposição de joias na sua loja da Place Vêndome, em Paris, Calouste Gulbenkian já tinha adquirido 69 peças da sua autoria, verdadeiros testemunhos da singularidade e da criatividade de René Lalique.

O artista ficou conhecido por conceber as suas joias a partir de materiais inovadores em detrimento de pedras preciosas. O vidro foi um dos seus materiais de eleição, com o qual trabalhou até ao final da sua carreira.

Gulbenkian reuniu na sua coleção um total de 82 joias Lalique, que conservava em vitrinas especialmente criadas para o efeito, uma vez que as via como obras de arte e não como objetos de uso quotidiano. Destas 82 peças, 20 integram elementos de vidro, usado tanto como material principal na produção do objeto, como para a criação de pequenos apontamentos decorativos.

René Lalique, Pendente «Orquídea», c. 1900-1901. Vidro, ouro e esmalte. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Pendente «Floresta», c. 1899‑ 1900. Vidro, ouro, esmalte e pérola barroca. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Pulseira «Mochos», c. 1900‑ 1901. Vidro, ouro, esmalte e calcedónia. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Gargantilha «Gatos», c. 1906-1908. Cristal de rocha, ouro e brilhantes. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira

No final do século XIX, Lalique adquiriu uma propriedade em Clairefontaine, onde estabeleceu uma oficina para a produção de vidro destinado não só à bijutaria, mas também à realização de uma grande variedade de peças, como estatuetas, vasos moldados a cera perdida e outros objetos.

Lalique recorreu frequentemente à moldagem a cera perdida, uma técnica que derivava de um sistema antigo de fundição de objetos em bronze. Este método consistia na criação de uma peça moldada em cera, posteriormente revestida com terra refratária. Depois de derretida, a cera dava lugar à introdução do vidro fundido. Quando arrefecida, a peça era removida do molde.

Complexo e minucioso, este processo de fabrico era usado pelo artista para as suas criações mais elaboradas, destinadas a colecionadores exigentes que pretendiam objetos de prestígio. Calouste Gulbenkian comprou a Lalique mais de uma dezena destas obras raras, quase únicas, sobretudo vasos, mas também estatuetas e outros objetos.

René Lalique, Vaso «Rosas», 1921. Vidro moldado e soprado a cera perdida. Musée Lalique, Coleção Shai Bandmann & Ronald Ooi. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collection
René Lalique, Vaso «Górgonas», 1913. Vidro soprado a cera perdida e patinado. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Vaso «Mariposas», 1913. Vidro soprado a cera perdida e patinado. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Vaso «Lagartos», c. 1914. Vidro soprado a cera perdida e patinado. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Vaso «Bagas de cornizo», c. 1914. Vidro moldado e soprado a cera perdida e patinado. Musée Lalique, Coleção Shai Bandmann & Ronald Ooi. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collection
René Lalique, Vaso «Três peixes “grondins”», 1921. Vidro moldado e soprado a cera perdida e patinado. Musée Lalique, Coleção Shai Bandmann & Ronald Ooi. Foto: Shuxiu Lin, Israël, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collection

No final da Primeira Guerra Mundial, Lalique adquiriu um terreno em Wingen‑sur-Moder, no Baixo Reno, onde construiu uma fábrica vidreira, com o apoio do Presidente da República Alexandre Millerand, seu amigo e cliente. A conceção desta fábrica foi um momento decisivo na sua carreira: Lalique alargou a sua clientela e tornou-se um dos mais celebrados vidreiros a nível internacional.

A fábrica, cuja atividade se iniciou oficialmente em 1922, permitiu a produção de objetos em massa, acessíveis a um maior número de pessoas. Ao mesmo tempo inovadoras e funcionais, estas obras pretendiam responder aos desejos dos consumidores de classe média.

A aventura do artista na difusão do vidro em larga escala contribuiria para alterar, definitivamente, a relação entre a arte e a produção vidreira. Lalique passou do estatuto de «artesão-criador» ao de «industrial criador», inventando novos métodos e enraizando o trabalho do vidro na história industrial do século XX. Apesar das profundas alterações de estilo que sofreu ao longo do tempo, a identidade da obra do artista manter‑se ia sempre.

René Lalique, Vaso «Silvas», 1921. Vidro moldado-soprado e patinado opalescente. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Vaso «Cluny», 1925. Vidro moldado-soprado e bronze. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Vaso «Danaides», 1926. Vidro prensado. Coleção Musée Lalique, Wingen‑ sur‑ Moder. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Wingen-sur-Moder
René Lalique, Vaso «Bacantes», 1927. Vidro prensado. Coleção Musée Lalique, Wingen‑ sur‑ Moder. Foto: Karine Faby, Musée Lalique, Wingen-sur-Moder
René Lalique, Vaso «Palestra», 1928. Vidro moldado-soprado e patinado. Musée Lalique, Coleção Shai Bandmann & Ronald Ooi. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collection
René Lalique, Vaso «Languedoc», 1929. Vidro moldado-soprado. Musée Lalique, Coleção Shai Bandmann & Ronald Ooi. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collection

A fábrica de Wingen-sur-Moder também permitiu a Lalique amplificar a sua obra e dar resposta a encomendas de projetos de arquitetura moderna. No início do século XX, Lalique instalou-se num hôtel particulier no n.º 40 de Cours-la-Reine, em Paris, ocupando-se pessoalmente da decoração interior e exterior do edifício, cuja fachada incluía painéis de vidro ornamentado com motivos vegetalistas.  

O êxito deste empreendimento abriu caminho para a experimentação e Lalique continuou a aplicar o vidro na arquitetura. A parceria comercial que desenvolveu com o perfumeiro François Coty culminou num projeto arrojado de decoração da fachada da sucursal americana da sua loja na 5th Avenue, em Nova Iorque, para a qual o artista concebeu, no momento da sua renovação, revestimentos de vidro com motivos de papoilas.

No início da década de 1930, Lalique participou na decoração do maior paquete do mundo, o Normandie, criando revestimentos em vidro, além de se ter encarregado dos aspetos da iluminação, para o qual concebeu lustres e appliques de grande dimensão. Em 1932, o artista trabalhou na instalação de seis fontes de vidro no Rond-Point dos Champs-Élysées, concebendo dois modelos com motivos de pombos e com esquilos e pinhas.

René Lalique, Painel decorativo «Jet d’eau», 1925. Vidro prensado. Musée Lalique, Coleção Shai Bandmann & Ronald Ooi. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collection
René Lalique, Painel decorativo «Soprador de vidro», 1925. Vidro prensado e patinado. Musée Lalique, Coleção Shai Bandmann & Ronald Ooi. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collec
René Lalique, Painel decorativo «Papoilas», 1912. Vidro prensado e patinado. Musée Lalique, Coleção Shai Bandmann & Ronald Ooi. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collection
René Lalique, Painel decorativo «Atletas», c. 1902. Vidro prensado e patinado. Musée Lalique, Coleção Shai Bandmann & Ronald Ooi. Foto: Karine Faby, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collection

Depois da Primeira Guerra Mundial, assistiu-se a um período de grande prosperidade, com um aumento do consumo e o desenvolvimento de um gosto moderno. A aquisição de objetos para uso individual marcou as décadas que se seguiram, entre toucadores, porta-joias, cinzeiros e mascotes de automóveis – as mascotes de automóvel entraram em voga graças ao Príncipe de Gales, para quem Lalique criou Galgo.

A versatilidade de Lalique era inesgotável. É nesta época que começa a introduzir o vidro de cor na sua produção regular, criando objetos de dimensões diversas e de grande originalidade. Os temas favoritos do artista – a mulher, a natureza (fauna e flora), a Antiguidade – eram recorrentes na sua obra e podiam ser encontrados em diferentes tipologias de objetos.

A Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas de 1925 desempenhou um papel fundamental na ligação entre a arte e a indústria, promovendo o consumo como forma de alcançar a satisfação pessoal. O evento contou com a participação dos maiores nomes da época, incluindo Lalique, que apresentou um pavilhão ao estilo Art Déco, com uma decoração que privilegiava o vidro e colaborou em projetos diversos no âmbito da exposição.

René Lalique, Sinete «Zangão», 1910. Vidro moldado, prensado e patinado. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Mascote de automóvel «Grande libélula», 1928. Vidro prensado e metal. Coleção Musée Lalique, Wingen‑ sur‑ Moder. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collection
René Lalique, Sinete «Cabeço de águia», 1911. Vidro moldado, prensado e patinado. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Mascote de automóvel «Galgo», 1928. Vidro prensado e metal. Musée Lalique, Coleção particular. Foto: Karine Faby, Coleção particular
René Lalique, Castiçais «Papoilas», 1922. Vidro moldado, prensado e patinado. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Castiçais «Cariátides», 1923. Vidro prensado e patinado. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira

O interesse de Lalique pelo vidro como material de criação desenvolveu-se muito cedo na sua carreira. Em 1890, o artista já tinha instalado uma oficina destinada à realização de experiências com vidro no seu ateliê na Rue Thérèse, em Paris.

Exemplos da produção dessa época incluíam estatuetas de vulto perfeito e objetos em vidro com montagens em prata, como cálices e jarras, entre outros, alguns dos quais foram apresentados na Exposição Universal de 1900.  

A técnica utilizada para a criação destas peças baseou-se na aliança entre o vidro e a ourivesaria, o que veio a complementar a associação entre vidro e joias que Lalique já havia desenvolvido. Realizado no início do século XX, o monumental centro de mesa Figura feminina, em prata e vidro, é uma das obras mais significativas deste grupo, a par com a jarra Cardos e o açucareiro Serpentes.

René Lalique, Jarra «Cisnes», c. 1896-1898. Vidro soprado-moldado e prata. Musée Lalique, Coleção Shai Bandmann & Ronald Ooi. Foto: Rami Salomon and Kineret Levy Studio, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collection
René Lalique, Jarra «Cardos», c. 1898-1900. Vidro soprado opalescente e prata. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Cálice «Motivos de videira e figuras», c. 1899-1901. Vidro moldado, prata e bronze. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Cálice «Hastes de videira», 1898-1900. Vidro, metal (níquel), marfim e esmalte. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Açucareiro «Serpentes», c. 1897-1900. Vidro soprado e prata. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Centro de mesa «Figura feminina», c. 1903-1905. Vidro moldado e prata. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira

Em 1907 René Lalique conheceu o perfumeiro François Coty, responsável pelo nascimento do perfume moderno, que o convidou para desenhar primeiro os rótulos para os seus perfumes e posteriormente os frascos para as suas fragâncias. Foi esta relação com Coty que deu origem ao interesse de Lalique pela produção em série: muito antes da abertura da sua fábrica, o artista alugou um espaço em Combs-la-Ville, nos arredores de Paris, para produzir objetos em massa.  

A parceria entre os dois homens revolucionou a indústria perfumeira e marcou a carreira de Lalique. O artista desenhou mais de 20 frascos, vaporizadores e caixas para Coty. De forma a dar uma resposta mais rápida à crescente procura, Lalique registou uma patente para a produção de frascos, garrafas e vasos, que permitia um fabrico com maior regularidade e precisão.

Lalique fabricou também frascos para outras casas famosas, como Worth, Roger & Gallet, Guerlain, Lubin, Nina Ricci, D’Orsay, D’Héraud e Rochas. Lalique tinha uma grande capacidade para criar designs adaptados a cada perfume, atribuindo uma imagem à fragância.

René Lalique, Frasco de perfume «Sereias», 1920. Vidro moldado e patinado opalescente. Museu Calouste Gulbenkian. Foto: Catarina Gomes Ferreira
René Lalique, Frasco de perfume «Lucien Lelong», 1929. Vidro moldado e esmalte. Musée Lalique, Coleção Benjamin Gastaud, Paris. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Benjamin Gastaud collection, Paris
René Lalique, Frasco de perfume «Sereias», c. 1905. Vidro moldado a cera perdida e ouro. Musée Lalique, Coleção Shai Bandmann & Ronald Ooi. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Shai Bandmann & Ronald Ooi collection
René Lalique, Frasco de perfume «Ambre antique», 1910. Vidro moldado e patinado. Coleção Musée Lalique, Wingen-sur-Moder. Foto: Studio Y. Langlois, Musée Lalique, Wingen-sur-Moder

 


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