Luís Vicente

Solo

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Músico de um registo febril, Luís Vicente desenvolve a solo uma relação com a trompete que o lança, com frequência, para zonas mais contemplativas e meditativas, sugeridas por um diálogo que – ao invés de estabelecer com outros instrumentistas – desenvolve consigo mesmo. Consigo e com a sala onde atua, abrindo-se à exploração das características acústicas do espaço como elemento fundamental do discurso. Tal como documentou em Maré (2020), o formato solo permite ao trompetista perseguir esboços melódicos e aprofundar motivos simples, mas também cair na toca do coelho da experimentação e dedicar-se a uma linguagem rarefeita. Desse choque nasce todo um novo e estimulante mundo, para o qual o músico parte sem qualquer mapa.

 


Programa

Luís Vicente Trompete

Foi parafraseando Fernando Pessoa, e as cogitações simbólico-analógicas do poeta de que «tudo o que vemos é outra coisa», que Luís Vicente se lançou a este projecto a solo que, em disco, tomou o título de “Maré”. Gravado ao vivo no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, o álbum questiona os factores relacionais implicados pela improvisação musical: se numa prática colectiva o solo é, necessariamente, um jogo a dois entre quem toca e a música criada, num espaço de grande reverberação moldada por séculos de pedra, com as suas implicações históricas, essa dinâmica surge numa configuração a três, estabelecida entre o improvisador, a matéria da improvisação e as determinações da arquitectura envolvente. Nestes parâmetros, todo um plano de acção e reacção com múltiplos condicionalismos se desenvolve, acabando por ser válido, também, para outras espacializações menos impositivas tanto em termos de eco e sustém como de significado arquitectónico.

É neste contexto que toda a musicalidade mais essencial de Vicente se expõe, e designadamente a maneira como combina a sua (improvável, dadas as extremas diferenças) referenciação em Don Cherry e Kenny Wheeler e os seus dois parâmetros de desempenho, um o típico fraseio jazzístico, o outro a exploração de léxicos e técnicas experimentais. E assim como o jazz do trompetista reconcilia guturalismo e doçura, as aparentes contradições entre o que herda do passado e o que projecta de inovador tornam-no intemporal, no sentido de “fora do tempo”. Há momentos em “Maré” que parecem barrocos, mas o que trazem à evidência é aquilo a que Omar Calabrese chama “neobarroquismo”, ou seja, uma reposição da «polidimensionalidade» e da «mutabilidade» do barroco nos nossos dias. Daí a impressão de que esta música junta o novo e o antigo, «(…) sombras de mãos cujos gestos são / A ilusão mãe desta ilusão» (Pessoa).

Rui Eduardo Paes

 


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